Marcas que estão no século errado
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Micheli Nunes
micheli.nuneshá 20 dias

Marcas que estão no século errado

Histórias de empresas que não entendem mulheres ou não se importam com o que elas pensam.
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Marcas que estão no século errado
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Villa Mix e as coisas que a gente finge que não acontecem

Micheli Nunes
há 22 dias73.0k visualizações
Villa Mix e as coisas que a gente finge que não acontecem
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Imagem: Reprodução/Instagram

A casa noturna Villa Mix, de São Paulo, foi condenada pela justiça a pagar uma indenização de R$ 60 mil a uma ex-funcionária por danos morais. A autora da ação, que é negra, revelou que a casa noturna a obrigava a restringir a entrada de outras pessoas negras, pois não se enquadravam no perfil de frequentadores pré-estabelecidos: gente branca, "bem arrumada" e com "aparência" de rica.

O estabelecimento postou um comunicado péssimo em suas redes sociais, dizendo que a notícia do processo havia sido "deturpada" pela mídia. Eles ainda afirmam, como se fosse alguma vantagem, que já foram investigados por racismo por diversos órgãos "especializados", que não teriam encontrado provas. 

Mas é duro engolir essa versão, já que o próprio processo conta com prints de uma conversa de grupo de funcionários da casa pelo  whatsapp, na qual o chefe da funcionária envia fotos de uma pessoa negra e questiona "quem liberou?". A conversa culminou na demissão da funcionária em questão no dia seguinte.

A Villa Mix jamais admitiria que comete discriminação racial, afinal isso é um crime, mas não é nada difícil acreditar na versão da funcionária. Uma simples olhadela no Instagram oficial da casa e já dá pra perceber que tipo de gente é bem-vinda no local: jovens brancos e dentro do padrãozinho.

Esse tipo de discriminação acontece por baixos dos panos com muita frequência, em centenas de empresas e estabelecimentos. E os que comentem essa discriminação já têm suas ferramentas para se defender de acusações: "códigos de vestimenta", "padrão de roupa" e "boa aparência". O que não faz o menor sentido prático. 

"Pedimos pra ela alisar o cabelo porque a empresa exige elegância". "Ele não entrou porque a vestimenta estava inadequada". "Escolhemos a outra moça porque ela tem o perfil da empresa". Todos subterfúgios capengas, mas mais "tragáveis" do que admitir a verdade feia que está por baixo: racismo.

Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade

Micheli Nunes
há 20 dias42.2k visualizações
Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade
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A marca dinamarquesa The Perfect V conseguiu aparecer em jornais, revistas e sites de todo o mundo na última semana com um lançamento um tanto polêmico. Com o objetivo de fazerem as mulheres alcançarem a "vagina perfeita", eles criaram uma linha de produtos vaginais que fogem bastante do tradicional sabonete íntimo. Além de um esfoliante (socorro) para a região íntima, eles têm um serum rejuvenescedor, um condicionador, um spray revitalizante, um tonificante e um ILUMINADOR VAGINAL.

Isso mesmo! Sabe aquele produto de maquiagem que se passa nas maçãs do rosto e no nariz para dar uma finalizada no look? Pois é o mesmo princípio, só que na vulva. O site do produto promete dar uma "beleza extra" à região, "iluminando e apagando as imperfeições". Além do completo absurdo de criar a necessidade de maquiar uma vagina, o produto pode ser extremamente perigoso. Médicos recomendam que a vulva, que é muito delicada, seja lavada com bastante água e, no máximo, um sabonete neutro sem perfume. Enfiar produtos desconhecidos e potencialmente abrasivos nos órgãos genitais pode irritar a pele, causar alergias, e infecções, matando as bactérias "do bem" e criando um ambiente próprio para a proliferação das bactérias "do mal".

Padrões cada vez mais inalcançáveis

Se o problema fosse apenas uma marca dinamarquesa criando um produto absurdo, seria fácil de resolver, mas não é bem assim. Os padrões inalcançáveis de beleza feminina já chegaram faz tempo à região íntima, fenômeno que é associado ao acesso fácil à pornografia online. Cada vez mais adolescentes recorrem a cirurgiões plásticos para mudar a aparência da vulva antes mesmo de terem relações sexuais, e o Brasil é líder no procedimento. E tudo fica ainda mais triste se levarmos em conta os riscos dessa cirurgia, que corta fora centenas de terminações nervosas, pode comprometer a circulação sanguínea da região e diminuir muito o prazer sexual de garotas que ainda não chegaram aos 20 anos. Isso em uma cultura que permite que apenas 22% das mulheres brasileiras hoje chegam ao orgasmo.

Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade

Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, somente em 2016, 25 mil brasileiras fizeram a cirurgia, que só é indicada em raríssimos casos de hipertrofia, nos quais a mulher sofre de dores, dificuldades para andar e assaduras. E elas fizeram isso simplesmente porque não sabem como é a aparência de uma vagina normal. A ideia de inadequação aparece quando elas passam a ver atrizes pornô com vaginas consideradas "delicadas", com lábios minúsculos e irrealisticamente simétricos, quando na realidade as vaginas têm formas extremamente diversas.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.