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'Me Chame Pelo Seu Nome' não é a típica história de amor gay. Ainda bem!

Micheli Nunes
Autor
Micheli Nunes

Sem suicídio, discriminação ou ataques homofóbicos, o filme é simplesmente uma história de amor

'Me Chame Pelo Seu Nome' não é a típica história de amor gay. Ainda bem!

Imagem: Divulgação

Um dos queridinhos para o Oscar, com quatro indicações, incluindo de Melhor Filme, "Me Chame Pelo Seu Nome" foi lançado como um filme independente, que arrebatou os festivais europeus e americanos. Em meio aos inúmeros elogios que o longa recebeu, uma parcela dos críticos reclamou que o filme era "feliz demais", e que isso estragaria a experiência. Parte desse descontentamento certamente vem de como o cinema e a literatura nos treinaram para enxergar histórias de pessoas LGBT. Via de regra, filmes e livros centrados em casais do mesmo sexo são dramas que giram em torno de tragédias, envolvendo mortes, depressão, espancamentos, Aids, discriminação, abandono e suicídio. Mas "Me Chame Pelo Seu Nome", que está em cartaz nos cinemas, é um muito bem-vindo ponto fora da curva.

Não que a história tenha exatamente um final feliz, isso depende muito do ponto de vista do espectador, mas nada do que acontece vem de desdobramentos trágicos por causa da relação entre dois homens. A trama acompanha Elio, filho de professores universitários liberais, que todo ano recebem um aluno da pós graduação para passar o verão trabalhando e estudando em uma vila paradisíaca no sul da Italia. Elio se encanta por Oliver, um pesquisador americano que tem um jeito charmoso e arrogante. À medida que as semanas passam, os dois se envolvem com mulheres, mas os sentimentos e desejos de Elio começam a ficar cada vez mais fortes, e ele finalmente se abre para Oliver. E aí começa um delicioso amor de verão.

O filme tem um zelo especial em reconhecer a diferença de idade entre os dois (Elio tem 17 e Oliver 24), e faz questão de mostrar Elio como o iniciador da relação, e Oliver sempre preocupado em checar se o parceiro se sente respeitado e cuidado. Esse olhar preocupado mostra o relacionamento dos dois como uma balança, equilibrado, e tranquilo. E essa tranquilidade foi justo o que incomodou tanta gente.

Não é uma narrativa comum na literatura e no cinema, porque não era uma narrativa que fosse aceita pelo público. A história LGBT que é contada ao público não-LGBT é uma história de punição, de sofrimento e de uma simpatia conquistada a duras custas. Era preciso ver o "diferente" sob uma luz de sofrimento, sendo castigado para que merecesse redenção e, consequentemente, seu lugar no mundo. Mas o mundo vem mudando, e apesar da comunidade LGBT ainda ser alvo de ódio e violência, existem espaços seguros para uma vida que não gira em torno da identidade sexual ou de gênero e, mais importante, que não gira em torno de sobrevivência. 

É importante ressaltar, no entanto, que Elio e Oliver são um casal privilegiado em muitos sentidos. Eles são brancos, ricos, parte da elite intelectual, em um ambiente progressista e sem julgamentos. O que ainda parece ser o único ambiente possível para um adolescente bissexual - ou gay - viver em paz, pelo menos no cinema. "Me Chame Pelo Seu Nome" é um passo curto, mas na direção certa. E isso é muito importante em termos de representatividade. É lindo saber que jovens gays e bissexuais agora têm referências positivas no cinema, e vão crescer sabendo que uma vida feliz e normal é possível.