MULHERES

Não, a Emily não é "trouxa"

Micheli Nunes
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Micheli Nunes
Não, a Emily não é "trouxa"

Vivian e Ieda consolam Emily após Marcos ser expulso do programa

O caso de relacionamento abusivo no Big Brother Brasil escalou para agressões físicas e culminou ontem com a expulsão de Marcos da casa. O participante foi filmado em diversas ocasiões agredindo física e psicologicamente sua namorada, Emily, e depois de muita pressão do público e de investigação criminal, a Globo cedeu e o tirou da competição. 

Quando sua eliminação foi anunciada, Emily chorou bastante, demonstrou culpa, disse que estava acertando as coisas com ele e que não queria que aquilo acontecesse. Ela foi consolada pelas duas outras finalistas do programa, que asseguraram que ela não tinha culpa nenhuma. A reação na internet foi dividida. Muita gente aprovou a eliminação, mas a hashtag #ForçaMarcos acabou nos TTs do Twitter. Uma enorme corrente de pessoas também criticou a participante, dizendo que ela "se deixou" ser abusada, chamando-a de "tonta" e "trouxa".

Além de uma tremenda falta de empatia, esse tipo de comentário mostra que as pessoas não entendem o conceito de relacionamento abusivo. Nossa sociedade tende sempre a responsabilizar as mulheres por todas as pessoas ao seu redor e a culpá-las pelas violências que elas sofrem. No caso do programa, é possível ver na internet vários vídeos em que Marcos tenta controlar a namorada. Ele exige dela certos comportamentos, a encurrala, a agride verbalmente, a segura pelo braço, a belisca. Ele chegou, inclusive a prendê-la em um mata-leão e, em uma cena chocante, a jogá-la no chão e a bater a cabeça dela contra o piso. Então por que ela ainda continua com ele e chega até a defendê-lo? 

A resposta não é simples. O abuso muitas vezes vem atrelado a dependência financeira, e por isso muitas mulheres não abandonam os parceiros violentos, mas em muitos casos a mulher é financeiramente independente, e mesmo assim não consegue sair da situação de agressão. Tudo isso faz parte da dinâmica imposta pelo abusador. Parte do abuso é justamente estabelecer uma hierarquia e dilapidar a autoestima da mulher, fazendo com que ela se sinta presa a ele.

Em relacionamentos abusivos, a vítima é levada a acreditar que o abusador está com a razão quando a critica e a controla. Ela acha que está errada e é inferior, e pensa que ficaria sozinha se saísse da relação. E quando a agressão se torna física, ela pode até entender que não merecia aquilo e temer por sua vida, mas a violência é quase sempre seguida por um pedido de desculpas e uma "fase romântica", em que a relação parece perfeita. Até a próxima violência acontecer.  

Não, a Emily não é "trouxa"

O abusador não xinga e bate o tempo todo. Ele é gentil, romântico, engraçado, protetor e inteligente na maior parte do tempo. Os sentimentos acabam se misturando e nem sempre é fácil distinguí-los. A mulher o ama, se preocupa com ele, sente culpa e tem medo dele. Quando Emily fala "eu não queria que ele saísse", ela demonstra a preocupação, mas também o medo. O que ele faria se pensasse que foi responsabilidade dela? Se debaixo de 200 câmeras ele a agredia fisicamente, imagina lá fora, sem ninguém olhando.

Quando a mulher se vê presa nesse ciclo, é muito difícil admitir que ela é vítima de violência, porque o rótulo vem com um estigma e com muita vergonha. Vítimas são vistas como "trouxas", "mulheres de malandro". E às vezes as pessoas até justificam as ações do abusador. Por causa disso, muitas mulheres aceitam uma outra narrativa para tentar explicar o abuso. "Ele estourou, mas não é assim". "Ele não queria me machucar". "Eu também bati, eu provoquei, é recíproco". "Ele é uma pessoa boa". Porque nessas circunstâncias é mais fácil explicar por que ela ainda está ali.

Não é fácil reagir ao abuso. Se é no começo, a mulher corre o risco de ser chamada de exagerada, de desleal, de louca. Ela duvida de si, ela dá a ele o benefício da dúvida. Depois que a coisa escala, a questão passa a ser "por que não reagi antes? agora é tarde". Então antes de chamar a Emily de trouxa, vamos exercitar a empatia. Aquela situação é extremamente comum em diversos relacionamentos. É só olhar a hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo nas redes sociais. Poderia ser você.