OUTROS

Ninguém mata por amor

Micheli Nunes
Author
Micheli Nunes
Ninguém mata por amor

Uma pessoa inconformada é alguém que passou ou está passando por uma situação extremamente difícil, ou seja, que merece nossa empatia ou pena. E isso diz muito sobre a obsessão da mídia em colocar no títulos das matérias sobre feminicídio que o assassino "estava inconformado com o fim do relacionamento". É como se, antes mesmo de contar o que o cara fez, a notícia já apresente um belo atenuante para o seu crime. "Ele amava tanto que foi lá e MATOU". É só digitar "inconformado" na aba de notícias do google e ver a enxurrada de notícias de ex-maridos e ex-namorados matando mulheres. O caso mais recente é o da moça da foto, que foi espancada, arrastada pelos cabelos e levou vários tiros (o ex chegou a recarregar a arma e esvaziar novamente).

Jornalisticamente falando, esse tipo de adjetivação é um erro. Por motivos óbvios, não se qualifica as motivações de um criminoso no título de uma notícia. Não estou aqui defendendo uma utópica imparcialidade, apenas o bom senso. A verdade é que o repórter não sabe se o homem estava inconformado ou não. E, mesmo se soubesse, existe uma responsabilidade ao noticiar casos assim. "Inconformado" é uma palavra que um advogado de defesa usaria. Mas parece que quando se trata de homens, toda a sociedade se voluntaria para defendê-los. Para eles, estar "inconformado" justifica tirar a vida de alguém. Enquanto às mulheres, apenas desconfiança e culpa.

Um exemplo bem peculiar é o dos dois assassinos que espancara um ambulante até a morte, em dezembro, em um metrô de São Paulo. Logo de cara o delegado já fez questão de informar à imprensa que um dos criminosos estava transtornado, pois havia sido "vítima de infidelidade", e já no mesmo fôlego completar com um "isso não justifica". Se isso não justifica, por que ele está usando para justificar? Chamar um cara que acabou de matar um idoso a chutes e pontapés de "vítima" já é uma aberração, mas o delegado ainda foi ao extremo de dividir a culpa do assassinato com uma mulher que não participou nem testemunhou o crime. Afinal, o pobre assassino estava "inconformado". 

Segundo a ONU, o Brasil é o quinto país no mundo que mais assassina mulheres. São assassinatos cruéis, cometidos por homens que queriam que elas agissem de determinada maneira e, quando não foram atendidos, decidiram que a solução seria matá-las. Esses homens não merecem nossa simpatia.