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Nossa cultura sempre aceitou a erotização de crianças

Micheli Nunes
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Micheli Nunes
Nossa cultura sempre aceitou a erotização de crianças

Foto de divulgação do CD do Grupo Mulekada - ano 2000

Quem vê as fervorosas acusações de "pedofilia em museus" nas redes sociais pode até pensar que a proteção de crianças e adolescentes é prioridade no Brasil. A verdade é que a nossa cultura sempre foi complacente com a erotização de crianças para o voyeurismo adulto, especialmente de meninas. Nos anos 80 e 90, até o início dos anos 2000, era rotina ver meninas com menos de 10 anos usando pouca roupa e dançando sugestivamente em programas de auditório no meio da tarde. Quem não se lembra do Grupo Mulekada ou dos bizarros concursos de "Mini Loira do Tchan"? E a ironia é que o fim desse tipo de entretenimento é associado à ascensão do "politicamente correto", pauta duramente criticada pelos mesmos grupos conservadores que demonizaram a apresentação no MAM.

Essa erotização de crianças é parte do machismo e da cultura do estupro, que supervaloriza a virgindade, sexualiza a "pureza" e exalta o corpo cada vez mais jovem em detrimento do maduro. Não é à toa que o termo mais buscado por brasileiros em sites pornográficos é "novinha". É essa cultura que insiste que "meninas amadurecem mais rápido", frase tão repetida que é tida como verdade, e que serve perfeitamente como desculpa para homens adultos flertarem com meninas. Meninas essas que são mais "dóceis" e "fáceis" de controlar e manipular do que mulheres adultas.

Nossa cultura sempre aceitou a erotização de crianças

A normalização de relacionamentos de homens mais velhos com mulheres muito jovens, e o estranhamento quando o contrário acontece, também é parte dessa cultura. Tudo isso transmite a mensagem de que homens mais "maduros" são mais desejáveis, ideia que é inserida na cabeça de meninas desde antes da puberdade. Quem não tinha amigas no ensino médio que sonhavam em namorar um "cara de faculdade"? Isso tudo se encaixa milimetricamente, como uma máquina bem azeitada.

Quando a menina Valentina, de 12 anos, do programa MasterChef Júnior, foi vítima de assédio virtual em massa, surgiu um grupo de conservadores no Facebook criticando quem havia se revoltado com os comentários. "Vocês já se perguntaram porque a ira das barangas em relação a essa formosura? Todos nós sonhamos em casar com uma mulher desse tipo, no tempos de nossas avós, elas se casavam com essa idade, virgem, magra, pura, servindo e cuidando da casa e cozinhando". Na época, o coletivo feminista Think Olga lançou a campanha "Meu primeiro abuso", que foi duramente criticada por grupos conservadores, que insistiam em culpar as vítimas e diziam que havia assuntos mais "importantes" para serem tratados.

Nossa cultura sempre aceitou a erotização de crianças

A parte complicada (mas muito importante) de entender é que nem todo abusador de crianças é um pedófilo. A pedofilia é um transtorno psiquiátrico que faz com que pessoas adultas sintam atração sexual primária ou exclusiva por crianças antes da puberdade. Muitos dos abusadores não se encaixam nessa descrição, são apenas homens adultos, "normais" e oportunistas, que se protegem nessa cultura complacente  e se aproveitam de um dos grupos mais vulneráveis da sociedade: as crianças. O desejo desses homens por meninas muito jovens não apenas é visto como normal, como também é incentivado pela nossa cultura.

O caso do MAM, no qual um artista nu, deitado imóvel no chão, teve o pé e a mão tocado por uma criança, é um perfeito exemplo do que não é pedofilia nem abuso de crianças. O artista se apresentava em uma sala fechada com classificação indicativa. A mãe da menina, que era uma frequentadora do museu e não fazia parte da apresentação, entrou na sala com a filha e permitiu que ela interagisse com o artista, assim como os outros frequentadores estavam fazendo. Não houve erotização, não houve sexualidade, não houve sequer uma ereção.

A decisão da mãe de entrar ali com a menina é passível de questionamentos, afinal, vivemos em uma cultura que erotiza todo tipo de nudez. Porém, é muito importante deixar claro que a menina em questão não foi abusada ali, naquele contexto. O maior abuso que ela sofreu foi ter seu rosto exposto na internet. Mas essa cultura que associa toda nudez ao sexo é justamente parte do problema, porque quanto mais tratarmos o corpo humano como tabu, mais difícil será falar sobre ele. Isso coloca crianças em maior vulnerabilidade, pois, se elas forem de fato vítimas de abuso, sentirão vergonha e medo de contar para outras pessoas o que aconteceu com elas. Afinal, é um assunto proibido. É justamente com isso que os abusadores contam. 

É importante, porém, entender toda a razão de ser dessa histeria. A primeira mostra de arte que foi acusada de pedofilia tinha reproduções de fotos antigas de crianças (todas enviadas voluntariamente pelos próprio modelos depois de adultos) com frases como "criança viada jamais será calada". A associação da não-heterossexualidade com pedofilia é uma falácia criminosa. Depois disso a coisa espiralou fora de controle, com pessoas pedindo a prisão de artistas que morreram no século 17.

Nossa cultura sempre aceitou a erotização de crianças

Essa perigosa onda conservadora é extremamente calculada. Já no século passado, a propaganda americana começou a acusar os russos de matarem crianças para comer. O bordão, que acabou virando a piada de que "comunistas comem criancinhas", vive até hoje, e a classe artística liberal é a bola da vez. Mas é só levantar pautas de direitos das crianças e dos adolescentes, e analisar comentários em casos de estupro de vulnerável, para entender que a preocupação dos conservadores com o bem estar das crianças acaba na porta do museu.