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O argumento de Deborah Secco e os mecanismos perversos da Cultura do Estupro

Micheli Nunes
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Micheli Nunes
O argumento de Deborah Secco e os mecanismos perversos da Cultura do Estupro

Imagem: Globo/Divulgação

A atriz Deborah Secco apareceu em um vídeo no YouTube incentivando mulheres a fazerem sexo mesmo sem vontade, argumentando que a parte chata é só nas preliminares. "E outra coisa importantíssima, se você não faz sexo com seu homem, outra pessoa vai fazer, porque homem não fica sem sexo", completou a atriz, que foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter por causa dessa polêmica. Mas se você acha que o pensamento dela é anacrônico, significa que você vive em uma bolha.

Por mais absurdo que pareça dizer que uma mulher é obrigada a fazer sexo dentro de um relacionamento, seja para impedir uma traição ou para cumprir o "papel" de esposa, essa ainda é uma noção largamente aceita. Apenas em 2009, com a revisão da Lei 10.015, o estupro marital foi reconhecido como crime. Antes disso, obrigar a mulher a fazer sexo, sob força ou ameaça, não passava de um direito legal do marido. 

Essa ideia de que quando o homem trai é porque falta sexo em casa coloca na mulher a responsabilidade pela manutenção e estabilidade dos relacionamentos e isenta o homem de culpa. Se ela trai a culpa é dela. Se ele trai a culpa é dela também. Assim fica fácil ser homem, não? Mas a maior perversidade dessa lógica é que ela serve à Cultura do Estupro, um conjunto de mecanismos culturais que facilitam e até "justificam" o abuso sexual de mulheres. 

Perpetuar a crença de que é obrigação da mulher fazer sexo cria a sensação de que o corpo dela pertence ao seu parceiro. E coagir uma mulher a manter relações para não ser traída é uma chantagem emocional, que se encaixa legalmente no termo "contrangimento", tipificado por lei como estupro. 

E como nenhum aspecto da nossa cultura machista se sustenta sozinho, a afirmação de Deborah também traz outro estereótipo nocivo: o do homem insaciável. Dizer que um homem adulto "não fica sem sexo" é atribuir a ele uma característica irracional e animalesca. Isso, além de perpetuar um papel de gênero tóxico para os meninos, também é um argumento muito usado para justificar estupros: "quem mandou ela usar essa roupa? Homem não se segura quando vê isso".

Deborah também menciona que "a parte chata" do sexo seriam as preliminares, o que deixa todo o discurso ainda mais triste. Preliminares são essenciais para a satisfação sexual da mulher, e se uma mulher não gosta dessa parte, significa que o casal precisa ter um diálogo melhor sobre sua vida sexual. 

Uma pesquisa de 2017 da USP concluiu que metade das mulheres não conseguem chegar ao orgasmo. Entre as causas apontadas, 67% responderam que têm dificuldade para se excitar e 59,7% sentem dor na relação, dois problemas que poderiam ser resolvidos com preliminares melhores. Ainda assim, a satisfação sexual do marido parece ser sempre soberana em relação à da esposa. Parece que ainda temos muito a evoluir.