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O caso do ônibus é apenas UM em um oceano de violência contra mulheres

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O caso do ônibus é apenas UM em um oceano de violência contra mulheres

Imagem: Manki Kim

O crime do assediador em série, que ejaculou no pescoço de uma mulher em um ônibus na Avenida Paulista, é um daqueles casos que comovem multidões online. E com razão. Especialmente porque o criminoso foi solto, mesmo tendo quinze passagens pela polícia por ataques semelhantes, e porque ele vitimou outra mulher dois dias depois. 

Esse clamor por justiça é completamente legítimo, mas é também oportuno. É muito mais fácil se indignar e simpatizar com uma vítima que "atente" ao que a sociedade machista espera de uma vítima de estupro. Sim, temos padrão de aceitação até para vítimas de estupro.

A moça que foi atacada no ônibus é desconhecida, estava em um local cheio de gente, durante o dia, indo para o trabalho e usava um casaco. Isso tudo deveria ser completamente irrelevante, mas tem um papel fundamental na maneira como as pessoas reagiram a ela. Especialmente se comparada à maneira como reagiram ao caso de Clara Averbuck, a escritora que foi estuprada por um motorista de Uber.

Clara é uma escritora renomada, conhecida nas redes sociais, é feminista e fala contra a cultura do estupro. E Clara estava embriagada no momento do estupro. Por conta dessas circunstâncias, seu relato foi mil vezes mais criticado, desprezado e até virou piada. Que fique muito claro que nada do que Clara é ou faz é digno de culpa ou vergonha. Pelo contrário. Ela uma mulher forte, bem-sucedida, um ótimo exemplo para outras mulheres. E o fato de estar embriagada não dá direito a nenhum homem de violar seu corpo. Mas não é assim que muita gente pensa.

Segundo o DataFolha, um terço dos brasileiros culpa as mulheres por estupros sofridos, e 40% das pessoas acreditam que mulheres "que se dão o respeito" não são estupradas. No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, segundo registros oficiais. São quase 50 mil estupros por ano. 

O que une as duas histórias é a impunidade. No caso de Clara a escolha de não ir à delegacia foi um dos pontos mais criticados nas redes sociais. Claramente por pessoas que nunca viram como uma vítima de estupro é tratada nessas circunstâncias. Era a palavra de Clara contra a do agressor, e ela, que não tem provas do ataque, poderia inclusive ser processada pelo homem que a estuprou.

Mas mesmo no caso da moça que foi atacada no ônibus, cujo agressor foi detido em flagrante e levado pela polícia para a delegacia, não houve prisão. Ele foi solto porque o juiz considerou que não houve estupro, já que o agressor não "obrigou" a vítima a participar do ato libidinoso. Como se ela tivesse tido alguma escolha em levar porra no pescoço.

Parece óbvio, mas não é: nós, mulheres, não merecemos ser estupradas. Precisamos reafirmar isso para todos, o tempo todo. Para os agressores, que fazem cinco vítimas por hora no Brasil, e para as pessoas que acham que a culpa é da vítima. Não estamos seguras no ônibus, no Uber, a pé. Não estamos seguras da porta de casa para fora, e tampouco da porta para dentro, já que a maior parte dos estupros acontece em casa, entre pessoas conhecidas. 

Ser mulher é um estado de insegurança.