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O preço que as mulheres pagam na indústria do assédio

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O preço que as mulheres pagam na indústria do assédio

Ashley Judd, Mira Sorvino e Salma Hayek: assédio, tortura psicológica, difamação e carreiras interrompidas. (Imagem: Creative Commons)

Em meio a discussões acaloradas sobre a "preservação do legado" dos assediadores e predadores de Hollywood, pouco se fala do impacto que as atitudes desses homens causou na carreira das suas vítimas. Não dá pra saber ao certo o quanto a presença de um Louis CK, ou um Kevin Spacey prejudicou as pessoas ao seu redor, mas já temos relatos de atrizes e atores que entraram para "listas negras" e comediantes que chegaram a desistir de suas carreiras por causa do comportamento desses predadores. No caso de Harvey Weinstein, evidências de como ele deliberadamente fazia de tudo para tornar a vida das mulheres ao seu redor um inferno emergem todos os dias.

Recentemente, o diretor Peter Jackson revelou em uma entrevista para o site Stuff, que Weinstein vetou a escalação das atrizes Ashley Judd e a Mira Sorvino para a franquia de "O Senhor dos Anéis". "Lembro que a Miramax disse que era um pesadelo trabalhar com elas, e que era para evitá-las a qualquer custo. Naquele momento não tínhamos nenhuma razão para questionar o que estes caras estavam dizendo. Mas posteriormente me dei conta que provavelmente a campanha de desprestígio da Miramax estivesse em seu apogeu", afirmou Jackson. Diante do relato, Judd comentou que já sabia das investidas para difamá-la, mas Sorvino revelou em sua conta no Twitter que começou a chorar ao ler a notícia: "Aí está, a confirmação de que Harvey Weinstein arruinou a minha carreira, algo que eu suspeitava, mas não tinha certeza. Obrigado, Peter Jackson, por ser honesto. Meu coração está partido". 

Se você não se lembra quem é Mira Sorvino, é porque Harvey Weinstein se certificou disso. Sorvino era uma jovem atriz em ascensão no início dos anos 90. Fez alguns papéis na TV e logo foi descoberta pelo diretor Woody Allen. Em 1995, a atriz interpretou a prostituta Linda no filme "Poderosa Afrodite", dirigido por Allen e produzido por Weinstein, o que lhe rendeu um Oscar e um Globo de Ouro, além de indicações e outros prêmios importantes. Depois disso, mesmo com uma estatueta dourada em mãos, ela começou a receber papéis cada vez menores no cinema e na TV. Tudo por causa da campanha de difamação que Weinstein promoveu contra ela após ouvir um "não".

O preço que as mulheres pagam na indústria do assédio

Mira Sorvino com Woody Allen em "Poderosa Afrodite"(1995)

Sorvino foi uma das dezenas de mulheres que denunciaram Weinstein em outubro. Ela contou que em uma ocasião, depois de um evento de divulgação do filme, Weinstein massageou seus ombros e tentou agarrá-la. "Ele começou a vir atrás de mim, tive que correr pelo quarto e dizer que era contra a minha religião ficar com homens casados", revelou Sorvino. Depois disso, ele tentou entrar na casa dela, e quando ela mentiu que tinha um namorado que estava a caminho, Weinstein foi embora furioso. 

O caso de Judd foi muito similar. Jovem, bonita e talentosa, uma estrela em ascensão nos anos 90, com indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar, Judd tinha tudo para continuar protagonizando filmes pelas próximas décadas, mas repentinamente sumiu dos holofotes, fazendo filmes cada vez menores e menos relevantes, e sendo eventualmente relegada a papéis coadjuvantes. Judd também declinou propostas sexuais agressivas de Weinstein.

O preço que as mulheres pagam na indústria do assédio

Ashley Judd em "Risco Duplo" (1999)

Salma Hayek, cuja carreira sobreviveu à influência de Weinstein, publicou um relato intenso no New York Times (traduzido na Folha de São Paulo) contando que o produtor também fez tudo para destruí-la. "Eu acho que não existe nada que ele odeie mais do que a palavra 'não'", contou ela. Hayek passou anos tentando fazer um filme sobre sua conterrânea Frida Kahlo, e Weinstein se ofereceu para tocar o projeto. No meio da produção, no entanto, os assédios começaram, e ela teve que dizer "não" para dezenas de investidas do produtor, que insistia em entrar em seu quarto, queria vê-la tomar banho, pedia massagens, e fazia todo tipo de assédio. "A cada recusa vinha sua ira maquiavélica", conta a atriz, que acredita que sua amizade com Robert Rodriguez e Quentin Tarantino foi o que a salvou de ser estuprada.

Ao perceber que não teria sexo em troca de seu apoio, Weinstein tentou de diversas maneiras derrubar o filme de Hayek, e "Frida" quase foi cancelado diversas vezes. Depois de humilhá-la, cortar seus fundos e tentar mudar o projeto sem sucesso, o produtor exigiu que Hayek, que também estrelou o filme, adicionasse uma cena de sexo sua com outra mulher no roteiro. No fim das contas, mesmo com todas as atribulações, o filme foi feito e Hayek foi indicada ao Oscar por sua performance, além das outras 5 indicações que o filme recebeu. Feliz com a publicidade positiva, Weinstein não colocou Hayek em sua lista negra, o que não quer dizer que a atriz não tenha sofrido em suas mãos. 

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Salma Hayek e Ashley Judd em "Frida" (2002)

E essas são apenas algumas das histórias que já são públicas, envolvendo nomes conhecidos. É impossível dizer quantas carreiras de produtoras, diretoras, secretárias, assistentes e figurinistas Weinstein pode ter destruído. E mesmo que o caso dele seja um dos extremos, sabemos que ele certamente não é o único. Essas e outras mulheres se viram em situações impossíveis, precisando escolher entre ceder aos abusos sexuais de um predador ou ver suas carreiras indo por água abaixo. Por isso é essencial que o momento que estamos vivendo - de denúncias e consequências - não seja apenas passageiro. E em vez de lamentar pelas carreiras dos predadores que estão perdendo seu espaço, vamos celebrar as mulheres que sobreviveram a eles.