MULHERES

O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?

Micheli Nunes
Yazar
Micheli Nunes
O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?

A islandesa Thordis Elva foi o assunto de hoje nas redes sociais por ter decidido fazer um tour pelo mundo dando palestras ao lado de seu estuprador. Não, você não leu errado. Thordis foi estuprada há 19 anos, na Finlândia, quando ela tinha 16 anos, pelo australiano Tom Stranger, que tinha 19, e agora eles participam do TED, uma famosa série de conferências sem fins lucrativos que acontece ao redor do mundo.

"Eu tinha 16 anos e estava apaixonada pela primeira vez na vida. Ir a um baile juntos era uma confirmação do nosso relacionamento, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo. (...) Mas meu encanto se transformou em horror quando ele começou a tirar minha roupa e a subir em mim. (...) Fiquei machucada e chorei muito por semanas, mas tudo era muito confuso para mim. Tom era meu namorado, não um monstro. E o estupro ocorreu na minha cama, não em um beco. Quando finalmente entendi que havia sido estuprada, Tom já tinha voltado para a Austrália", conta Thordis na palestra.

É muito fácil sentir repúdio pelo fato de um estuprador subir ao palco ao lado de sua vítima, principalmente em uma sociedade onde homens acusados de estupro - ou de agressão a mulheres, ou até de feminicídio - são tratados como membros nobres da sociedade, com todos os privilégios. Recentemente, Casey Affleck - acusado de assédio e abuso sexual por duas mulheres que trabalharam com ele (crime que foi enterrado em um acordo milionário) - foi premiado com um Oscar. A estatueta lhe foi entregue, ironicamente, por Brie Larson, que já interpretou uma vítima de estupro no filme O Quarto de Jack, e não aplaudiu o ator, em um protesto silencioso.

O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?

Mas nem precisamos ir muito longe. Aqui no Brasil, o goleiro Bruno, que foi condenado pelo assassinado e ocultação de cadáver de sua ex-namorada, saiu da cadeia em uma manobra inacreditável de seus advogados, que conseguiram um habeas corpus para que ele aguarde o julgamento de seu recurso em liberdade, e imediatamente recebeu propostas para jogar em times de futebol ao redor do mundo. É fácil encontrar na internet imagens de pessoas tirando selfie com o assassino. 

Os exemplos são inúmeros. Mel Gibson agrediu sua esposa física e psicologicamente. Johnny Depp bateu na ex-esposa e a deixou com um olho roxo. Ambos foram gravados tendo ataques de raiva com as parceiras. Ambos continuam trabalhando e frequentando premiações glamurosas em Hollywood. Donald Trump se gabou de entrar em vestiários para flagrar mulheres (que trabalhavam para ele) nuas, disse que um homem famoso pode agarrar a mulher pela vagina sem que ela reaja, está sendo acusado por várias mulheres por assédio sexual, e acabou sendo eleito presidente dos Estados Unidos. 

Por isso é difícil engolir um estuprador dando uma palestra, bem vestido, articulado, em cima de um palco, em uma posição de superioridade. Nem mesmo a presença de Thordis, quando ela relata o ocorrido e expressa sua dor, e ele escuta de cabeça baixa, ou a confissão dele, seguida por uma admissão de uma culpa que diz carregar por anos, amenizam o efeito de repúdio. Até entendemos que ele está arrependido, mas não o suficiente. Tom nunca foi formalmente acusado, nunca foi julgado pelo seu crime, nunca foi para a cadeia. Realidade de 97% dos estupradores. Daí a vontade que temos de obter justiça (ou vingança) pela vítima, mesmo que esta tenha aberto mão de denunciá-lo e afirme que conseguiu perdoá-lo.

A verdade é que cada pessoa lida com seu trauma de maneira diferente. Thordis relata que contou cada segundo das duas horas em que foi estuprada. Hábito que carregou para a vida toda, sempre que se via ociosa. Só parou de contar os segundos quando perdoou Tom. "Independentemente dele merecer ou não meu perdão, eu merecia paz. Minha era de vergonha estava acabada", ela explica. E se ela encontrou ali uma forma de seguir sua vida, aceitando que existia uma identidade além da de vítima para si, que direito temos de julgá-la? Não precisamos gostar de Tom, ou perdoá-lo, mas talvez a ideia que Thordis traz, de que ele tem algo a acrescentar no debate sobre estupro, não seja tão absurdo.