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O significado do Emmy 2017 para as mulheres

Micheli Nunes
Autor
Micheli Nunes
O significado do Emmy 2017 para as mulheres

Imagens: REPRODUÇÃO

Apesar do cenário político e social desolador para as mulheres (ou talvez por causa deste cenário), o Emmy 2017 foi um marco para causas feministas e LGBTs. As obras e as mulheres premiadas não teriam espaço para contar histórias como essas em outros tempos, e as séries de TV são um excelente meio de informar e promover discussões, por isso, pelo menos hoje, temos boas razões para comemorar.

A grande campeã da noite foi The Handmaid’s Tale, que recebeu seis prêmios: melhor série dramática, melhor atriz (Elizabeth Moss), melhor atriz coadjuvante (Ann Dowd), melhor atriz convidada (Alexis Bledel), melhor roteiro (Bruce Miller) e melhor direção (Reed Morano). A série fala de um futuro muito próximo, no qual a infertilidade ameaça a humanidade, levando a um regime político totalitário que aprisiona as mulheres férteis para que elas procriem para famílias ricas.

Com atuações poderosas (Elizabeth Moss, sua maravilhosa) e roteiro e fotografia impecáveis, The Handmaid’s Tale também toca em assuntos LGBT, especificamente mulheres LGBT, saindo um pouco do caminho padrão de mostrar sempre homens gays brancos na hora de falar de assuntos queer. Na trama, mulheres que se relacionam com outras mulheres são consideradas "traidoras do gênero", e são punidas horrivelmente. Produzida pelo serviço de streaming Hulu, a série ainda não estreou no Brasil, mas o Paramount Channel já anunciou que vai trazê-la.

O outro grande destaque da noite foi a série Big Little Lies, que recebeu cinco prêmios: melhor série limitada ou telefilme, melhor direção (Jean-Marc Vallée), melhor ator coadjuvante (Alexander Skarsgard), Melhor atriz coadjuvante (Laura Dern) e Melhor atriz (Nicole Kidman). Ignorada há anos pela academia, Nicole mostrou mais uma vez o seu talento e levou seu primeiro prêmio como protagonista na vida. 

"Nós colocamos o holofote sobre a violência doméstica. É um assunto complicado e traiçoeiro que acontece muito mais do que podemos imaginar. É cheio de vergonha e segredos, e vocês, me concedendo esse prêmio, colocam luz em um caminho obscuro”, disse Nicole ao receber o prêmio. Na série, sua personagem é constantemente violentada pelo marido, que aos olhos do mundo aprece romântico e apaixonado. A trama evidencia o quanto é difícil para uma mulher que sofre abuso doméstico admitir que precisa de ajuda, mesmo quando sua vida está em risco. Big Little Lies, é uma produção da HBO e está inteira disponível para streaming na HBO GO. 

Outros discurso de arrepiar foi o de Lena Waithe, que levou a estatueta de melhor roteiro para série de comédia por Master of None. Lena é a primeira mulher negra a vencer na categoria,  o que parece absurdo em 2017, e mandou um recado para a comunidade LGBT: "Eu vejo cada um de vocês. As coisas que nos fazem diferentes são nossos superpoderes. Todos os dias, quando vocês saem pela porta, colocam suas capas imaginárias e vão conquistar o mundo, porque o mundo não seria tão bonito se não estivéssemos nele."

Estrelada por Aziz Ansari, Master of None é uma das pérolas que ganham pouco destaque na Netflix. Com um protagonista indiano com uma melhor amiga lésbica e negra, a comédia sensível toca em assuntos políticos de maneira leve e intrigante. Focada em relacionamentos humanos, a trama vai de dilemas existenciais engraçados, como o fato de nunca nos sentirmos "adultos" o suficiente, até a dificuldade de nos relacionarmos com nossos pais na velhice.

A premiação também teve outros momentos importantes, como a entrega do prêmio de melhor direção em série de comédia para Donald Glover. Também é a primeira vez que um ator negro ganha na categoria. Jane Fonda e Llily Tomlin, protagonistas da excelente Grace and Frankie, da Netflix, subiram ao palco junto com Dolly Parton para criticar o misógino Donald Trump 30 anos após estrelarem uma comédia feminista: "Nos anos 80 nos recusamos a sermos controladas por um sexista, mentiroso e egoísta. E agora, em 2017, ainda nos recusamos a sermos controladas por por um sexista, mentiroso e egoísta".