ECONOMIA

Por que as mulheres ganham menos que os homens?

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Por que as mulheres ganham menos que os homens?

Imagem: Reprodução/Globo

Co-autor: Thiago Patto - doutorando em Economia pelo Insper

A revelação dos salários do Faustão e da Fátima Bernardes, estrelas mais bem pagas da Globo, pela coluna Ooops!, deixou as redes sociais inflamadas nos últimos dias. Apesar de ter um programa diário, Fátima ganha por mês cerca de 2 milhões de reais, enquanto Faustão, que apresenta um programa semanal, embolsa 4 milhões. A comparação dos salários levantou discussões sobre o famoso wage gap, como é conhecida a desigualdade salarial entre homens e mulheres, um problema muito complexo e largamente estudado no meio acadêmico há pelo menos 50 anos. A existência do wage gap já foi exaustivamente documentada em centenas de levantamentos estatísticos realizados em diversos países, e esses estudos buscam entender as causas dessa disparidade e, a partir daí, traçar possíveis soluções.

O caso de Fátima e Faustão, apesar de muito específico, revela que o wage gap não é tão fácil de entender quanto as discussões no Facebook podem fazer parecer. Enquanto Fátima trabalha muito mais horas do que o colega, em um cargo bastante similar, os salários dos dois são diretamente ligados aos anunciantes dos seus programas. O Encontro Com Fátima Bernardes vai ao ar nas manhãs, durante a semana, o segundo horário menos valorizado da TV, perdendo apenas para a madrugada. O Domingão do Faustão, por sua vez, é transmitido aos domingos, no começo da noite, de longe o horário mais nobre da televisão. Essa explicação poderia ser suficiente para considerar o assunto como encerrado, se não fosse por uma pequena questão: por que os horários nobres são dominados por homens enquanto as mulheres ficam com os horários menos rentáveis?

Reconhecer que a culpa é da nossa cultura machista é o primeiro passo, mas essa resposta é vaga e não ajuda muito a alcançar soluções. Por isso é fundamental compreender os canais pelos quais essa diferença salarial se manifesta. Existem casos em que as empresas preferem contratar homens para cargos de maior salário, relegando às mulheres empregos de menor remuneração. Pode ser que outras empresas não discriminem ativamente pessoas por gênero na contratação, mas a desigualdade no acesso à educação faz com que homens sejam mais qualificados para os cargos. E mesmo que os cargos sejam perfeitamente distribuídos entre homens e mulheres, algumas empresas acabam pagando maiores salários para os homens arbitrariamente. Cada uma dessas narrativas precisaria de ações diferentes para alcançarmos a equidade.

Os Estados Unidos são o país que mais promove pesquisas e recolhe dados sobre esse assunto. A curva de evolução do wage gap no país nos últimos 50 anos, representada no gráfico abaixo, mostra o percentual do salário médio das mulheres em relação aos homens. Em 1980, por exemplo, uma mulher ganhava em média 60% do que um homem ganhava, enquanto em 2014 essa fração se aproxima de 80%. Ou seja, por lá eles estão de fato caminhando para uma equiparação. Mas como?

Por que as mulheres ganham menos que os homens?

A primeira coisa a se notar é que essa redução no wage gap ocorreu principalmente nos anos 80 e 90. Dentre as explicações mais aceitas, há um consenso de que o aumento na escolaridade e principalmente na experiência das mulheres, que entraram em massa no mercado de trabalho nas décadas anteriores, teve um papel fundamental. Segundo um estudo publicado em 2016 pelo National Bureau of Economic Research (NBER), em 1981 as trabalhadoras mulheres tinham em média aproximadamente sete anos a menos de experiência em empregos de tempo integral do que os homens. Em 2011, essa diferença havia se reduzido para um ano e meio.

Houve também avanços no tipo de ocupação exercida pelas mulheres. Profissões que antes eram mais restritas aos homens hoje são melhor distribuídas. O problema é que, segundo o estudo do NBER, esses efeitos foram mitigados por outros efeitos adversos da própria dinâmica da economia norte-americana. Para entender isso, imagine um hospital que só tenha médicos homens e enfermeiras mulheres. Suponha que em determinado momento o hospital resolva contratar 20% de mulheres como médicas e 20% de homens como enfermeiros, mas por um motivo qualquer o salário dos médicos aumente em relação a enfermaria. Como as mulheres ainda são minoria entre médicos, esses efeitos atuam na direção contrária, o primeiro diminuindo o wage gap e o segundo aumentando.

Apesar do avanço nas últimas décadas, ainda há questões importantes a serem levantadas. Principalmente porque apenas escolaridade e experiência não são capazes de explicar toda mudança observada. Além disso, o wage gap atual ainda é bastante expressivo, mesmo com as mulheres tendo maior acesso à educação e experiência.

Felizmente, algumas boas hipóteses estão surgindo. Os economistas Marianne Bertrand (Chicago), Claudia Goldin e Lawrence F. Katz (Harvard), publicaram em 2010 um artigo que trouxe importantes evidências a respeito do assunto (a jornalista Sarah Kliff escreveu uma ótima matéria sobre ele). Ao Investigar o wage gap dentro de cada profissão e a sua dinâmica longo da vida das mulheres, eles observaram que:

1 - O wage gap é maior entre as profissões com longas jornadas e com pouca flexibilidade de horário, como por exemplo advogados e executivos. Em compensação, empregos relacionados ao setor de tecnologia, que possuem horários mais maleáveis, possuem um wage gap pequeno, e em certos casos inexistente.

2 - O wage gap costuma ser muito pequeno no começo da carreira, mas aumenta bastante entre pessoas de 25 a 35 anos, quando homens passam a ganhar bem mais que mulheres. Depois disso, ele volta a se reduzir gradualmente até a aposentadoria.

Qual a história por trás desses fatos? Segundo os pesquisadores, isso pode ser resumido numa única palavra: maternidade.

É um fato em nossa sociedade que o peso da criação dos filhos recai muito mais - em alguns casos exclusivamente - sobre as mulheres. Em uma pequena parte por questões inevitáveis, como a gravidez e a amamentação. Mas principalmente por questões culturais, como a injusta divisão do trabalho doméstico e a jornada dupla de trabalho das mulheres. Por causa da nossa cultura machista e conservadora, a maternidade acabou se tornando um obstáculo para o desenvolvimento profissional das mulheres, e isso acontece de duas formas.

 Em primeiro lugar, a gravidez provoca interrupções temporárias na carreira profissional, cujos efeitos são muito danosos em certas carreiras, especialmente para quem ocupa cargos mais altos e concorridos. Não à toa, o estudo do NBER também mostra que a diminuição do wage gap observada nos últimos 30 anos é menor para os cargos de maior salário.

Em segundo lugar, filhos demandam tempo e um alto nível de urgência em certos casos, o que inevitavelmente recai muito mais sobre as mulheres, que são as primeiras a serem acionadas - e responsabilizadas - quando o filho fica doente, por exemplo. Assim, a falta de flexibilidade de horário dificulta o crescimento profissional das mulheres, tornando-as menos competitivas para essas vagas, mesmo que se desdobrem para compensar as horas ausentes e produzam mais que os colegas.

E como é possível enfrentar esse problema? Uma mudança de cultura é a resposta básica. O próprio estudo feito por Betrand, Goldin e Katz sugere políticas que tornem a jornada de trabalho mais flexível, o que certamente facilitaria a conciliação entre trabalho e maternidade. Se pudéssemos tornar cada hora do dia igualmente valiosa para o trabalho, as mulheres seriam capazes de montar a própria escala diária, incluindo os filhos com muito mais conforto.

No entanto, a divisão artificialmente desigual na criação dos filhos - somada aos trabalhos domésticos - ainda permanece. Nesse caso, uma solução possível é investir na ideia da licença parental, em substituição à licença maternidade. Em países como a Suécia, cada casal recebe 480 dias de licença por criança, sendo que os pais são obrigados a tirar pelo menos 90 desses dias oferecidos. Essa cota mínima já foi menor, mas existe há mais de 20 anos, e certamente contribui para que a Suécia seja reconhecida como um dos países mais igualitários do mundo.

Aqui no Brasil, temos uma história parecida com a Americana. Aqui também houve uma queda acentuada do wage gap nos anos 80 e 90, e estudos como o de Regina Madalozzo (Insper), e o de Naércio Menezes (USP/Insper) e Ana Carolina Giuberti (UFES) ressaltam que o avanço das mulheres em profissões tradicionalmente masculinas, com salários em média maiores, teve um papel importante nessa redução. No entanto, assim como no caso norte-americano, também temos uma parte da história a ser esclarecida e uma desigualdade salarial ainda grande hoje, também relacionada à questão da maternidade.

A diferença salarial entre o homem e a mulher com os maiores salários da Globo é muito emblemática. Fátima começou a trabalhar na emissora em 1987, um ano depois do Faustão. Casada com William Bonner, ela sempre ficou à sombra do marido no Jornal Nacional, e quando foi considerada "madura demais" para a bancada do telejornal, muito assistido por homens, acabou sendo realocada para uma audiência mais feminina, e menos "nobre". É possível identificar traços de machismo na carreira da maioria das mulheres, mesmo as mais famosas, e isso pesa na hora de conferir o extrato bancário no quinto dia útil do mês. Se a nossa sociedade fosse menos machista, mulheres e homens dividiram os horários nobres na TV e, consequentemente, a grana dos anunciantes.