MULHERES

Por que discutir o caso de Aziz Ansari é tão importante?

Micheli Nunes
Autor
Micheli Nunes
Por que discutir o caso de Aziz Ansari é tão importante?

Imagem: Wikicommons

Um dos mais recentes casos de má conduta sexual expostos na mídia foi o do humorista e ator Aziz Ansari, que há poucos dias ganhou o Globo de Ouro por sua série "Masters of None", da Netflix. O caso de Aziz não é um dos mais graves e gráficos revelados recentemente, mas é um dos mais importantes a serem discutidos, por três motivos. Primeiro porque é uma conduta muito mais recorrente do que as pessoas pensam. Segundo porque é um comportamento comum entre homens "bonzinhos", que se dizem feministas e aliados. E terceiro porque tem muita gente que acha que esse tipo comportamento não merece ser exposto ou criticado.

A denúncia foi feita por uma fotógrafa de 23 anos, em um artigo no site Babe. Ela diz que conheceu o ator em uma festa após o Emmy, em 2017. Depois de trocarem mensagens eles se reencontraram, jantaram juntos e antes mesmo que ela terminasse de beber o vinho de sua taça, o ator pagou a conta e disse para irem até o apartamento dele. A partir daí as coisas começaram a ficar desconfortáveis. "Ele começou a me beijar e, num segundo, sua mão já estava no meu seio". Segundo ela, imediatamente depois disso ele tirou a própria roupa e começou a tirar a roupa dela. E mesmo com ela insistindo para que eles fossem mais devagar, Aziz continuou avançando.

O relato da fotógrafa é muito familiar, e já aconteceu comigo e com a maioria das minhas amigas. Insistir, ignorar deixas verbais e não-verbais, persistir quando a mulher está claramente desconfortável e tentar "vencer pelo cansaço" é um movimento comum, culturalmente aceito e até incentivado entre os homens. Existem até "macetes" para facilitar o processo, como embebedar a garota e dizer que "vai colocar só a pontinha". E não pense que esses homens não percebem que a mulher não está a fim. Eles sabem. Sabem também até que ponto podem continuar insistindo até ela ceder. E muitos sabem que estão flertando com o limite de um estupro e até onde podem forçar antes de cometerem um crime.

A fotógrafa conta que minutos depois deles terem dado o primeiro beijo, Aziz já estava colocando a mão dela em seu pênis. Ela diz que tirava a mão, mas ele a colocava de volta. Ela pedia que eles relaxassem um pouco, fossem devagar, mas ele ignorava. Ele fez brevemente sexo oral nela, para que isso desse a ele o direito de pedir que ela fizesse nele. Ele enfiava repetidamente dois dedos na boca dela, mesmo que ela se afastasse e mostrasse que não estava gostando. Depois de 30 minutos de completo desconforto, ela disse claramente que eles não iam fazer sexo. Ele se vestiu e ligou a TV, mas continuou tentando beijá-la e colocar a mão dentro da calça dela. Foi quando ela pegou suas coisas e pediu um uber para ir embora. Ela diz que se sentiu violada e que chorou todo o caminho de volta pra casa.

O dilema aqui é que Aziz Ansari é um "cara legal". Ele se diz feminista e critica o comportamento masculino predatório em seus shows de stand up. Ele está fora dos padrões, é indiano, inteligente, engraçado, de risada solta e grandes olhos cativantes. Ele é um cara "bonzinho", de quem você não sente tanto medo de aceitar uma carona. Não é o vilão dos filmes, nem o estereótipo do galã. É o melhor amigo, com quem a garota fica no final do filme indie, ao perceber que o amor estava ao seu lado o tempo todo. E é muito difícil pra uma mulher admitir para si mesma que um cara desses passou do limite e desrespeitou seu corpo. E aí mora o perigo, porque esse tipo de cara conhece os privilégios de ser um dos "caras legais". Ele sabe o poder de se dizer feminista e parecer inofensivo, e o potencial que isso tem de ajudá-lo a conseguir sexo.

Depois de relatos aterradores de mulheres que foram estupradas por Harvey Weinstein, e de homens que foram aterrorizados e abusados por Kevin Spacey, o caso de Aziz parece uma enorme zona cinzenta. A própria vítima não diz abertamente que foi estuprada, mas conta que pediu que ele parasse e que ele não parou, e diz que se sentiu violada. É bem claro que o que o relato descreve, mesmo se não for considerado criminoso, é errado e abusivo. Mas muita gente argumenta que foi apenas um "date ruim", e pede um "calma aí" para quem condena o comportamento dele. Primeiro porque Aziz é um dos queridinhos dos "desconstruídos", e segundo porque admitir que o que ele fez foi abusivo, pra muita gente, significa admitir que eles mesmos já praticaram ou sofreram abuso. O que é um passo muito difícil. 

A nossa cultura ensina que no "jogo da conquista", homens são predadores, e mulheres presas. Que ele "come" e ela é "comida". Dando a ela o papel passivo de se proteger e a ele o papel ativo de avançar. Aprendemos que mulheres que cedem muito rapidamente são mal vistas, o que deixa subentendido que ela vai dizer "não", mesmo que queira fazer sexo. Ensinamos mulheres a serem doces, a falar baixo e a não contrariar. E tudo isso é usado para facilitar e justificar todo tipo de abuso sexual. É o que chamamos de Cultura do Estupro. Mas não podemos deixar comportamentos abusivos passarem gratuitamente porque os homens "não souberam interpretar os sinais", ou porque eles "não lêem mentes". Os homens que se beneficiam dessa cultura não são meros desavisados, eles percebem se uma garota não está a fim, e se agarram à possibilidade de convencê-la consentir ao sexo apenas para deixá-lo feliz. Eles se aproveitam da nossa resiliência, da nossa necessidade de agradar, da nossa dificuldade em dizer "não" e de confrontar, e principalmente do nosso silêncio.

Sentir prazer em detrimento do desconforto do outro é um ato de puro egoísmo. Significa que uma pessoa acha que tem direito sobre o corpo da outra, e que sua própria vontade é soberana em relação à da outra. Isso não é um relacionamento sexual, é uma masturbação que tem o outro ser humano como um mero objeto sexual. E é abusivo. Fica implícito o machismo, e escancarado o fato de que muitos homens enxergam mulheres como seres de menor importância.

A fotógrafa relata que depois do encontro mandou uma mensagem para Aziz contando especificamente quando e como ele havia passado dos limites, e ele respondeu que "entendeu errado os sinais", pedindo desculpas. Depois que o caso veio à público, Aziz escreveu um comunicado insensível, sem nenhum novo pedido de desculpas, sugerindo que a fotógrafa havia consentido com tudo que eles fizeram, e que apenas depois do ocorrido ela "refletiu e percebeu que se sentiu desconfortável". Isso reforça o estereótipo absolutamente falso de que mulheres consentem em fazer sexo, e depois se arrependem e "inventam" que foram estupradas. 

Muita gente argumenta que o caso não deveria ter sido exposto, já que não houve uma clara acusação de estupro. Mas focar na "legalidade" do caso não vai melhorar a situação das mulheres. Não é porque um ato não é ilegal que ele não seja errado, grave ou abusivo. O ponto não é demonizar Aziz, mas sim criticar seu comportamento. É passar a mensagem importantíssima de "não" é "não", de que "pare, vamos devagar" significa que a mulher está desconfortável e deve ser acatado imediatamente. Parece óbvio, mas claramente não é! O consentimento não pode ser passivo e conquistado sob pressão. Consentimento é ativo, participativo e entusiástico. Nós só devemos fazer sexo com uma pessoa que de fato queira fazer sexo conosco, e que não precise ser convencida disso. 

Dizer que esse caso banaliza as acusações sérias é desonesto e falso. A cultura do estupro funciona como uma pirâmide de cartas, na qual os crimes sexuais violentos e bárbaros estão apenas no topo. E esses crimes são sustentados por uma enorme estrutura de condutas sexuais abusivas muito mais comuns, que muitas vezes não são ilegais e são socialmente aceitas. Isso faz com que mulheres que sofrem abusos "menores" fiquem caladas, já que "não foi tão grave assim", e esse silêncio é interpretado como consentimento. Dizer que Aziz não deveria ser exposto é contribuir para que a estrutura permaneça intacta. É um passe livre para atitudes cada vez mais graves. Essa é a base que sustenta a cultura do estupro, e enquanto não a derrubarmos, não resolveremos o problema.