MULHERES

Quando o assédio dói no bolso do agressor

Micheli Nunes
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Micheli Nunes

Ontem a página do Daily Mail no facebook postou o vídeo de uma ciclista sendo assediada por um homem em um furgão. Depois de momentos tensos, em que o motorista tenta inclusive agarrá-la pelo braço, a mulher persegue o veículo e arranca o retrovisor!!! Pois é, nem todas as heroínas usam capa. O vídeo, que já tem quase 38 milhões de views, foi feito por um motociclista, que o fim aproveitou para tripudiar do assediador: "Você teve exatamente o que mereceu, seu verme". <3

Acredito fortemente que mudanças sociais efetivas só ocorrem com educação. Estamos claramente evoluindo na questão do assédio, e as novas gerações já são mais conscientes e intolerantes com esse tipo de comportamento. Mas também acredito que algumas pessoas não vão entender nunca. O motorista do vídeo é um exemplo. Ele claramente vê que a moça está desconfortável e irritada, e mesmo assim tenta tocá-la enquanto pede seu telefone. Não é uma cantada, ele sabe que ela jamais daria o número pra ele, é uma questão de poder e intimidação, e ele faz isso por diversão. É a misoginia em seu estado mais enraizado.

Em casos como o dele, vídeos no YouTube, textos na internet e conversas francas não vão resolver. Ninguém vai convencer o cara, com uma discussão racional, de que aquilo é desrespeitoso e que ele precisa parar. Nesses casos, acredito que a punição é a única maneira de prevenir esse comportamento recorrente. Assédio de rua ainda não é crime por aqui, e ainda não temos leis e multas do nosso lado. Por enquanto, o que resta para as mulheres nesse aspecto é reagir. E foi o que a moça maravilhosa do vídeo fez, à sua maneira. Se foi efetivo ou não, esta aberto a interpretações, mas acredito que depois de um prejuízo de uns R$ 500 (o conserto ficaria mais de 150 libras, segundo o google), eu duvido que o motorista se arrisque a assediar outra ciclista tão cedo.

Quando o assédio dói no bolso do agressor

Mas por mais satisfatório que seja o vídeo, não é sempre aconselhável que todas as mulheres que são assediadas retaliem o assediador arrancando o retrovisor deles (até porque não ia sobrar um retrovisor inteiro - risos). Não pelo patrimônio deles, entendam, mas pela segurança delas. No Reino Unido, onde aparentemente o vídeo foi feito, a tolerância com assédio de rua é muito menor do que no Brasil, e a ciclista sentiu-se segura o suficiente para revidar, o que é ótimo. Porém, em outras circunstâncias, a mulher correria risco de ser agredida, perseguida e até atropelada.

Eu mesma raramente deixo passar um assédio em branco. Volto, respondo, discuto, xingo, exponho os agressores. Mas só faço isso quando me sinto segura, em um lugares cercados por pessoas, iluminados, próximos a comércios. Cada mulher deve reagir - ou não - da maneira que achar própria, pois a sua integridade física está sempre em jogo. 

E, nos momentos em que não dá para reagir, podemos em vez disso apoiar iniciativas como o Chega de Fiu-Fiu, da ONG Think Olga (link abaixo), e sempre votar em pessoas - preferencialmente mulheres - que lutam pelas causas das mulheres e são abertamente anti-assédio. São essas pessoas que definirão novas leis e programas sociais para tornar a nossa vida mais segura e igualitária. Estamos no caminho certo.