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Sob olhar masculino, mulheres são objetificadas em 'Liga da Justiça'

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Sob olhar masculino, mulheres são objetificadas em 'Liga da Justiça'

Imagem: Divulgação

O longa da "Mulher Maravilha", um dos melhores blockbusters do ano, foi um marco por diversos motivos, e a responsável pela maioria deles foi a diretora Patty Jenkins. Entregar a heroína na mão de uma mulher foi a decisão mais acertada da DC na última década no cinema, e isso refletiu na tela. Fomos apresentados a uma Diana Prince complexa, carismática, doce e empoderada. E a prova de que isso faz toda a diferença é a maneira como a personagem foi retratada nos outros dois filmes em que apareceu, ambos dirigidos por homens.

Em "Batman vs Superman: A Origem da Justiça", dirigido por Zack Snyder, Diana (Gal Gadot) aparece pela primeira vez em seu uniforme em uma batalha, e já é sexualizada de cara. Na luta ela é jogada em uma parede de concreto, com os cabelos esvoaçantes e um olhar provocante, e depois é atirada no chão, de pernas abertas, com um sorriso convidativo no rosto. Tanto o Batman quando o Superman participam da mesma batalha, e também apanham bastante, mas nenhum deles é mostrado assim, disponível, submisso ou provocativo. Se você digitar "Wonder Woman Sexy" na busca por gifs do google, essas são as imagens que mais aparecem, e são tão provocativas que, fora de contexto, parecem pertencer a uma sátira pornô com a personagem. 

Depois de BvS, Mulher Maravilha estreou nos cinemas, mostrando uma heroína muito mais empoderada e dona de seu corpo, mas a DC e a Warner parecem não ter aprendido com esses acertos, e em Liga da Justiça, dirigido por Snyder e Joss Whedon, a princesa amazona volta a ser objetificada. Logo nas apresentações de abertura, Diana aparece para salvar reféns de um atentado e, enquanto luta, a câmera estranhamente insiste em filmá-la por baixo, mostrando ao público uma coleção de tomadas de seu traseiro. E eu não preciso nem dizer que isso não acontece com Batman, Superman, Aquaman, Flash ou Ciborgue, né?

Sob olhar masculino, mulheres são objetificadas em 'Liga da Justiça'

Pode-se argumentar que especificamente no caso do Aquaman (Jason Momoa) e do Superman (Henry Cavill) os personagem também aparece seminus em algumas cenas. Porém a maneira como os corpos dos dois são mostrados é muito diferente. Enquanto o Aquaman exibe seus músculos por vontade própria, arrancando a camisa e deixando o peitoral à mostra para impor sua superioridade, o corpo da Mulher Maravilha é "espiado" pela câmera, exposto em momentos em que ela está distraída ou ocupada - no meio de uma luta ou enquanto desce de um avião - como se a câmera fosse alguém a espreitando. É uma questão de consentimento e soberania sobre o próprio corpo, que eles têm e ela não.

Todos os principais personagens masculinos de Liga da Justiça - com exceção do Superman -  fazem algum comentário inapropriado em relação à Diana. Ela é diversas vezes reduzida à sua aparência física e, em um certo momento, Flash cai em cima dos seus seios para alívio cômico. E apesar de não sabermos qual dos dois diretores é o maior culpado por essa objetificação, podemos dizer com segurança que essa piadinha dos peitos tem o dedo de Whedon, que já havia usado exatamente a mesma gag em Vingadores: Era de Ultron. Whedon, esse que saiu do twitter devido à avalanche de críticas pela maneira como mostrou a história regressa da Viúva Negra, reduzindo a identidade e a validação dela como mulher por ela não poder ter filhos.

Outro ponto muito comentado nas redes sociais sobre "Liga da Justiça" é o novo look das Amazonas no filme. Em "Mulher Maravilha", o uniforme das guerreiras foi desenhado pela designer Lindy Hemming, com inspiração histórica e aparência poderosa. Em Liga da Justiça quem assinou o design foi Michael Wilkinson, que deu a elas bem menos tecido e muita barriga de fora. O look peladão (que parece uma fantasia barata de sex shop) aparece principalmente em cenas de flashback.

Sob olhar masculino, mulheres são objetificadas em 'Liga da Justiça'

Amazonas em Mulher Maravilha (à esq.) e em Liga da Justiça (dir.)

"Liga da Justiça" tem muitos outros problemas e diversos exemplos da incompetência de homens na hora de retratar mulheres. Do vilão Lobo da Estepe dizendo que as amazonas iriam amá-lo e virar suas esposas (o que ninguém jamais diria para um herói masculino), ao diálogo dolorosamente constrangedor entre Lois Lane (Amy Adams) e Martha Kent (Diane Lane). Hollywood precisa de mais mulheres roteiristas, diretoras, designer e fotógrafas, só assim teremos uma representação digna nas telonas. "Mulher Maravilha" provou isso.