MULHERES

Sororidade nociva e o prejuízo de nunca questionar outras mulheres

Micheli Nunes
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Micheli Nunes


Sororidade, termo muito usado dentro do feminismo online, significa irmandade entre mulheres. Uma espécie de aliança, ou pacto de confiança, que incentiva garotas a se ajudarem mais e a julgarem menos umas às outras. Mas hoje quero falar sobre o que NÃO é sororidade.

Se você participa ativamente de grupos feministas nas redes sociais, sabe do que eu estou falando. Com a popularidade crescente do feminismo, cada vez mais garotas aderem ao movimento e se juntam a grupos organizados, tanto em escolas e universidades, quanto nas redes sociais. O que é maravilhoso. Mas dentro desses espaços "seguros", vem crescendo uma noção completamente errada e banalizada do que é sororidade. A palavra virou sinônimo de escudo contra qualquer crítica ou opinião diversa.

Sabemos que o feminismo abrange um conjunto enorme de movimentos políticos, sociais, ideologias e filosofias, que frequentemente divergem entre si. Além da ideia básica da busca pela igualdade política, social e econômica de ambos os sexos, praticamente todos os assuntos abordados dentro do feminismo encontram divergências, então é praticamente certo de que se você se envolve com um movimento feminista, vai se deparar com alguém que tem opiniões diferentes de você. E se você é branca e de classe média, certamente vai ser convidada a rever seus privilégios. O que é saudável e necessário.

Mas na hora das críticas logo aparece o famoso grito de "cadê a sororidade, manas?". E a pessoa que criticou corre o risco de sofrer bullying, ser acusada de não ser feminista e até de ser exposta na internet. Além dos problemas óbvios, esse tipo de atitude tende a manter o debate em um nível muito raso.

Vamos estabelecer uma coisa aqui. Feministas não são obrigadas a amar todas as mulheres incondicionalmente. Podemos (e devemos) criticar umas às outras e questionar comportamentos que consideramos errados, desde que façamos isso com respeito e sem apelar pra artimanhas machistas. Quando a sororidade é seletiva e só serve pra se proteger e defender mulheres que pensam igualzinho a você, o termo se esvazia de sentido. 

Ainda somos oprimidas social e politicamente e ainda sofremos todo tipo de violência simplesmente pelo fato de sermos mulheres. O feminismo é fundamental na nossa luta diária contra a opressão, e fornece um espaço onde nossa voz é ouvida e onde somos livres para expor nossas opiniões. Mas isso não significa que sempre estaremos certas apenas por sermos mulheres. Sorrir e incentivar qualquer coisa que uma mulher diga, sem discernimento, é tratá-la como uma criança. E não aceitar que outra pessoa discorde de você é agir como criança. Essa condescendência e infantilização das mulheres, que vem disfarçada de "sororidade", acaba se tornando uma forma de silenciamento.

A noção de sororidade é importantíssima para acabarmos com um dos pilares mais antigos do machismo, a rivalidade entre mulheres, que é imposta de diversas maneiras nas nossas vidas desde que aprendemos a falar. Mas discutir racionalmente não significa necessariamente que você está rivalizando com ninguém. E muito menos significa que você está aderindo ao time do patriarcado. Ouvir críticas e entrar em discussões onde não apenas pessoas iguais a você estão falando é fundamental para o crescimento emocional e intelectual de todas nós. E é importantíssimo colocarmos à prova nossas opiniões, principalmente se queremos praticar um feminismo mais inclusivo.