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Woody Allen não querer 'caça às bruxas' contra assediadores é a piada do ano

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Woody Allen não querer 'caça às bruxas' contra assediadores é a piada do ano

Imagem: Creative Commons

Diante do escândalo de Harvey Weinstein, figurão de Hollywood afastado depois que dezenas de acusações de estupro e assédio sexual emergiram, não faltaram reações absurdas da parte de famosos. De homens que sabiam das acusações fingindo indignação a mulheres culpando as vítimas, todo tipo de declaração infeliz veio à tona, mas a mais patética delas talvez seja a do cineasta Woody Allen.

Em uma entrevista à BBC, o diretor disse que todo o caso é muito "triste para todos os envolvidos". "É trágico para as pobres mulheres e triste pelo Harvey, cuja vida está uma bagunça". Além de tentar humanizar o estuprador, Allen ainda mandou um clássico CALMA AÍ, GENTE. "Você também não quer que isso leve a um atmosfera de caça às bruxas, onde cada cara que pisca para uma mulher num escritório precise ligar para o advogado para defendê-lo", disse Allen.

Além da pachorra de usar a expressão "caça às bruxas" - que se refere ao maior feminicídio da história - para falar de um bando de homens poderosos sendo legitimamente acusados, Allen ainda tenta mudar o foco da conversa, uma técnica muito antiga de quem não gosta dos rumos que uma discussão está tomando. E o diretor tem bons motivos para não gostar desse papo: ele mesmo já foi acusado de estupro.

A parte mais intrigante dessa entrevista de Allen é o fato de que uma das pessoas chaves na revelação do caso de Weinstein foi o jornalista Ronan Farrow (filho de Allen com a atriz Mia Farrow), que investigou Weinstein por 10 meses e assinou a estarrecedora matéria da revista New Yorker. Ronan, que não fala com o pai há anos, é irmão de Dylan, que acusou o pai de estuprá-la quando ainda era criança. A relação de Allen com a família Farrow é completamente perturbadora. Além de ter relações cortadas com Ronan e de ter sido acusado pela filha de estupro e pedofilia, Allen manteve um caso com Soon-Yi Previn, outra filha de Mia, enquanto ainda era casado com a atriz. Não é claro quando o "romance" com Soon-Yin começou, mas Allen se casou com a mãe dela quando a menina tinha apenas 10 anos. 

Allen passou por um julgamento no mínimo suspeito em 1993 e foi absolvido das acusações, o que até hoje é questionado. Depois disso, o cineasta ganhou um Oscar e dois Globos de Ouro. Harvey Weinstein nunca foi preso, mesmo tendo sido gravado admitindo abuso sexual, chantageando e ameaçando mulheres para que entrassem em seu quarto de hotel. No momento, Weinstein disse que está indo para Europa para tratar de seu "vício em sexo". Porque é isso que acontece com homens brancos, ricos e poderosos quando são acusados de estupro: ganham prêmios e vão para a Europa.

Diante dessa realidade estarrecedora, o cenário de "caça às bruxas" que Allen propõe parece um sonho utópico. A grande maioria das mulheres já sofreu algum tipo de assédio no trabalho. Eu inclusive. Mais de uma vez. É só checar a hashtag #MeToo (ou a versão brasileira #EuTambém) para ter noção da dimensão do problema. Mesmo em 2017, ser mulher no mercado de trabalho é viver ouvindo histórias horríveis, e tendo medo de ficar sozinha com aquele colega que tem "fama de tarado". Já pensaram na existência de um mundo no qual um homem tenha receio de piscar para uma colega ou subordinada no trabalho, com medo de ser acusado de assédio? Pra mim parece perfeito.