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O quê não contei sobre a minha avó.

my.juli
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my.juli

Eu tenho um texto lindo na minha cabeça. Um texto que fica me remoendo, no qual as palavras vão se arrumando, vão tomando forma e tomando gosto e me enchendo de lágrimas.

Eu queria muito escrever e contar para vocês sobre a minha avó. Sobre a minha vó feminista e um fusquinha que minha tia dirigia e como esse fusquinha viajou repleto das minhas bonecase  com a minha vó apertada, apertada entre as bonecas, o seu feminismo e o feminismo da minha tia e o da minha prima. Só que não vou contar. Não vou contar porque apesar de ler muitas críticas e contra-argumentos por aqui, por ignorar, bloquear ou ainda usar meu tempo para dialogarmos, eu não vou deixar você bater na minha avó. Ela não pode mais se defender.

Também não vou escrever sobre a minha outra avó. Minha avó livre e com asas, que fazia os meus presentes, fazia poesia e escrevia que eu deveria sempre buscar pela minha liberdade.

Não vou escrever porque ela também não pode mais se defender.

Cresci com mulheres fortes, avós, tias, mãe, primas, professoras, amigas, mulheres que, cada uma com seu particular jeito, com diferentes raças e cores, sempre me mostraram que o mundo é (também) das mulheres. Nunca tive dúvidas. Hoje, minha mãe sofre porque, às vezes, acha que tenho asas demais, e que, apesar de depois dos 30 já entendi que não posso mudar o mundo, mas ainda acho que posso mudar a rua.

Encarei ser médica e entrar em um clube de homens. A cirurgia já foi uma especialidade machista. Não será mais. As mulheres são maioria nas faculdades de medicina, as mulheres são maioria nas residências de cirurgia geral, e, em algumas especialidades, são maioria absoluta. Ainda não chefiam serviços, mas, no futuro, irão.

Com certeza, o braço direito (e até o esquerdo) de um cirurgião, é uma mulher. Sem dúvida, no futuro, serão os dedos das mulheres tocando as próstatas, diagnosticando o câncer de reto e reduzindo fraturas. Cada vez mais. Preparem-se.

Na medicina a gente aprende uma palavra: "empatia". De forma breve, é a capacidade de sentir os sentimentos e o ocorrido com outra pessoa, compreender o quê o outro sente.

A primeira vez que atendi uma agressão física por preconceito de gênero foi no primeiro ano de residência, um travesti todo cortado que passei uma madrugada dando pontos. Pensei como seria para um belo homem, que estava como uma bela mulher, viver com o rosto e corpo retalhados pela cicatriz dos meus pontinhos de início de residência. Depois disso, soube dos rapazes que agrediam garotas de programa com tapetes de carro ao passar por elas. Rapazes da zona sul e rapazes de comunidades. A pseudo-elite e o favelado agridem e tratam as mulheres como lixo com a mesma força e intensidade, só mudam os objetos.

Ao longo da pequena carreira foram muitas mulheres. Estupradas, violentadas, agredidas com socos, facas e tiros. Cabelos cortados para deixar a marca. O rosto. Entre diferentes agressores, um sentimento em comum: vergonha. A mulher agredida não expressa raiva, ódio, vingança - expressa vergonha.

Coleciono casos e empatia. Quando um homem grita comigo, é agressivo, quando sofro assédio (e toda mulher sofre assédio independente da raça e classe social) eu penso em todas nós.

Cresci pensando que o mundo era das mulheres. Ainda penso. Não deixo que o tirem. E quando ameaçam, fico brava.

Recentemente, assisti o discurso da primeira mulher chefe de serviço de cirurgia vascular nos EUA e pioneira em vários campos da medicina. Ela discursou sobre "resiliência". Explicou como teve altos e baixos em sua carreira, como é preciso aprender em momentos de crise, crescer e ter paciência. Que, mesmo sendo mulher, mesmo com várias portas fechadas, algumas foram abertas e ela estava lá. Por fim, parafraseou Sra. Albright e disse que "existe um lugar especial para mulheres que não ajudam as outras."

Recentemente, Sra. Albright apoiou a Sra. Clinton e disse que esse lugar era o inferno... Será que isso é igualdade de gênero ou opressão do gênero? 

O meu receio em escrever é pela reação "delas".

A opressão e repressão masculina eu não aceito, mas espero.

A repressão e opressão feminina é que não entendo.

A maior liberdade e igualdade de gênero que uma mulher pode ter é de poder gritar, falar, escrever, se despir. São os seus direitos, e não seus deveres.

Jogam pedras na Fernandas, jogam pedras nas mulheres com a bunda de fora. E são bundas lindas! Que bom! Viva! Viva as bundas caídas e as em pé! Viva a mulher que quer se despir. E a que não quer. Viva a mulher que defende o aborto e a que é contra. A que acha a maternidade o Olimpo e a que declama que não é feliz sendo mãe.

Quando as mulheres estão jogando pedras nas outras mulheres por discordar de opiniões, visões, e utilizar a classe social, poder econômico, cor, raça e posições políticas, fico triste e preocupada. Podemos decidir se ficamos no mesmo lado, no lado oposto ou sermos inimigas. Mulheres discordarem, serem contra ou serem a favor da maioria (ou minoria) é um direito. O feminismo defende isso. O direito. Ser contra determinadas posições que movimentos feministas defendem não é o mesmo que ser machista. Não é o mesmo que ser a favor da desigualdade salarial, violência ou assédio. NÃO é a mesma coisa. 

Nenhum mulher é mais mulher do que a outra. Para o dia 8 de Março, as pedras das mulheres podem machucar mais do que as rosas dos homens. Brigaram para que o pacote imposto pelo homem seja recusado. Agora, não podem as próprias mulheres empurrarem outro pacote. Não existe "pacote" do feminismo. Exigir uma "Mea Culpa" de outra mulheres por expressar a sua opinião é tão severo e opressor quanto o machismo. Não me calo e não aceito, mas isso não significa que sou sua inimiga. 

E, tenho certeza, que existe um lugar especial para as mulheres que falarem mal das minhas avós.