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A declaração infeliz e desnecessária de Gleisi na véspera do julgamento de Lula

Pedro Zambarda de Araújo
Autor
Pedro Zambarda de Araújo

Presidente do partido vacila em momento crucial de seu mentor. Julgamento no TRF-4 requer um posicionamento pacífico do PT que infelizmente não é transmitido nas mídias.

A declaração infeliz e desnecessária de Gleisi na véspera do julgamento de Lula

(Foto: Divulgação/Facebook)

A decisão de apelar em declarações públicas para atos que tem uma chance remota de acontecer ou que podem causar consequências imprevisíveis podem dar em dois resultados possíveis. Ou elas geram atos inconsequentes, ou viram mico. O segundo exemplo aconteceu com a senadora da República e presidente da maior legenda de esquerda da América Latina.

Gleisi Hoffmann deu uma declaração no mínimo belicista ao site Poder360 no dia 15 de janeiro de 2018. “Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar”, disse a senadora e presidente do PT. A declaração ocorre nove dias antes do julgamento em segunda instância do ex-presidente no TRF-4.

Para ela na entrevista, uma segunda condenação mostra que os juízes "desceram pro play" e que petistas iriam "jogar pesado". Gleisi não tinha este perfil antes de assumir a liderança partidária, mas tem apelado para declarações do naipe.

No Senado, fez uma defesa explícita de Dilma Rousseff no impeachment por ter ocupado a Casa Civil e fez manifestações com os senadores Lindbergh Farias e Vanessa Grazziotin contra o que eles definiram como "golpe parlamentar".

Ao assumir o PT, Gleisi Hoffmann fez declarações de apoio ao governo Nicolás Maduro na Venezuela, que enfrenta uma crise política e humanitária no endurecimento de seu regime, e ela mesma foi reprimida nos bastidores por Lula. A coisa não é de hoje.

Mico

De acordo com reportagem de Cátia Seabra na Folha de S.Paulo, petistas tentaram minimizar declarações de Gleisi no dia seguinte. O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, negou endurecimento nas atitudes ("não haverá revolução, infelizmente") e chamou a declaração da presidente do PT de infeliz. “Haverá uma comoção social. Vamos ficar chateados. Eu mesmo, se o Lula for preso, vou morrer do coração”, enfatizou.

O líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta, falou que Gleisi usou “força de expressão”, enquanto o deputado Carlos Zarattini afirmou que ela sofreu de “ansiedade cibernética”, fruto de tentativa de "se mostrar proativa na internet".

Nesta mesma semana, Gleisi Hoffmann também deu outra entrevista à Agência Bloomberg falando que Lula divulgará uma Carta aos Brasileiros em fevereiro. Este segundo depoimento gerou um mal-estar mais dentro do PT por apontar novamente uma aproximação com os mercados e com a direita.

Em resumo: pegou mal.

Passado do PT

Nos anos 80 e 90, o Partido dos Trabalhadores era conhecido pelos apoios nas greves do ABC e por ter contribuído na formação da CUT. O Movimento dos Sem-Terra (MST), conhecido pelas táticas agressivas contra latifundiários no campo, também se tornaram seus aliados.

As mobilizações petistas ficaram conhecidas como "onda vermelha". No entanto, depois dos anos de governos Lula e Dilma, a legenda adotou um tom pacifista. Seu quadro histórico José Dirceu afirmou em vídeos publicados no site Nocaute, do jornalista Fernando Morais, que acredita em "manifestações pacíficas" durante o julgamento do ex-presidente.

Gleisi Hoffmann tentou reeditar a "onda vermelha". No entanto, em total descompasso com o PT, tudo o que ela fez foi uma tentativa infundada de acirrar os ânimos sem qualquer necessidade ou legitimidade partidária.

Seu partido não está na esquerda tradicional. É, no máximo, de centro-esquerda.