ECONOMIA

A desastrada reforma trabalhista de Temer, que não agrada investidores

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Determinado a recuperar o investimento privado externo no Brasil, o governo federal promove cortes. Mas até onde isso tem alguma eficiência. E como eles nos enxergam lá fora?

A desastrada reforma trabalhista de Temer, que não agrada investidores

(Foto: Camila Domingues/Palácio Piratini/Fotos Públicas)

O governo Michel Temer assumiu depois do impeachment de Dilma Rousseff com a promessa de recuperar a economia da pior recessão do período pós-ditadura. O problema é que suas medidas não estão funcionando e é difícil que o PIB em 2017 cresça mais de 1%.

Isso se reflete na ausência de investimentos externos. A desastrada reforma trabalhista que diminuiu o poder dos sindicatos parece não estar agradando empresas que vieram de fora do Brasil. Sem uma reforma tributária capaz de acelerar a implantação de companhias que ainda estão fora e aliviar a vida de quem está no país, o governo Temer ainda amarga 3% de aprovação popular segundo o Ibope.

Uma reportagem do correspondente Silas Martí da Folha de S.Paulo em Nova York no dia 3 de outubro é assustadoramente esclarecedora. Segundo o jornalista, um encontro na Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos mostrou que os investidores saíram com mais perguntas do que respostas.

Os empresários com interesses no Brasil queriam terceirizar funcionários de forma autônoma, reduzir salários e driblar processos trabalhistas. Eles se decepcionaram com a "maior reforma do setor privada em 50 anos", como Michel Temer propagandeou.

Um dos poucos pontos elogiados foi a possibilidade de negociar contratações e demissões direto com o trabalhador. A ideia da reforma é fazer os acordos valerem mais do que a lei trabalhista da CLT, dependendo de seu nível de escolaridade e salário, flexibilizando contratos privados. Os investidores gostaram também da exigência, em casos de quebra de contrato, para que o trabalhador arque com os custos jurídicos se perder uma ação, chegando a 20% do valor pretendido pelo processo. Eles vêem como o fim da "indústria de processos".

Mas alguns posicionamentos de investidores norte-americanos são, no mínimo, assustadores.

Brasil como colônia

O texto da Folha mostra como os americanos enxergam o Brasil e sua economia. "Então quer dizer que ainda não vamos poder reduzir salários? Isso é a coisa mais anticapitalista que existe. E se perdermos dinheiro? Vamos também dividir os prejuízos?", disse na reunião Terry Boyland, da CPQI, companhia que presta serviços de tecnologia a bancos na América Latina. Isabel Bueno, sócia da Mattos Filho, firma de advocacia que organizou o encontro, concordou com os gringos e disse que nosso próprio país "não é capitalista".

E eles não pareceram pensar pela perspectiva do trabalhador num país em crise. "O pior para nós são os pagamentos de danos morais. Como não custa nada processar, prevalecia antes a ideia de mover uma ação só porque podem", afirmou Alberto Camões, da Stratus, empresa que presta serviços de consultoria a outros grupos no Brasil. 

Essa visão diminui os brasileiros e nosso próprio país. É uma visão colonialista, do ponto de vista econômico, escondida no discurso de "mercado competitivo". Apesar da legislação trabalhista norte-americana não ter tantos recursos quando a do Brasil, não se discute a situação de 14 milhões de desempregados que puxam a economia interna para baixo.

E é incorreto falar que os brasileiros não são capitalistas. O Império do Brasil surgiu em 1822 sob a égide liberal europeia. Um golpe militar criou a República em 1889, também defendendo ideais econômicos liberais. Getúlio Vargas no século 20 aumentou o tamanho do espaço do Estado para fortalecimento da economia interna, assim como a ditadura militar de 1964 criou diversas estatais.

Nosso país tem problemas no desenvolvimento do seu setor privado, que é altamente oligarca e pouco diverso. Daí a chamar o país de "anticapitalista" é nos tratar literalmente como subalternos. Os americanos tratam o Brasil como colônia.

E os governos Lula e Dilma, que não se preocuparam em agradar o mundo, performaram melhor do que Temer neste um ano.

Sua desastrada reforma trabalhista é um retrato melancólico da atual realidade.