CONGRESSO

Alckmin está tirando o PSDB do governo Temer?

Pedro Zambarda de Araújo
Author
Pedro Zambarda de Araújo

Breves considerações sobre a atuação do governador paulista nos bastidores. Seria ele o nome tucano por trás de tantas traições na votação do processo que poderia investigar Michel Temer? Por que o partido não sai de cima do muro?

Alckmin está tirando o PSDB do governo Temer?

(Foto: Alan Santos/PR/Fotos Públicas)

Autor do relatório que abafou as investigações de Temer na PGR, o PSDB é o partido sob análise política mais aguda dos recentes eventos fora o presidente e o PMDB. A leitura que se faz é que a legenda subiu em cima do muro. Enquanto alguns defendem abertamente o governo na esperança de manter ministérios e o controle do "Centrão" no Congresso Nacional, outros cogitam que abandonar Michel Temer depois dos grampos de Joesley Batista e da JBS seria a melhor escolha do momento.

E a atuação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pode ser enquadrada como, no mínimo, peculiar.

A coluna Painel, do jornal Folha de S.Paulo, noticiou no dia 3 de agosto: Ricardo Trípoli, deputado tucano que votou NÃO para que a denúncia investigasse Temer, teria se reunido três vezes com Alckmin. No mesmo texto da reportagem, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, teria chorado ao dizer que tem "caráter" mas que poderia agir para derrubar o presidente na votação.

No dia 8 deste mês, a repórter Thaís Bilenky informa na mesma Folha que Geraldo Alckmin teria encontros fora da agenda com Maia e com Eunício Oliveira, o atual presidente do Senado. Além das aproximações com o PMDB, Alckmin faz o possível para minar João Doria Jr., seu pupilo que fuzilou Fernando Haddad na prefeitura e que está se aproximando de Michel Temer. O mesmo Doria que, nesta semana, levou um ovo na cabeça ao visitar Salvador para receber o título de cidadão soteropolitano.

Ligue os pontos.

Sua vez na corrida do Planalto

O clima interno do PSDB é de caos. Alckmin articulou com Aécio Neves a permanência de Tasso Jereissati na presidência do partido desde a delação premiada de Joesley. O empresário da J&F/JBS apontou que Aécio recebeu pelo menos R$ 2 milhões e propinas de suas dívidas de campanha em troca de emendas. Isso pulverizou o rival do governador.

José Serra, antigo no tucanato, ainda quer ser presidente mas não teve saúde para ser ministro das Relações Exteriores de Temer. Saiu do cargo por problemas na coluna e os bastidores sobre sua vida particular não são bons. Passou recentemente pelo Sírio-Libanês após os problemas que o tiraram do governo.

Aécio, com a irmã e operadora de propinas que foi presa e depois solta, Andrea Neves, se viu obrigado a abortar planos para 2018. Num grande texto à revista Piauí no mês de junho, o ex-prefeito Fernando Haddad diz que conheceu Alckmin de perto e afirmou que, entre ele, Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e José Serra, o governador foi o único que não quis o impeachment de Dilma Rousseff.

Geraldo Alckmin teria o direito, como concorreu em 2006 contra Lula, de encará-lo novamente no ano que vem, assim como Serra encarou o ex-presidente em 2002 e Dilma em 2010. Estaria articulando nos bastidores apenas para barrar traições e a força de Aécio Neves, que era grande dentro do PSDB e ainda teria uma segunda chance.

Sua maior pedra no calcanhar é Doria, que parece ter traído ele pelo apoio Michel Temer para se tornar um presidenciável pela primeira vez.

O placar da votação

Alckmin está tirando o PSDB do governo Temer? Cedo para dizer. Mas algumas pistas estão no ar. Uma delas é o placar da votação sobre o requerimento que abafou as investigações do presidente da República.

Liderados por Trípoli, que falou com o governador, foram 21 votos SIM (pelo arquivamento da denúncia) contra 23 votos NÃO (pela investigação de Temer). O que teria provocado tanta traição de tucanos ao PMDB?

Não se sabe exatamente, mas muitos dos que querem ver o presidente investigado são do grupo de São Paulo. Enquanto isso, Doria vê qual é a melhor oportunidade pra sair do PSDB e talvez lançar outra candidatura. Tem que fazer isso antes de Serra, que também não suporta mais o partido.

Alckmin permanece calado em público. Mais uma vez: ligue os pontos.