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Amoêdo, presidenciável do Novo, bate boca sobre desigualdade social na rede

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O pré-candidato liberal defende um discurso que enfrenta forte resistência. É possível ser contra a pobreza e favorável à desigualdade social?

Amoêdo, presidenciável do Novo, bate boca sobre desigualdade social na rede

(Foto: Divulgação/Partido Novo)

A vida dos liberais depois do impeachment de Dilma Rousseff não tem sido fácil. Os defensores do Estado mínimo não conseguem explicar por que o país não decola com o corte de gastos promovido por Michel Temer. Mas os obstáculos não se colocam somente no caminho dos apoiadores do governo. Novos grupos também não conseguem explicar como defender apenas a iniciativa privada e não ações sociais.

No dia 11 de dezembro, o economista e ex-banqueiro João Amoêdo, presidenciável do Partido Novo, postou o seguinte no Twitter: "O que queremos: combater a pobreza e não necessariamente a desigualdade. Somos, felizmente, diferentes por natureza. O combate à pobreza se faz com o crescimento e com a criação de riqueza, e não com a sua distribuição". O microtexto de Amoêdo gerou 371 respostas diretas e muitas críticas.

A defesa dele é do liberalismo clássico. Ele é contra impostos, sobretudo no consumo. Acredita que o mercado deve ser liberado para ser melhor, sem nenhum tipo de regulamentação. Defende que a corrupção é um problema sério e, embora não use o linguajar de grupos como o MBL de Kim Kataguiri, relaciona o assunto ao PT de Lula e Dilma. E é, sobretudo, um pré-candidato anti-poder público.

O que o pré-candidato do Partido Novo ignora é que boa parte da crise econômica do subprime e das hipotecas nos Estados Unidos em 2008, bem como a crise europeia, ocorreram por distorções de um mercado pouco regulado. Um dos maiores críticos da crise, e também do PT, é o economista francês Thomas Piketty. No ano de 2014, quando veio ao Brasil, ele também fala sobre "boa e má desigualdade" que João Amoêdo se refere em outros tuítes. Mas as considerações de Piketty são ligeiramente diferentes.

"Quando você tem uma porção de desigualdades, eles [os ricos] utilizam sua influência através da mídia, principalmente através dos veículos financiados de forma privada, que são guiados pelo dinheiro, e isso se tornou grande sobretudo nos Estados Unidos. No entanto, mesmo com isso, acredito que as forças democráticas se tornaram mais fortes e é um fato que, dentro da história da desigualdade, a taxação descrita pelo meu livro provocará um embate de movimentos de massa pacíficos para o futuro", diz o pensador francês.

Piketty também afirma que a esquerda, sobretudo a europeia, não precisa ver com maus olhos os reformistas que querem reduzir parte do Estado e do poder público que são ineficientes. No entanto, ele alerta para os movimentos extremistas de direita que estão desestabilizando governos e exaltando a xenofobia.

O discurso do pré-candidato Amoêdo não parece extremista, mas é ingênuo vendo o contexto geral. O Brasil, embora tenha governos que sobretaxem os pobres, sempre foi um país liberal, desde o império, e nunca foi anticapitalista no pensamento hegemônico. O Partido Novo se vende como uma real novidade, mas soa como uma legenda que defende ideais muito parecidos com a prática dos defensores do PSDB nos últimos anos. Recentemente, o economista Gustavo Franco, ex-homem forte de Fernando Henrique Cardoso, trocou os tucanos pelo Novo. João Amoêdo fala sobre o problema de "tirania" para um público brasileiro que, felizmente, não tem o sabor de ditadura desde 1985.

As reações ao discurso liberal dele exibem as fraquezas do argumento. É totalmente desalinhado com os problemas das crises globais econômicas provocada pelos EUA e pela Europa. Não é preciso ser de esquerda pra enteder isso. E você pode conferir as reações logo abaixo.

E a jornalista Cynara Menezes (Socialista Morena) mandou um recado importante para Amoêdo.