POLÍTICA

As diferenças entre os apoiadores de Mises no Brasil e nos EUA

Yazar

Os militantes de direita e seus grupos no Brasil possuem uma pauta muito conservadora baseada num histórico anti-comunista. Nos Estados Unidos, os críticos do Estado tem um viés mais libertário.

As diferenças entre os apoiadores de Mises no Brasil e nos EUA

(Foto: Divulgação/Facebook)

Uma esquerda bem informada precisa saber o que pregam os grupos de direita no Brasil. Sua pauta não é única, ela é difusa e muitas vezes contraditória com o liberalismo que existe no exterior.

Criado em 26 de maio de 2009, o Instituto Mises Brasil está ganhando espaço na discussão política brasileira. Com o antipetismo sendo pautado pela grande mídia e os casos de corrupção nos governos Lula e Dilma, surgiu um cenário propício para o florescimento das ideias da chamada Escola Austríaca. A máxima "Menos Marx, Mais Mises" entrou de cabeça no debate universitário e popular.

O pensador austríaco Ludwig Heinrich Edler von Mises viveu entre 1881 e 1973, conviveu com a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e defendeu um viés economicista da política. Fortemente anticomunista e anti-esquerdista, seus textos defendem o liberalismo clássico e a defesa das instituições independente do Estado e de governos. Algumas de suas obras mais famosas são "Teoria sobre Dinheiro e Crédito" (1911), "Socialismo: Uma Análise Econômica e Sociológica" (1922, com reedições em 1932 e 1951) e "Burocracia" (1944, com reedição em 1962).

Descrito como um "honesto inflexível", as críticas ao pensamento de Mises, ao contrário do que se convenciona, não vieram somente da esquerda. Economistas de direita, mas liberais de centro, criticaram suas análises excessivamente defensoras do capitalismo. Friedrich Hayek afirmou numa entrevista de 1978 que Ludwig von Mises não chegou em conclusões "satisfatórias". Milton Friedman, o pai da "Escola de Chicago" e neoliberal, chamou Mises de "infexivel".

 Os seguidores de von Mises ficaram conhecidos como "Escola Austríaca".

Os fiéis de Mises nos Estados Unidos

Um seriado americano chamado Dark Net (de 2016, disponível na Netflix), criado por Mati Kochavi, aborda os perigos e os avanços do mundo digital na internet profunda, além dos buscadores do Google. E alguns dos personagens abordados na série de documentários são os chamados libertários - cidadãos norte-americanos liberais e anti-governo.

No oitavo episódio do seriado, chamado Revolt, aborda a história de um designer de armas chamado George Hyde. Ele criou uma pistola de um único tiro chamada Liberator, que pode ser produzida a partir de uma impressora 3D. A sua ideia, como um cidadão armamentista high tech, é criar um braço político com sua empresa.

A Liberator era capaz de dar um único tiro, mas é mais facilmente fabricável desde 2013. Hyde passou a criar armas desmontáveis em 3D para que a população tenha acesso à defesa pessoal sem depender da política, do exército ou de governos. E, no documentário Dark Net, George Hyde insinua que seus armamentos podem ser utilizados para uma revolução. Essa é uma das bandeiras que os seguidores de Mises abraçaram nos Estados Unidos.

Outro documentário, mais antigo, chamado Deep Web (2015) também aborda os seguidores de Ludwig von Mises. Falando sobre as prisões dos integrantes do site Silk Road, que comercializava drogas sem rastreamento na internet, o filme mostra outros seguidores do guru da direita.

O criador do Silk Road, Ross Ulbricht, foi condenado a prisão perpétua há dois anos. Ele criou seu complexo site de venda de entorpecentes ao entrar em contato com os ideais do libertarianismo, com von Mises e com teorias da destruição do Estado.

Foi a partir disso que Ulbricht decidiu defender a venda aberta de drogas que são proibidas pelo governo americano, usando a deep web e o anonimato online para se defender na internet.

Os fiéis de Mises no Brasil

Enquanto nos EUA os defensores de Mises vão até a liberação das drogas, aqui a direita deste segmento se restringe às políticas de defesa do uso de armas e, no mais, seguem uma pauta conservadora convencional. O Instituto Mises Brasil se aproximou do Movimento Brasil Livre (MBL), de Kim Kataguiri, e abraçou o antipetismo que provocou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Os brasileiros que se dizem seguidores de Ludwig von Mises não aprofundam seus ensinamentos e conseguem ir a protestos que também reúnem defensores da ditadura militar. Um regime autoritário e intervencionista que certamente seria repudiado pelo libertarianismo de direita.

Mesmo sendo crítico do comunismo, é difícil achar que Mises consideraria normal o autoritarismo da direita brasileira. O mesmo espectro político que cogita Jair Bolsonaro presidente.

Defensores de ditadura, se essa direita Mises BR fosse coerente, seriam até piores do que petistas. Na prática, o PT ainda é mais fácil de bater pra essa gente.

A direita tupiniquim tem uma visão ideológica mais estreita, se comparada com a americana.