POLÍTICA

Bolsonaro não é (e não pode ser) o "Lula da direita"

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Breves considerações sobre o possível candidato de extrema-direita à presidência em 2018.

Bolsonaro não é (e não pode ser) o "Lula da direita"

O jornalista Márcio Juliboni publicou dois artigos neste mês no Storia que se contradizem. "Bolsonaro é o Lula da direita" e "O dilema de Bolsonaro: pequeno demais para uns; grande demais para outros" são textos que partem de teses simetricamente opostas. Mas são ótimos textos para refletir um pouco sobre o pânico da esquerda com o ex-capitão que só conseguiu aprovar dois projetos de lei na Câmara dos Deputados em 26 anos de atividade parlamentar.

O primeiro texto leva mais em conta razões ideológicas e a compreensão média dos eleitores sobre Lula e Bolsonaro, que não consideram um estudo mais aprofundado de seu desempenho como políticos e nem o tamanho real das candidaturas possíveis. 

"O que os católicos de direita e de esquerda têm em comum? Messianismo. Na fé, ele é representado pela crença de que Cristo retornará à Terra para vencer o Diabo na batalha final do Armagedon e resgatar os puros de coração. Na política, ele é representado pela esperança de que um líder forte e carismático se coloque acima do Bem e do Mal, a fim de promover a ordem e a justiça terrenas (...). Promover a ordem e a justiça terrenas pressupõe combater o Mal que desgraça a política e a sociedade. Vejamos como isso ocorre na política. Nos bons tempos em que era estilingue e não vidraça, Lula não se cansava de se vender ao eleitorado como o único capaz de moralizar a política. Era imaculado, puro, pairava como um Cristo sobre as águas do Paranoá. Alguém se lembra de quando ele disse que, no Congresso, havia '300 picaretas com anel de doutor', frase eternizada em uma música dos Paralamas do Sucesso? Agora, nos tempos da Lava Jato, a bandeira da ética na política mudou de mãos. Ela foi delegada, por parte dos eleitores da direita, a Jair Bolsonaro. Ex-militar, ele encarna a idealização de que bastam a ordem e o cumprimento da lei para que a corrupção acabe. Para tanto, é necessário aplicar a disciplina dos quartéis à máquina pública e às relações com os outros poderes", pontua Juliboni. 

A análise é precisa e leva em conta a percepção cultural que temos de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas uma análise mais detalhista do passado do maior líder do PT mostra mais contradições em relação a Bolsonaro. Embora fosse visto, sim, pela direita como um radical muito próximo de Fidel Castro, de Cuba e de uma esquerda engajada pela ética e pela bandeira anti-ditadura, Lula no fundo sempre foi um centrista com uma leve inclinação à esquerda. Nas greves do ABC nos anos 70, era ele quem mantinha um bom relacionamento com donos de montadoras como a Volkswagen. A habilidade política do "sapo barbudo" sempre foi confundida equiparada com frequência ao "peleguismo". Ele seria, portanto, um líder carismático das greves que enfraquecia os movimentos sociais sindicais para conseguir bons acordos em pleno fim da ditadura.

Nos anos 90, Lula também teve atritos históricos e muito restritos aos bastidores com José Dirceu, este sim ex-guerrilheiro armado nos anos 70 com treinamento em Cuba. Ideológico, o ex-ministro Dirceu sempre tentava o embate direto com o PSDB quando Fernando Henrique Cardoso era o presidente da República, inclusive pedindo o seu impeachment na Câmara. Lula preferia conversar com FHC e selar acordos. Mesmo sendo o derrotado em primeiro turno das eleições de 1994 e 1998, foi assim que o ex-metalúrgico conseguiu chegar ao Palácio do Planalto.

Jair Bolsonaro tentou fazer um atentado a bomba num quartel de Resende, no Rio de Janeiro, por melhores salários no governo João Batista Figueiredo. Utilizando-se de sua influência política, botou os filhos em cargos no Poder Legislativo. Bolsonaro também militou contra qualquer tipo de educação pró-LGBT, estabelecendo conflitos com o suposto "kit gay" do ex-ministro Fernando Haddad, e brigou pelo Dia do Orgulho Hétero. Ele é, portanto, o autoritarismo com ares de nazismo numa roupagem nova, considerando suas declarações dúbias sobre Adolf Hitler ao programa CQC na TV Bandeirantes.

E é neste ponto que o segundo texto de Juliboni enquadra melhor Bolsonaro: "o que se vê é o desejo efetivo do representante da ultradireita de sair do seu minúsculo PSC para viabilizar sua candidatura. Mas, quando bate à porta de legendas mais parrudas, como o PR do ex-governador fluminense Anthony Garotinho, é tratado como um grande nanico. É verdade que sua força entre conservadores e reacionários não pode ser ignorada. Afinal, 21% de intenções de votos (segundo o DataPoder360) não é de se jogar fora. Mas grandes partidos têm grandes interesses e Bolsonaro parece não atendê-los. Primeiro, o tempo de TV com que contam, fruto de suas numerosas bancadas, é valioso para qualquer aspirante ao Planalto em 2018. E, em tempos de Lava Jato, 'valioso' deve ser lido ao pé da letra – essas legendas vendem minutos a peso de ouro, como se viu nas delações. Por que, então, desperdiçar um bom negócio apenas para atender ao sonho de Bolsonaro? Não é por acaso, que o ex-capitão é cobiçado apenas como puxador de votos para a Câmara. O próprio PR, que estaria negociando sua filiação, não lhe garante até agora o direito a concorrer à Presidência".

Bolsonaro empata com Lula em 21% contra 23% segundo o levantamento do site Poder360 do jornalista Fernando Rodrigues. E estes dados, que dão empate numa margem de erro de 3%, só são estáveis se João Doria Jr. for o candidato do PSDB, com 13%. Portanto, embora esteja em ascensão, a candidatura Jair Bolsonaro ainda é muito frágil diante da movimentação de outros candidatos.

Doria pode ser encarado como um anti-Lula, justamente por atacar sempre que pode as atitudes do ex-presidente e por ter um comportamento de negociador que o permite estar num grande partido como é o ninho tucano. Se for presidente da República, por mais que João Doria tenha uma certa simpatia fascista por verde e amarelo e não goste muito de moradores de rua, ele obrigatoriamente terá que dialogar com o centro e com partes da esquerda. E não há esquerdistas no Brasil, com estatura e votos, que defendam o stalinismo ou correntes comunistas mais radicais. A esquerda, portanto, dialoga muito mais do que a direita e, mais ainda, se comparada com a extrema-direita bolsonarista.

Bolsonaro pode se tornar um perigo real ao país se o seu discurso se converter em práticas ainda mais autoritárias do Estado brasileiro. Em nome do combate à corrupção e talvez abençoado por igrejas evangélicas, temos efetivamente a possibilidade de um presidente da República que poderá machucar a população em cima de preceitos racistas, xenofóbicos e homofóbicos.

Jair Bolsonaro não tolera, não respeita e racha as diferenças filosóficas, ideológicas e sociológicas dos demais cidadãos. Desta forma, nem em um ambiente muito polarizado ele pode ser lido como o oposto a Lula.