MICHEL TEMER

Briga entre Meirelles e Temer sobre as eleições: o que sobrará do PMDB?

Pedro Zambarda de Araújo
Autor
Pedro Zambarda de Araújo

Presidente e ministro da Fazenda começam a apresentar discordâncias nos bastidores. Quem vai herdar o legado, se é que podemos chamar assim, do governo Michel Temer? E o que sobra do PMDB depois do furacão da Lava Jato?

Briga entre Meirelles e Temer sobre as eleições: o que sobrará do PMDB?

(Foto: Beto Barata/PR/Fotos Públicas)

A economia dominou o debate político desde o impeachment de Dilma Rousseff e parece não ter se desenvolvido no governo de seu sucessor. O resultado são lobos políticos contra lobos, especialmente levando em conta as eleições presidenciais de 2018.

Briga entre Meirelles e Temer sobre as eleições: o que sobrará do PMDB?

(Foto: José Cruz/EBC/Fotos Públicas)

O ministro Henrique Meirelles afirmou à revista Veja que é um presidenciável para a disputa do ano que vem. Como apontou com precisão a jornalista e ex-ministra das Comunicações de Dilma, Helena Chagas, "Meirelles não é candidato de Michel". O jornal Valor Econômico afirmou que o presidente Michel Temer pode concorrer à reeleição no último dia 21. Todas essas movimentações ocorreram neste mês de novembro.

Briga entre Meirelles e Temer sobre as eleições: o que sobrará do PMDB?

(Foto: José Cruz/EBC/Fotos Públicas)

Michel Temer quer concorrer ao maior cargo da República com apenas 3% de aprovação popular, segundo os institutos Datafolha, DataPoder360 e Ibope? É difícil imaginar como o PMDB iria estruturar este tipo de candidato, que já impopular e aprovou reformas que afetaram negativamente a classe média e os pobres.

Meirelles tem entrada no PSD de Gilberto Kassab e estava próximo do governo desde a gestão de Dilma Rousseff, embora não nutrisse simpatia dela. Se ele for candidato, vai defender suas ações no Ministério da Fazenda. No entanto, para ter bons números para apresentar, Henrique Meirelles precisa conduzir o PIB brasileiro a 1% de expansão em 2017 e cerca de 3% em 2018. Nem o Goldman Sachs e nem nenhuma instituição do mercado financeiro projeta esses patamares de crescimento.

Se o Brasil crescer, Meirelles e Temer não entram em acordo para saber quem defenderia o legado do governo que surgiu com a queda do PT. Em 2018, Lula promete antagonizar com esse discurso ao propor o retorno dos investimentos sociais pela esquerda, assim como Jair Bolsonaro flerta com o autoritarismo da extrema-direita com uma suposta pauta anti-corrupção.

O que está por trás dessa disputa no seio do PMDB e do governo vigente?

Foro privilegiado para todos

O colunista Elio Gaspari defende, tanto na Folha de S.Paulo quanto em O Globo, que Temer está articulando nos bastidores uma nova emenda constitucional para receber foro privilegiado mesmo depois de deixar a presidência. O privilégio ajudaria ele, Lula, FHC, Dilma, Collor e todos que sentaram na cadeira do Palácio do Planalto.

No entanto, a manobra para livrá-lo de investigações da Lava Jato em primeira instância depois do governo não é garantida. Se Michel Temer não tiver foro, pode ser condenado ou preso pelo juiz Sérgio Moro pelo crime de obstrução de Justiça e corrupção passiva nas gravações da JBS. Por isso, o último recurso do presidente pode ser mesmo se candidatar novamente.

Temer e o PMDB possuem coligações partidárias e tempo na TV aberta que ultrapassa cinco minutos. Isso permitiria ter margem para defender o governo numa possível campanha. O problema é que, se não houver acordo com Meirelles, as duas candidaturas podem canibalizar votos entre si. Os daqueles poucos que ainda aprovam essa gestão.

Medo da "sarneyrização"

O ex-presidente José Sarney, o primeiro da Nova República brasileira, reclamou em 1989 que nenhum político defendeu seu legado. O resultado foi a eleição de um aventureiro como Fernando Collor de Mello e o fortalecimento do ex-metalúrgico Lula.

Temer tem o medo ser "sarneyrizado". Ou seja, ele teme terminar o seu mandato sem nenhum aliado ou legado. Não é novidade que o presidente da República reclama a interlocutores em Brasília do seu isolamento político, o que é parte da causa das suas práticas corruptas para manter votos no Congresso.

Desconfiado de Henrique Meirelles, que parece ter um projeto próprio de país desde os dois governos Lula, Michel Temer parece estar inclinado a cuidar sozinho de sua biografia.

Caso ele não se acerte com seu ministro, vai acabar canibalizado. Isso se já não estiver.

O que vai sobrar do PMDB nesse processo? O do grupo de Temer aparentemente aposta nele. Mas já há grandes quadros, como Renan Calheiros, que preferem voltar a dialogar com Lula.