Coluna do Pedro Zambarda
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2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?

O que aconteceu na rua em quatro anos? Depois do impeachment, não há mais força política? O aumento de tarifas não importa mais? Fomos massa de manobra?

2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?
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Todo repórter que cobre rua tem histórias diferentes pra contar. Em 2013, minhas opiniões eram mais centristas, embora eu tivesse um flerte com a esquerda que se manifestou contra a crise americana desde 2008. Eu fui em poucos protestos naquele ano. Mas vi a coisa ganhar um corpo descomunal quando a repórter Giuliana Vallone (Folha de S.Paulo) e o fotógrafo Sérgio Silva foram acertados por balas de borracha no exercício da sua profissão. O ataque a esmo da Polícia Militar de São Paulo, que reprimia de maneira indiscriminada os protestos de esquerda e anarquistas contra o aumento das passagem, atingiu a grande mídia e incendiou o país.

2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?

Esquerda e direita tomaram as ruas, numa união preocupante mas contagiante. Um texto da jornalista Ana Paula Freitas exclamava "não é apenas por 20 centavos [de aumento]". Os black blocs, que utilizavam táticas mais agressivas contra a PM e as agências bancárias, foram perdendo espaço e sendo estigmatizados pela imprensa, à parte dos demais. Deram espaço para o "manifestante verde e amarelo", apolítico, cético e pouco educado politicamente.

2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?
2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?

500 mil pessoas, um milhão de pessoas, dois milhões. Era este o montante da população que tomava as ruas naquela época e não dava sinais de que iria parar.

2014 foi um baque. A esquerda tem uma relação contraditória com o PT e só parte dela protestou contra as obras superfaturadas da Copa do Mundo. A direita foi gritar gol e chamar Dilma Rousseff de vagabunda. A Copa aconteceu e o 7x1 da Alemanha no Brasil rolou. Fomos humilhados no campo, a corrupção estatal e privada comeu solta, mas o maior evento futebolístico do mundo aconteceu no nosso país. Os protestos das Jornadas de Junho de 2013 perderam força.

2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?

No final daquele ano, surgiu o MBL de Kim Kataguiri, Renan Santos e Rubinho Nunes. De Vinhedo até São Paulo, eles se venderam como um movimento "apartidário". Foram o Movimento Brasil Livre que, ao lado do Vem Pra Rua e dos Revoltados On-Line, transformaram os protestos pela redução das passagens e da Copa numa mobilização contra o PT, contra Lula e contra Dilma. Em 2015, eles marcharam de São Paulo até Brasília, cumprimentaram Eduardo Cunha, Jair e Eduardo Bolsonaro. Falaram com a bancada da bala, da bíblia e do boi no Congresso. Enfraqueceram no final de 2015.

2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?

Embalados no começo de 2016 pela grande mídia, concentraram milhões de pessoas na Avenida Paulista e em cidades do Brasil inteiro. Contra eles, o próprio ex-presidente Lula começou a andar pelo país. Esquerda e direita retomaram até as ruas, mas num clima de polarização extremada. Dilma caiu, golpeada por um impeachment, e Temer assumiu para adotar um programa econômico de cortes no Bolsa Família, na aposentadoria e nos direitos de trabalhadores, favorecendo os ricos na maior crise econômica do Brasil democrático.

Em 2017 chegamos em frangalhos. A esquerda tenta mobilizar as rua e as redes sociais, enquanto a direita, sobretudo o MBL, emplaca candidatos por partidos de base de Michel Temer, como DEM, PMDB e PSDB. Metaforseando manifestações legítimas numa onda antipetista que tomou os grandes meios de comunicação, os protestos de rua foram manipulados e esvaziados em oito anos. Até os viúvos da ditadura militar se juntaram com a marcha.

2017 e 2013: Os protestos de rua perderam força?

Nas lideranças de movimentos de defesa de moradia, o líder do MTST Guilherme Boulos chegou a ser preso neste ano. O Movimento Passe Livre, que surgiu em Porto Alegre e ganhou força em 2013, não consegue reunir um terço da sua cópia à direita MBL.

O que acontecerá na política brasileira na era Temer? Olhe para a rua.

Por que ser de esquerda em 2017?

Experimente pesquisar "esquerda" no Google. O que a internet explica sobre a ideologia é distorcido e raso. Por isso, mais do que entender diferenças, é necessário saber exatamente o que se acredita, por que acreditar e por que não acreditar.

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Dei um Google antes de começar a bater este texto. Nas primeiras respostas da busca na internet estão três sites que considero de qualidade duvidosa, o Esquerda.net, o Esquerda Online e o Esquerda Diário, que chupinham artigos de outros lugares. Em seguida, um link para um dicionário online com o significado enciclopédico da palavra. Depois, um teste de vestibular do Portal UOL, um texto ideológico de direita do blogueiro Felipe Moura Brasil, da revista Veja, outro teste da revista Época e um artigo do Spotniks discutindo cinco ideias da esquerda que não fazem sentido na cabeça deles.

Esquerda não é isso. Sequer é necessariamente revolucionária. Vamos a ela.

Antes que alguém venha aqui falar sobre União Soviética, Cuba, China ou Coreia do Norte, esqueçam estes países. Antes que venham falar do velho economista e filósofo Karl Marx, deixemos ele um pouco de lado. A esquerda surge muito antes disso.

Assim como a Revolução Francesa, a esquerda política surge nos movimentos populares franceses de 1789 para contagiar o mundo todo. São os sans-culottes (sem calças, os pobres) e os jacobinos que se sentam no lado esquerdo da Assembléia depois da queda do regime totalitário de Luis XVI. À direita, ficavam os girondinos, burgueses e pequenos burgueses que também colaboraram para a queda da monarquia. Quando a revolução se radicaliza, os jacobinos ascendem ao poder, guilhotinam opositores e instauram o período conhecido como Terror. Ele seria derrotado pelos girondinos e por um general de fora da França: Napoleão Bonaparte.

Embora nem toda a esquerda seja revolucionária, seu início foi numa revolução. O segundo movimento que irá desenvolver o esquerdismo será o trabalhismo inglês, que embasou o Capital de Karl Marx em uma das críticas mais agudas ao capitalismo, gerando depois o livro Manifesto do Partido Comunista. E a ideologia se firma em diferentes segmentos, enquanto Paris vive movimentos temporários como as comunas.

A União Soviética, China, Cuba e Coreia do Norte vão surgir de movimentos inspirados nestas primeiras mobilizações. No primeiro caso, serão os trabalhadores do campo e as classes excluídas do czarismo russo que vão derrubar a monarquia e as igrejas, enquanto os chineses em sua revolução cultural darão poder ao Partido Comunista. Cuba sofreu uma revolução estudantil liderada pelo ex-direitista católico Fidel Castro que ganhou as páginas do New York Times ao sobreviver na selva com sua guerrilha. Tornou-se comunista sob influência de Che Guevara e após o embargo dos Estados Unidos, conseguindo apoio da União Soviética. Vietnã e Coreia do Norte teriam movimentos que dividiriam suas áreas, criando zonas fechadas ao capitalismo.

As revoluções do século 20 deram poderes aos pobres e aos burgueses que estavam fora da realeza, mas criaram castas burocratas que desenvolveram regimes autoritários. No começo do século 21, a Venezuela de Hugo Chávez desenvolveu autonomia em seu regime, mas está se tornando uma ditadura repressiva sob o sucessor Nicolás Maduro. A esquerda, tanto quanto a direita no imperialismo e nas colonizações das Américas e da África, criou assassinatos sistemáticos de opositores para se firmar como regime, com todas as ressalvas que possam ser feitas.

O muro de Berlim caiu no final dos anos 80, assim como o regime soviético. A sensação, nos anos 90, é que a direita havia vencido a discussão e o neoliberalismo viria se firmar como ideologia única valorizando apenas os interesses dos capitalistas. Os anos 2000, as guerras no Iraque e no Afeganistão, além da crise econômica inesgotável de 2008, mostram que as práticas do "Estado mínimo" se esgotaram.

A esquerda em 2017, portanto, tem uma oportunidade única de seguir como uma diretriz interessante a todos no novo revés. Mas não as esquerdas soviéticas, cubanas ou autoritárias de qualquer forma. A esquerda deve se firmar, sobretudo, no debate democrático e livre de ideias. E, não presa somente nas ideologias socialistas ou comunistas (já explicadas rapidamente neste texto), o esquerdismo hoje se filia fortemente ao Estado de bem-estar social que começou a se erguer na Europa com a União Europeia.

Os protestos do 99% contra os 1% em Wall Street nos Estados Unidos, as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil que foram sequestradas pela direita para o golpe contra Dilma, além de segmentos da Primavera Árabe e de outros protestos são a esquerda de fato hoje, junto com grupos anarquistas, descentralizados e digitais.

Por que ser de esquerda em 2017?

Mais do que anticapitalista, a esquerda atualmente é debatedora de ideias e questionadora de dogmas que se provam cada vez mais errôneos, como a concentração de renda. Longe de entender o Estado como usurpador, a esquerda enxerga o governo como instrumento de distribuição de renda, junto com outras camadas da sociedade, via impostos ou ferramentas de democratização de acesso.

Ao contrário do que direitistas extremos dizem, a esquerda em 2017 é o que há de mais moderno na crítica político-econômica. 

E pensá-la hoje é vital.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.