Coluna do Pedro Zambarda
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna do Pedro Zambarda
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna do Pedro Zambarda
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

A delação premiada da JBS em 10 pontos

Vimos e ouvimos a delação premiada completa do executivo Joesley Batista e de representantes da JBS à Procuradoria-Geral da República. Elencamos 10 pontos principais com aspas dos delatores. Confira.

A delação premiada da JBS em 10 pontos
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Os irmãos Wesley e Joesley Batista, donos da maior rede de frigoríficos e produção de proteína animal JBS, além da holding J&F, provocaram o maior abalo político na Operação Lava Jato e correlatas da Polícia Federal ao fornecerem uma delação premiada denunciando o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves, entre outros nomes. As informações vieram a público no dia 17 de maio de 2017.

Temer teria recebido propinas no valor de R$ 50 milhões, documentadas em áudio, além de ter dado aval para uma ajuda de R$ 500 mil por semana para que Eduardo Cunha não o comprometesse em delação premiada. Aécio aparece pedindo R$ 2 milhões, dinheiro que foi rastreado eletronicamente e dado ao senador Zezé Perrella, acusado de envolvimento no escândalo do Helicoca - um helicóptero com meia tonelada de pasta base de cocaína apreendido em Minas Gerais. Joesley também declara que os ex-presidentes Lula e Dilma tiveram suas campanhas presidenciais abastecidas no exterior, a partir de uma conta dele monitorada pelo ex-ministro Guido Mantega.

As irregularidades de Michel Temer foram registradas entre março e abril de 2017. Ou seja, elas foram cometidas no exercício do seu mandato. O caso deixa o governo na berlinda de um possível processo de impeachment, fora a pressão por renúncia ou cassação de seu mandato no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - junto com a ex-companheira Dilma Rousseff na chapa de 2014.

Esta coluna ouviu as mais de 10 horas da delação premiada, registrada em vídeos e áudios. Separamos aqui os 10 pontos mais importantes de maneira factual, sem opiniões. Leia as informações e formule suas próprias opiniões sobre o caso.

1. "Foram R$ 500 milhões totais, sendo R$ 400 mi via oficial e R$ 100 mi via notas fiscais ou em dinheiro. Os R$ 400 milhões oficiais teve ato de ofício, compreende? R$ 100 milhões não teve ato de ofício. Foi doação mesmo. Isso tudo foi explicado nos anexos [da delação]".
Joesley Batista descreve a dimensão das propinas da JBS.

2. "Registrei em áudio porque achei que seria importante estar registrada aquela reunião. Eu falei no telefone no sábado, dia 4 de março [de 2017]. Dia 6 eu estive no Fasano com o Rodrigo [Loures, deputado do PMDB operador do presidente]. Dia 7 no Palácio do Jaburu com o presidente Michel. Depois do presidente Michel me autorizar que a pessoa seria o Rodrigo, eu tive mais dois encontros com o Rodrigo na semana seguinte. No dia 13 e no dia 16 (...).  Voltando um pouco atrás, tem o problema do Eduardo Cunha e do Lúcio Funaro. O Lúcio Funaro é o operador financeiro do Eduardo. Do esquema PMDB da Câmara, composto pelo presidente Michel, Eduardo e alguns outros membros. Eu fui lá dizer que o Eduardo tá preso, o Lúcio tá preso e a gente paga uma mensalidade pro Lúcio até hoje (...). Pro Lúcio é uma mensalidade. Pro Eduardo, depois que ele foi preso, pagamos R$ 5 milhões de um saldo de uma dívida que ele tinha supostos créditos por ilícitos de propina (...). Eram R$ 20 milhões relacionados ao incentivo de desoneração fiscal do setor de frango. Na época o Eduardo Cunha tramitou essa prorrogação e pediu R$ 20 mi para que isso acontecesse. Eu achava que eram R$ 15 milhões e ele disse que eram R$ 20 mi. Por isso ficou este saldo de mais cinco [milhões]. Eu fui falar com o presidente exatamente isso. Tinha acabado o saldo do Eduardo, que eu tinha pago tudo, tudo estava em dia, mas tinha acabado. Por outro lado, eu seguia pagando o Lúcio. R$ 400 mil por mês. Queria informar isso pra ele e saber a opinião dele. Foi no momento que, de pronto, ele [Michel Temer] me disse que era importante continuar isso e, enfim". 
Joesley descreve negócios com o operador de Eduardo Cunha, com Temer e com o PMDB. Passou a pagar semanalmente R$ 500 mil no esquema, focado em Cunha.

3. "Esse que tava sendo o problema [pagar o Michel Temer, ele diz sem mencionar]. Era pagar para mantê-los calmos, em silêncio.  Era pra pagar o Lúcio Funaro e o Eduardo Cunha na penitenciária para mantê-los calmos (...). Eu não sei como ficar calmo na cadeia, mas é pra ficar em silêncio e não se revelarem".
Joesley fala sobre o propósito das propinas para Temer, Cunha e Funaro. 

4. "Quando ele [Cunha] foi preso, o presidente Michel já estava no poder e inicialmente acertamos com o Geddel [Vieira Lima, ex-ministro de Temer]. Eu não podia mais falar com o investigado e então fui falar com o presidente(...). Eu ouvi claramente do presidente que era 'importante manter isso'. Primeira missão minha [no Jaburu] era essa: saber se o compromisso ainda era necessário".
O delator diz nesta parte o trecho do grampo de áudio que revela que Temer sustenta Eduardo Cunha na prisão. Ele também explica que Geddel Vieira Lima ocupava a função de Rodrigo Rocha Loures na entrega das propinas. Quando Geddel caiu, mudaram os agentes.

5. "Eu perguntei a ele sobre Receita Federal, eu perguntei sobre o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que trabalhou conosco [na JBS] por quatro anos. E o Henrique eu já tive oportunidade de fazer algumas reivindicações. Só que, na verdade, o Henrique não me atendeu em nenhuma reivindicação. Eu fui avisar ele que o Henrique não me atendia em nada. Eu fui perguntar a ele [Michel Temer] como poderia ser eu fazer o Henrique [Meirelles] saber que isso era de interesse dele [o presidente] (...). Eu disse: 'Olha, senhor presidente, nós precisamos combinar algum jeito porque eu peço as coisas pro Henrique e, de alguma forma, o senhor fique sabendo e mande ele fazer".
Neste trecho, Joesley afirma como pressionava o ministro Henrique Meirelles para aprovar reformas que favorecessem a JBS.

6. "Participamos ativamente das eleições de 2014 e queremos apresentar a vocês um recall de tudo aquilo que aconteceu na campanha. Dos fatos ilícitos. Neste momento estamos fazendo uma força-tarefa de juntar todos os documentos e dados e mostrar a verdade do que fizemos. Pouca coisa lícita, mas muita coisa ilícita com os políticos".
Ricardo Saud, diretor da holding J&F, dona da JBS, fala em delação premiada do objetivo da entrega das gravações, embora ele não tenha participado presencialmente de tantas negociações como o executivo Joesley Batista.

7. "A gravação que eu tenho mais conhecimento é do encontro do senador Aécio Neves com o Joesley no hotel Unique, em São Paulo. Porque dela nós tivemos um ato contínuo e um desdobramento dela. Já vem há muito tempo desde o fim da eleição. O ex-candidato à presidência senador Aécio vinha apresentando uma dificuldade de arrecadação e, como o Joesley e eu no grupo acabamos sendo maior ou segundo maior doador da campanha dele, ele ficou com umas contas e vinha tentando se organizar. O Joesley estava correndo dele. 'Vocês estão loucos'. Ele cobrava ajuda. Ele [Aécio] nunca fez nada por nós. Prometeu, prometeu e nunca fez nada (...). Por outro lado, além de prometer, ele era uma expectativa de poder, né? A gente muitas vezes ajudou deputados e senadores até porque lá dentro e depois eles fingem que a gente não existe. É pra não [nos] atrapalhar".
Saud explica a relação entre a JBS e Aécio Neves, endividado de sua campanha. Depois ocorreria um encontro com a prima do senador, Andrea.

8. "Ele [Aécio] devia aproximadamente R$ 80 milhões da campanha. E, pós-campanha, ele achou que a gente tinha algum tipo de compromisso com ele (...). O Joesley corria dele, pedia pra não atendê-lo. Não atendia ninguém deles mais. Bom, com essa insistência toda, o Joesley acabou atendendo ele umas duas vezes. Nessa última que eu participei, não com o senador Aécio mas só após isso, o Joesley [Batista] me alegou que ele precisava pagar dois advogados. Um dos advogados nós [JBS] temos contrato com ele (...). O senador pediu para que pagássemos num termo aditivo e o Joesley disse 'de jeito nenhum'. Não queria nada de errado. Então o Joesley disse: 'Posso fazer o seguinte pra você. Faço quatro parcelas de R$ 500 mil'. Ele disse que deve R$ 1 milhão para um advogado e mais para outro. Completou: 'Semanalmente eu te dou R$ 500 mil. Se for eu que tenho que entregar pra você, eu não entrego para terceiros'. Aí o Aécio falou: 'Não, eu vou mandar o Fred, que é meu primo e teve vários contatos na campanha, sempre esteve lá, e aí eles resolvem isso lá'. O Joesley disse: 'Tá bom. Vou colocar o Ricardo [Saud] pra administrar isso e eles se entendem lá'. Tudo bem? Tudo bem. Quando foi no dia eu liguei pro Fred, combinamos o dia e tal (...). Combinei quarta-feira, dia 5 [de abril] (...). Isso ele fez, no escritório da JBS e na minha sala".
Saud fala sobre a negociação com Fred, Frederico Pacheco de Medeiros, o primo que Aécio Neves "mataria" se ele o delatasse, segundo os grampos anexados na delação premiada.

9. "Fui me relacionando com o ex-ministro Guido [Mantega]. Logo quando pude, chamei ele para ver como funcionaria o negócio do dinheiro. Ele me falou algumas coisas (...). 'Olha, fica com você, como um crédito [a conta no exterior para o PT]. Você não precisa mandar para ninguém. O dia que eu precisar, eu te falo'. Respondi então tá bom (...). Não falei que eram os 4% acertados anteriormente, porque quando você tem que lidar com intermediário, você nunca sabe se o intermediário contava pra ele o que sabia (...). Ele respondeu que veria no caso a caso (...). Na realidade eu nunca soube se o dinheiro seria dele pessoa física [o ex-ministro Guido Mantega] ou de outras pessoas. Acabou que em 2014 o dinheiro todo foi usado na campanha eleitoral. Da Dilma".
 Josley Batista explica o caixa dois que abriu no exterior para alimentar campanhas petistas e conseguir contratos no BNDES para a JBS.

10. "Teve duas fases [o acúmulo de dinheiro para petistas]. Teve a fase do presidente Lula e teve a fase da presidente Dilma. Na fase do presidente Lula chegou a US$ 80 milhões. Depois na Dilma chegou nuns US$ 70 mi. Ou o contrário: 70 na do Lula e 80 na Dilma. Eu abri duas contas. Todas são contas minhas. Eram uma continhas que não tinha pra gente nada ali. Eu é que controlava. Uma eu já usava e depois eu abri outra, quando a presidente Dilma ganhou".
Ainda sobre Mantega, Joesley arremata afirmando para onde foi utilizada uma propina de caixa dois para o PT, em suas campanhas eleitorais. São US$ 150 milhões, ao todo, separados das propinas para demais partidos, que atingem 1829 políticos de 29 legendas.

Quer saber mais sobre a delação da JBS? Assista a playlist com todos os vídeos da delação abaixo.

Pobre Fred, o primo que Aécio Neves mataria antes de delatar

Precisamos falar sobre Fred, o parente do senador tucano que apareceu em delação premiada da JBS.

Pobre Fred, o primo que Aécio Neves mataria antes de delatar
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Segundo a nova delação premiada da JBS, tornada pública neste dia 17 de maio, Aécio Neves pediu R$ 2 milhões aos donos do frigorífico. A denúncia registrada em grampo foi publicada no Globo.

No áudio, o presidente do PSDB surge pedindo milhões ao empresário Joesley Batista, justificando que precisava da quantia para pagar despesas com sua defesa na Lava Jato. No material que chegou às mãos de Fachin na semana passada, a Procuradoria-Geral da República diz que o dinheiro não foi repassado a advogado algum. As filmagens da PF mostram que o dinheiro chegou em malas em São Paulo para Mendherson Souza Lima, secretário parlamentar do senador Zezé Perrella. Ele é aliado de Aécio e dono do Helicoca, escândalo de meia tonelada de pasta-base de cocaína em Minas que explodiu em 2014, durante as eleições.

O diálogo gravado durou cerca de 30 minutos entre Aécio Neves e Joesley Batista. Eles se encontraram no dia 24 de março no Hotel Unique, em São Paulo. Aécio citou de Alberto Toron, criminalista pode defendê-lo na Operação Lava Jato. A menção já havia sido feita pela irmã e braço-direito do senador, Andréa Neves. Foi ela a responsável pela primeira abordagem ao empresário, por telefone e via WhatsApp.

Joesley quis saber, então, quem seria o responsável por pegar as malas. Deu-se, então, o seguinte diálogo, que é realmente absurdo:

"Se for você a pegar em mãos, vou eu mesmo entregar. Mas, se você mandar alguém de sua confiança, mando alguém da minha confiança", diz Joesley. "Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. Vai ser o Fred com um cara seu. Vamos combinar o Fred com um cara seu porque ele sai de lá e vai no cara. E você vai me dar uma ajuda do caralho", respondeu Aécio.

Eis que surge um personagem curioso e dramático. Precisamos falar dele.

Fred é Frederico Pacheco de Medeiros, que foi diretor da Cemig, nomeado por Aécio, e um dos coordenadores de sua campanha a presidente em 2014. Ele tocava a área de logística e é parente da família. É primo do senador.

Quem levou o dinheiro ao primo Fred foi o diretor de Relações Institucionais da JBS, Ricardo Saud, um dos sete delatores. As entregas foram quatro entregas de R$ 500 mil cada uma e a PF filmou uma delas.

O Aécio Neves que emerge desta delação é um verdadeiro mafioso, um gangster que não hesita nem em ameaçar matar verbalmente seu primo. A história é tão absurda, e parecida com filmes como "O Poderoso Chefão", que eu dei risada de nervoso ao constatar o que estava rolando nesta denúncia.

Na delação do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, ele menciona a Romero Jucá, aliado de Temer, que se a roubalheira de Aécio viesse a público, o senador seria "o primeiro a ser comido".

No pacto "com o Supremo, com tudo". Aécio Neves desejou muito o impeachment de Dilma após sua derrota nas eleições de 2014. Fez o que queria e até entregaria os parentes para que seus crimes de corrupção não o comprometessem.

Pobre Fred, o primo que Aécio Neves mataria antes de delatar

Visto como sucessor natural do avô Tancredo Neves, que fez história contra a ditadura militar, Aécio provou-se como uma fraude perigosa da família. Um falso e frustrado prodígio.

No Brasil do golpe, Aécio Neves mataria o próprio primo pra não aparecer numa delação premiada. 

Botaria um corpo boiando no rio para não pagar na Justiça o que o PT já enfrenta.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.