Coluna do Pedro Zambarda
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A Folha de S.Paulo está contra a renúncia de Michel Temer?

Uma análise do posicionamento editorial do jornal da família Frias frente às denúncias da JBS.

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Para entender esta questão, em primeiro lugar é necessário ler a coluna do diretor editorial do jornal, Otávio Frias Filho. Responsável por formatar a opinião da Folha de S.Paulo junto ao time editorial, a publicação foi crítica ao impeachment de Dilma Rousseff e favorável a novas eleições. No caso de Temer, o posicionamento da Folha mudou a olhos vistos.

Otávio diz na coluna publicada no dia 21 de maio de 2017 no título: "ainda é cedo para dizer que a administração Temer acabou". Ele explica, utilizando Montaigne e Sêneca, que a renúncia depende de circunstâncias específicas para acontecer. Otávio Frias não erra nesta análise, mas utiliza o noticiário factual para tentar encobrir a sua real opinião, que é expressa no seguinte trecho: "os alicerces do governo Temer, sempre frágeis, estão ainda mais abalados. Mas é cedo para dizer que esta administração acabou. A economia, que aos poucos sai do atoleiro, atua em seu favor. O relógio, que mostra as eleições gerais de 2018 cada vez mais perto, também. Enquanto isso, um governo cambaleante se encastela ao forcejar por reformas que preparam o ciclo de expansão econômica apto a consagrar, talvez, seu sucessor".

Um dos donos da Folha, portanto, dobra a aposta na recuperação econômica sob Temer. Uma economia que só apresentou, nos dados apreendidos pelo IBGE, dessaceleração da queda da inflação. Michel Temer está longe, com os cortes que promove, de estimular algum crescimento, seja via consumo ou fomento do mercado interno.

E a Folha não se manifestou editorialmente apenas nas palavras de seu patrão. Colocou os colunistas mais consagrados, à esquerda e à direita, para defender as ideias de chefe. Se você perguntar a eles, eles juram que não fizeram isso influenciados, mas coincidentemente seus textos refletem os pontos expostos por Otávio Frias Filho.

Escreve Elio Gaspari, no mesmo dia da coluna de Otávio: "se Temer desistir, se o Tribunal Superior Eleitoral resolver dispensá-lo ou se um doloroso processo de impedimento vier a defenestrá-lo, a pergunta essencial ficará no mesmo lugar: quem? E para quê? A principal obrigação do governo Temer e de seu eventual sucessor será o respeito ao calendário eleitoral que manda escolher um novo presidente em 2018. Itamar Franco foi o único presidente que assumiu depois de um impedimento e honrou o calendário. Café Filho tentou melar a eleição de 1955 e foi mandado embora. No dia 11 de abril de 1964, quando o marechal Castello Branco foi eleito pelo Congresso, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, os principais candidatos, acreditavam que disputariam a eleição de 1965. O próprio Castello também acreditava. Nada feito. Os brasileiros só escolheram um presidente pelo voto direto 25 anos depois. A maluquice do salto em direção ao nada já arruinou a vida nacional duas vezes. Em 1961 e em 1969 os ministros militares, nas versões 1.0 e 2.0 dos Três Patetas, decidiram impedir as posses do vice-presidente João Goulart e de Pedro Aleixo. Nos dois casos havia o motor da anarquia dos quartéis. Hoje essa carta está fora do baralho, mas a anarquia civil está de bom tamanho. A pergunta essencial é a mesma: quem?". Dizem que Elio é o mentor da campanha "Fica Temer", concebida num jantar com o próprio presidente e pago, pasmém, pelo apresentador Faustão da Globo.

Publicou o insuspeito esquerdista André Singer, um dia antes de Otávio: "Temer está sentindo na pele a mesma metodologia usada contra Dilma e o PT, mas não será por meio dela que voltaremos à normalidade democrática. Forças que se movem sem mostrar a cara, e cujos interesses não se explicitam, nunca produzem bons resultados. Os democratas precisam fincar pé na defesa do Estado de Direito, da Constituição e da lei".

Reinaldo Azevedo deu o seu respaldo à direita no mesmo jornal:  "Temer é vítima de conspiração".

Por fim, a Folha colocou Marcelo Coelho, membro do conselho editorial, para criticar o posicionamento da Globo em sua reportagem que divulgou a delação da JBS: "por 24 horas, igualmente, a Rede Globo noticiou a conversa entre Temer e Joesley Batista, ressaltando que o 'tem que continuar' era uma autorização para comprar o silêncio de Eduardo Cunha. Ninguém tinha ouvido a gravação. Foi, a meu ver, uma irresponsabilidade. Seguiu-se, sem avaliação própria, a interpretação dada pelas autoridades, como se não houvesse qualquer dúvida possível".

Coelho tem alguma razão na autocrítica que a Globo deveria ter em suas vozes de comunicação, mas a Folha, de maneira quase polarizadamente contrária, posicionou seus colunistas para ficarem contra a renúncia de Michel Temer. E tomou esta decisão mesmo depois de provas de cometimento de crimes por parte do presidente da República.

Algo explica o atual posicionamento do jornal.

Segundo o Instituto Verificador de Comunicação (IVC) em 2016, a Folha de S.Paulo caiu de 240 mil exemplares/dia em 2012 para 166 mil em 2016. Atualmente está em 143 mil jornais entregues diariamente. As assinaturas digitais, que cresceram de 55 mil em 2013 para 147 mil em 2015, caiu para 138 mil em 2016.

O jornal ainda demite profissionais em série. De acordo com o Volt Data Lab, pelo menos 94 profissionais de jornalismo foram desligados do Grupo Folha.

O governo federal, sob Dilma Rousseff, fez cortes no financiamento dos grandes veículos. Sob Temer, segundo a Secom (Secretaria de Comunicação do governo federal), a publicidade para a Folha aumentou 121,5%.

Coincidência o jornal de Otávio Frias Filho estar contra a renúncia de Michel Temer? Eu acho que não.

O furo de Lauro Jardim pode ser o "Watergate brasileiro"?

Uma análise sobre os bastidores reportagem exclusiva sobre a delação premiada de Joesley Batista e a JBS.

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Lauro Jardim é um repórter experiente e deu o furo no dia 17 de maio envolvendo Joesley Batista e sua delação premiada representando a JBS na Operação Lava Jato. "Furo" é a expressão que nós, jornalistas, utilizamos para uma informação exclusiva. Lauro deu os detalhes, primeiro por escrito e depois com os vídeos liberados pela Procuradoria-Geral da República, dos grampos que Joesley fez de contatos com o presidente Michel Temer e com o senador Aécio Neves, além do transporte de malas de dinheiro de propina que foi rastreado.

Lauro explicou seu próprio trabalho numa entrevista ao próprio jornal O Globo, onde trabalha, e ao programa do apresentador Pedro Bial na TV Globo. Assista o último abaixo.

Watergate é considerado o maior furo de jornalismo político na história dos Estados Unidos. O caso trata de cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no Comitê do Partido Democrata. Foi capa do jornal Washington Post em 18 de junho de 1972.

A informação foi levantada por dois repórteres chamados Bob Woodward e Carl Bernstein, que ficaram por muitos meses rastreando as ligações entre a Casa Branca e o assalto ao edifício de Watergate. Um informante chamada Deepthroat revelou que o presidente republicano Richard Nixon, do partido rival, sabia das operações ilegais.

Em 24 de julho de 1974, Nixon foi julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos e obrigado, por veredicto unânime, a apresentar as gravações originais, que comprovaram seu envolvimento na ação criminosa contra a sede do Comitê Nacional Democrata. O jornalismo do Post provocou a abertura de um processo de impeachment. Depois de 16 dias, em 9 de agosto, Richard Nixon renunciou à presidência e foi substituído pelo vice Gerald Ford, que assinou uma anistia tirando responsabilidades legais de qualquer infração.

Voltando ao Brasil, Lauro Jardim é um jornalista experiente que começou no próprio Globo no Rio, trabalhou na revista EXAME sob chefia de Paulo Nogueira (hoje no Diário do Centro do Mundo) e depois assumiu a coluna Radar da revista Veja. A especialidade de Lauro são as informações exclusivas.

Ele já cometeu barrigadas e erros de dados, sobretudo envolvendo o ex-presidente Lula, mas acertou desta vez ao obter indícios claros de irregularidades.

De fato o furo dado por Lauro com Guilherme Amado no Globo pode ser comparado ao Watergate. E, mais próximo disso, a denúncia dele se assemelha com as entrevistas de Pedro Collor à Veja, em 1992, e o depoimento do motorista Eriberto França à ISTOÉ. Ambas provocaram o impeachment de Fernando Collor de Mello. O impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff não ocorreu por uma reportagem jornalística, mas por uma conjuntura política que a derrubou.

Lauro explica que manteve contato com duas fontes para conseguir informar sobre a delação da JBS. Não diz quem é, mas é de se supor que as informações tenham vindo da própria PGR, o que significa um controle quase absoluto da Justiça e do Ministério Público em cima das informações. Isso é diferente, por exemplo, do grampo que o jornalista Fernando Rodrigues (ex-Folha, atual Poder360) colocou em deputados para denunciar a compra de votos da reeleição de FHC em 1997. Lauro Jardim recebeu as informações desde o final do mês de abril de 2017 e repassou quando a delação foi homologada pelo ministro do STF, Edson Fachin.

O furo de Lauro Jardim pode, efetivamente, derrubar o presidente Michel Temer. Os veículos de comunicação brasileiros, da pequena mídia até a Globo, já pressionam o presidente.

Temer resiste. Mas basta mais uma mudança na conjuntura para o inevitável acontecer, após a explicitação dos crimes de corrupção.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.