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A política no Brasil hoje é 2018, com Lula ou Bolsonaro

Breves considerações sobre as pesquisas Datafolha e DataPoder360 e o que realmente chama atenção no noticiário político.

A política no Brasil hoje é 2018, com Lula ou Bolsonaro
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Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, foi condenado em primeira instância pelo juiz Sérgio Fernando Moro a nove anos e seis meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo triplex no Guarujá, acusado de desviar mais de R$ 2 milhões no processo. Jair Messias Bolsonaro, deputado federal, virou réu por incitação a estupro ao abordar de maneira violenta a deputada Maria do Rosário. A informação veio a tona em 2017. Fora isso, Bolsonaro também teria pego R$ 200 mil como verba de campanha do seu antigo partido, o PP, que seriam propinas da Odebrecht na Lava Jato. Ele nega as duas acusações.

O processo de Lula vai sair da primeira instância com Moro em Curitiba e vai para o TRF4 em Porto Alegre, uma instância superior. A previsão é que seja julgado até agosto de 2018, nas vésperas das eleições presidenciais que ele vai concorrer. Se for reafirmada a sentença de Sérgio Moro, que optou por não prendê-lo preventivamente, Luiz Inácio Lula da Silva será encarcerado.

Bolsonaro nem de longe enfrenta o mesmo risco. Os dois, no entanto, simbolizam as maiores figuras políticas do noticiário recente, sobretudo em pesquisas eleitorais pré-2018.

O ex-capitão militar é abertamente homofóbico, xenofóbico, machista e preconceituoso. Lula, embora tenha acusações de crimes graves na Justiça, defende as políticas sociais dos anos do PT no poder, entre 2003 e 2016. Justamente por isso, os dois polarizam forte, o primeiro para a extrema-direita que cresce no antipetismo, enquanto o outro se fia na centro-esquerda que pode chegar novamente ao governo federal.

Então vamos aos números que evidenciam isso.

O Datafolha realizou uma pesquisa entre os dias 21 e 23 de junho de 2017 com 2771 eleitores. Dentro de oito cenários, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como favorito, oscilando entre 30% e 29%. Marina Silva, da Rede, venceria entre 22% e 27% num cenário sem PT ou sem investigados pela Lava Jato. Bolsonaro oscila entre 13% e 16% pela legenda PSC.

Em 15 de julho, o site Poder360 do jornalista Fernando Rodrigues (ex-UOL e Folha) publicou uma pesquisa chamada DataPoder360. Lá Jair Bolsonaro cresceu sete pontos percentuais em relação a junho. Com 21% das intenções de voto, empata agora tecnicamente com o ex-presidente, que tem a preferência de 26% dos eleitores.

Lula se mantém como favorito, mas apresenta queda no segundo cenário em que Doria é o pré-candidato tucano. O Nordeste é a região na qual o petista tem mais força. Registra 42% das intenções de voto no cenário 1, quando Alckmin é o concorrente, e 39% no cenário 2 (quando disputa com Doria). No Sudeste, até 56% dos eleitores declaram Bolsonaro como favorito.

A pesquisa DataPoder360 ouviu 2178 pessoas. Na simulação com Doria na disputa, acima de Alckmin (10%), ele aparece com 13%. Lula cai de 26% para 23%. E Jair Bolsonaro se mantém com 21% nas duas estatísticas.

Por todos estes dados, a condenação de Lula aumenta o poder de Bolsonaro nas pesquisas pré-eleitorais. A campanha pode mudar as estimativas, sobretudo com debates públicos em que Jair Bolsonaro é o menos preparado entre os candidatos.

Mas podemos dizer que Michel Temer, delação da JBS e Rodrigo Maia pouco importam. Os holofotes da grande política brasileira estão voltadas para o ano que vem.

E para Lula e Bolsonaro, muito além de suas ideologias. O foco está nas eleições e no Brasil que pode emergir depois do fim da Lava Jato.

Fim da Operação Lava Jato: o "acordo nacional" de Temer e Juca se cumpriu?

Lula condenado. Operação sem dinheiro no governo Temer. Procuradores mais preocupados em punir o PT. Risco de "judicialização" da política. Os grampos de Sérgio Machado com Romero Jucá transformaram-se em realidade?

Fim da Operação Lava Jato: o "acordo nacional" de Temer e Juca se cumpriu?
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No dia 12 de julho de 2017, o juiz de primeira instância Sérgio Fernando Moro condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e seis meses de pena por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. No dia 6 de julho, a Polícia Federal deu fim à Força-Tarefa da Operação Lava Jato que se originou no Paraná. O procurador Carlos dos Santos Lima antecipou que o governo Temer estava sufocando a Lava Jato no pagamento de salários. No ápice da operação, entre 2015 e 2016, o grupo de investigação que deu base ao juiz Moro tinha 11 delegados. No final de maio, o número foi reduzido para seis. Hoje não há mais nenhum policial totalmente dedicado às investigações.

Michel Temer acabou com a Lava Jato e não Lula, por incrível que pareça. 

Guarde estas duas informações do início deste texto, incluindo suas datas. Vamos abordá-las mais adiante.

Voltando no tempo

No dia 23 de maio do ano passado, o jornalista Rubens Valente divulgou na Folha de S.Paulo áudios envolvendo o senador e então ministro do Planejamento de Temer, Romero Jucá, que o comprometiam. Em uma conversa com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, ambos falam num pacto para estancar os efeitos da Lava Jato.

Fim da Operação Lava Jato: o "acordo nacional" de Temer e Juca se cumpriu?

A gravação dos diálogos entre Machado e Jucá ocorreram semanas antes da votação na Câmara que desencadeou o impeachment da presidente Dilma Rousseff. As datas não foram especificadas, mas a denúncia fez parte da Operação Lava Jato.

Veja a transcrição da conversa, em que os dois conspiram pelo "acordo nacional" que provocou o golpe parlamentar disfarçado de impedimento no Congresso.

Fim da Operação Lava Jato: o "acordo nacional" de Temer e Juca se cumpriu?

"SÉRGIO MACHADO - Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima.

ROMERO JUCÁ - Eu ontem fui muito claro. [...] Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Não adianta esse projeto de mandar o Lula para cá ser ministro, para tocar um gabinete, isso termina por jogar no chão a expectativa da economia. Porque se o Lula entrar, ele vai falar para a CUT, para o MST, é só quem ouve ele mais, quem dá algum crédito, o resto ninguém dá mais credito a ele para porra nenhuma. Concorda comigo? O Lula vai reunir ali com os setores empresariais?

MACHADO - Agora, ele acordou a militância do PT.

JUCÁ - Sim.

MACHADO - Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda.

JUCÁ - Eu acho que...

MACHADO - Tem que ter um impeachment.

JUCÁ - Tem que ter impeachment. Não tem saída.

MACHADO - E quem segurar, segura.

JUCÁ - Foi boa a conversa mas vamos ter outras pela frente.

MACHADO - Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar.

JUCÁ - Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer.

MACHADO - Odebrecht vai fazer.

JUCÁ - Seletiva, mas vai fazer.

MACHADO - Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que... O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho.

[...]

JUCÁ - Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. [...] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra... Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.

[...]

MACHADO - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ - Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha'. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ - Com o Supremo, com tudo.

MACHADO - Com tudo, aí parava tudo.

JUCÁ - É. Delimitava onde está, pronto.

[...]

MACHADO - O Renan [Calheiros] é totalmente 'voador'. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não.

JUCÁ - Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem.

*

MACHADO - A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado...

JUCÁ - Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com...

MACHADO - Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.

JUCÁ - Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador].

MACHADO - Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?

JUCÁ - Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.

[...]

MACHADO - O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.

JUCÁ - Todos, porra. E vão pegando e vão...

MACHADO - [Sussurrando] O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? [Mudando de assunto] Amigo, eu preciso da sua inteligência.

JUCÁ - Não, veja, eu estou a disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar.

MACHADO - Porque se a gente não tiver saída... Porque não tem muito tempo.

JUCÁ - Não, o tempo é emergencial.

MACHADO - É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês.

JUCÁ - Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? [...] Eu acho que você deve procurar o [ex-senador do PMDB José] Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar.

MACHADO - Acha que não pode ter reunião a três?

JUCÁ - Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é... Depois a gente conversa os três sem você.

MACHADO - Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande.

*

MACHADO - É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma...

JUCÁ - Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.

MACHADO - O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...

JUCÁ - É, a gente viveu tudo.

*

JUCÁ - [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem 'ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca'. Entendeu? Então... Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.

MACHADO - Eu acho o seguinte, a saída [para Dilma] é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. [referência possível ao pedido de prisão de Lula pelo Ministério Público de SP e à condução coercitiva dele para depor no caso da Lava jato]

JUCÁ - Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento...

MACHADO -...E burro [...] Tem que ter uma paz, um...

JUCÁ - Eu acho que tem que ter um pacto.

[...]

MACHADO - Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator da Lava Jato], mas parece que não tem ninguém.

JUCÁ - Não tem. É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara... Burocrata da... Ex-ministro do STJ [Superior Tribunal de Justiça]".

E o acordo? Aconteceu?

Sim, o golpe rolou e o impeachment botou Temer lá

Michel Temer assumiu a presidência e as coisas ficaram mais fáceis para o PMDB que estava acuado pela Lava Jato. E a profecia de Jucá com Machado começou a se cumprir em alguns pontos.

  • Marcelo Odebrecht delatou e até Joesley Batista delatou. E sobrou pra todo mundo;
  • Renan Calheiros ficou favorável ao impeachment para salvar sua pele ("só ele tá contra"); Hoje voltou a ser contra o grupo de Temer e está mais próximo de Lula e do PT. Para que ele faz isso? Pra salvar a própria pele;
  • O "acordo nacional" do Michel Temer aconteceu, com ajuda do Supremo Tribunal Federal - alguém lembra da morte "acidental" de Teori Zavascki em Paraty? 
  • Eduardo Cunha de fato estava "morto". Ele foi colocado na cadeia quando não interessava mais às articulações de Temer. No entanto, agora ele ameaça delatar.
  • Aécio Neves quase foi o "primeiro a ser comido" quando a delação da Odebrecht e os grampos de Joesley surgiram, por seus esquemas de corrupção são grandes dentro da Lava Jato. Foi salvo pela blindagem do PSDB e pela atuação de ministros como Marco Antônio Mello, que tentou "corrigir" o que aconteceu com o ex-senador Delcídio do Amaral;
  • "O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais". De uma certa forma, até este ponto do acordo ocorreu. Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado em primeira instância por Sérgio Moro, mas provavelmente vai concorrer à presidência e pode não ser punido em segunda instância.

E voltamos aos pontos iniciais deste texto.

Lula e a Lava Jato encerram o grande acordo

Com a delação de Joesley Batista, o que faltava no "grande acordo" de Jucá era parar a Lava Jato. Para isso, o governo Temer em 2017 cortou os recursos da Polícia Federal. E Sérgio Moro, por sua vez, ao invés de aprofundar as investigações e o julgamento de figuras do PMDB, se concentra apenas em bater em Lula, que será candidato presidencial no ano seguinte.

O golpe segue batendo no PT e livrando a cara de políticos de outras legendas.

Ao som de xingamentos na internet entre esquerdistas e gente da direita, a farsa política se encerra. Nos bastidores, gente como Romero Jucá e diversos empresários riem-se da nossa cara. 

Ninguém ali é contra a corrupção. Eles só querem permanecer protegidos, custe o que custar.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.