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A possível delação de Eduardo Cunha versus a de Lúcio Funaro

Com dificuldades em fechar delação premiada, Cunha começa a falar o muito que sabe. No entanto, de acordo com a reportagem da revista Época, o delator caminha para proteger Michel Temer. Ele está falando a verdade ou protegendo os seus?

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(Foto: Divulgação/Editora Globo)

A revista Época, a mesma que estampou que Michel Temer é "chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil" segundo Joesley Batista, agora dá pleno espaço ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Preso há cerca de um ano, o ex-deputado parece dar pistas ao jornalista Diego Escosteguy do que pretende delatar.

As notícias são boas para Temer e péssimas para Lúcio Funaro, Joesley Batista e Rodrigo Janot, o ex-procurador-geral da PGR. Cunha parece ter se conformado a melar a delação da JBS. Será uma manobra para atenuar seus crimes?

O que diz Funaro?

O operador de Cunha disse em setembro que ele e Michel Temer "confabulavam diariamente" para "tramar" o impeachment de Dilma Rousseff. Funaro, que atuou como doleiro do PMDB, detalhou pagamentos de propinas e a dinâmica dos peemedebistas em seus esquemas de corrupção, durante os governos do PT e hoje independentes dos petistas.

O delator fala de uma conta de Eduardo Cunha no Banco Northern Trust Bank, em Nova York. Remessas de propina teriam sido enviadas supostamente entre 2003 e 2006. A conta foi batizada de “Glorieta LLP” e está em nome de uma offshore da Oceania. Cunha teria também dinheiro na Suíça e ele se defende afirmando que é apenas "usufrutuário" das contas.

Para participar do esquema, Funaro diz que Cunha recebeu R$ 56,9 milhões depois da Lava Jato ter sido deflagrada em março de 2014. Do valor, R$ 1,3 milhão foram entregues por Lúcio Funaro quando Eduardo Cunha era o presidente da Câmara dos Deputados em 2015.  Os documentos, segundo a Polícia Federal, mostram pagamentos de Funaro para Cunha desde 2011. Até 2015 há anotações de pagamentos de R$ 89 milhões para Cunha, incluídos cerca de R$ 7 milhões pagos a outros políticos. A conta inclui R$ 30 milhões que Funaro recebeu de Joesley Batista para repassar a políticos nas eleições de 2014.

Esses pagamentos iam tanto para o bolso de Cunha quanto para o de aliados. A imprensa publicou que Funaro delatou a "bancada do Eduardo Cunha" que era "comprada" na base da propina. O dinheiro deu benefícios milionários para pelo menos 25 deputados. Sandro Mabel, Marcelo Castro, Soraya Santos, Alexandre Santos e Sérgio Souza são alguns dos congressistas citados.

Lúcio Funaro diz que nunca conversou sobre dinheiro diretamente com o presidente Michel Temer, “pois essa interface era feita por Eduardo Cunha”. O delator, no entanto, garante no roteiro da delação premiada que Temer “sempre soube” de todos os esquemas tocados pelo ex-deputado. 

De forma resumida, Funaro alega que os acordos funcionaram com intermédio de Cunha antes do impeachment e depois com auxílio de Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco com Temer no governo.

O que diz Cunha?

"Estou pronto para revelar tudo o que sei, com provas, datas, fatos, testemunhas, indicações de meios para corroborar o que posso dizer. Assinei um acordo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República, de negociação de colaboração, que ainda está válido. Estou disposto a conversar com a nova procuradora-geral. Tenho histórias quilométricas para contar, desde que haja boa-fé na negociação", diz Cunha na abertura da reportagem da revista Época. E ele dispara contra o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, alegando que ele sempre quis derrubar o presidente Michel Temer.

E ele afirma: "Janot queria que eu colocasse mentiras na delação para derrubar o Michel Temer. Se vão derrubar ou não o Michel Temer, se ele fez algo de errado ou não, é uma outra história. Mas não vão me usar para confirmar algo que não fiz, para atender aos interesses políticos do Janot. Ele operou politicamente esse processo de delações". Eduardo Cunha alega que o ex-procurador-geral queria ter um terceiro mandato com seu vice na PGR, Nicolao Dino. O PMDB resistiu. Sobre Joesley Batista, Cunha diz que ele poupou o PT em sua delação premiada.

"Há omissões graves na delação dele. O Joesley poupou muito o PT. Escondeu que nos reunimos, eu e Joesley, quatro horas com o Lula, na véspera do impeachment. O Lula estava tentando me convencer a parar o impeachment. Isso é só um pequeno exemplo. Eu traria muitos fatos que tornariam inviável a delação da JBS. Tenho conhecimento de omissões graves. Essa é uma das razões pelas quais minha delação não poderia sair com o Janot", afirmou, envolvendo diretamente o ex-presidente.

O delator também afirma que o Ministério Público e o juiz Sérgio Moro queriam troféus políticos "dos dois lados", o que culminaria em sua prisão. "Nós temos um juiz que se acha salvador da pátria. Ele quis montar uma operação Mãos Limpas no Brasil – uma operação com objetivo político. Queria destruir o establishment, a elite política. E conseguiu", diz na reportagem sobre Moro. 

Delação apenas para se blindar?

O que Cunha traz de fatos novos sobre o PT? Uma reunião nas vésperas do impeachment? Bom, Dilma Rousseff conversou, junto com José Eduardo Cardozo, com Aécio Neves no Senado. Isso constitui crime? Não necessariamente.

A entrevista de Eduardo Cunha soa como uma proteção ao presidente Michel Temer e sobretudo a si próprio. Se Funaro delatou uma bancada de deputados toda financiada por ele, é muito claro que ele não produzirá provas contra si mesmo. No entanto, isso não significa que ele vai, necessariamente, mentir.

Delação contra delação, Cunha está tentando se libertar da prisão preventiva e se blindar.

Eduardo Cosentino da Cunha já foi o homem mais poderoso do Brasil no governo Dilma. Esta parece ser a sua tentativa de voltar a ter algum poder.

A vergonhosa postura do PT no caso entre o STF e Aécio Neves

Inimigo político do partido desde as eleições, Aécio Neves foi vítima de um Judiciário que não respeita o Legislativo. No entanto, o senador contou com uma solidariedade "republicana" do PT em nome da Constituição. Um verdadeiro tiro no pé.

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(Foto: Lula Marques/AGPT/Fotos Públicas)

O PT ainda chama o impeachment de Dilma Rousseff de "golpe". No entanto, o partido tem posturas ambíguas, como se a normalidade democrática fosse uma prerrogativa do governo Temer ou mesmo como se alianças políticas por interesses não fossem prejudicá-lo. A legenda parece ignorar a onda anti-esquerda vigente na mídia e na política.

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu no dia 26 de setembro, por três votos a dois, afastar do senador mineiro Aécio Neves e mantê-lo em “recolhimento noturno”. A decisão do STF foi tomada pelos votos dos ministros Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux.

O afastamento ocorreu em decorrência do pedido da Procuradoria-Geral da República para prender Aécio, sob alegação de que o tucano seria o destinatário de recursos de R$ 2 milhões repassados pela J&F/JBS de acordo com a delação premiada de Joesley Batista. O site do Senado retirou o nome do parlamentar tucano.

Apesar das penalidades, nos bastidores de Brasília rodou a notícia que todos os partidos dentro do Senado articularam para ignorar a decisão do STF. E, entre todos os partidos, o PT assumiu uma postura politicamente vergonhosa em relação ao parlamentar do PSDB.

Na nota pública da Executiva Nacional o Partido dos Trabalhadores afirmou que Aécio “é um dos maiores responsáveis pela crise política”, mas classifica a decisão do STF de “esdrúxula”. "Não existe a figura do afastamento do mandato por determinação judicial. A decisão de ontem é mais um sintoma da hipertrofia do Judiciário, que vem se estabelecendo como um poder acima dos demais e, em alguns casos, até mesmo acima da Constituição. O Senado Federal precisa repelir essa violação de sua autonomia, sob pena de fragilizar ainda mais as instituições oriundas do voto popular. E precisa também levar Aécio Neves ao Conselho de Ética, por ter desonrado o mandato e a instituição. Não temos nenhuma razão para defender Aécio Neves, mas temos todos os motivos para defender a democracia e a Constituição", afirma o partido.

Do ponto de vista constitucional, o PT defendeu o Senado. Mas politicamente a ação mancha a figura da legenda perante à esquerda. Como defender Aécio, um "golpista" nas palavras do próprio partido? Por que o Poder Judiciário comete abusos?

E os abusos jurídicos com o próprio PT? O PSDB e o PMDB já se posicionaram contra?

O Senado e a Comissão de Ética

Na articulação política para manter o mandato de Aécio Neves, um dos parlamentares envolvidos seria o petista Jorge Vianna. O senador do PT criticou a decisão do STF e, durante reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), defendeu que a Casa reaja contra uma cassação sem amparo constitucional.

Somente no dia 28 de setembro, o senador petista Humberto Costa afirmou que o PT representaria contra Aécio Neves na Comissão de Ética. No mesmo dia, por 43 votos a nove, o Senado adiou para 3 de outubro a votação sobre a decisão da primeira câmara do Supremo Tribunal Federal sobre Aécio Neves. 

A proposta de adiamento foi feita por um senador do PSDB, Paulo Bauer, sob o argumento de que a matéria deveria ser votado com um quórum maior de senadores. Os 43 votos pelo adiamento, interpretados como favoráveis à rejeição da decisão do Supremo e, portanto, favoráveis a Aécio, seriam suficientes para livrar o senador de Minas Gerais. 

Os aliados do tucano não quiseram correr o risco de votar a matéria na semana que o Supremo pediu o afastamento. A mesma decisão não teve tamanha demora no caso do deputado Eduardo Cunha, que foi cassado depois do impeachment.

O PT vai continuar contribuindo para as manobras que blindam Aécio Neves desde maio, quando as gravações de Joesley se tornaram públicas, ou fará pressão legitima pela cassação?

Não sabemos. Mas a postura do partido sobre os opositores que "provocaram a crise democrática" hoje é, no mínimo, vergonhosa.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.