Coluna do Pedro Zambarda
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A prisão de Aldemir Bendine e a Lava Jato que encosta nos bancos

Como a maior operação contra a corrupção da Petrobras cada vez mais se afasta da investigação inicial.

A prisão de Aldemir Bendine e a Lava Jato que encosta nos bancos
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Nascido em Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo, Aldemir Bendine tem 53 anos e é administrador de empresas. Funcionário de carreira no Banco do Brasil, entrou na empresa em 1978 como mentor aprendiz após concurso público e tornou-se presidente em 17 de abril de 2009. Fazia Engenharia Civil em Presidente Prudente, mas abandonou para cursar Administração de Empresas na PUCRio.

Quando ficou à frente do banco, recebeu de Lula o desafio de aumentar o crédito brasileiro em plena crise econômica mundial. Na época, a instituição comprou o controle da Nossa Caixa e foi também em 2009 que o BB incorporou 51% do Banco da Patagônia, na Argentina. Bendine também foi responsável pela abertura de capital da BB Seguridade. Ao tocar o sino no pregão da BM&FBovespa, no centro de São Paulo, ele estabeleceu alguns recordes. O lançamento captou R$ 11,5 bilhões, a maior abertura de capital do mundo em sete meses e o quarto maior lançamento de ações da história da bolsa. Por ter orquestrado essa captação, Bendine foi considerado o Empreendedor do Ano nas Finanças em 2013 pela Revista ISTOÉ Dinheiro.

E ele colecionou reconhecimentos na mídia, pois foi considerado pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009, na 32ª posição do ranking. Também foi considerado o 11º mais poderoso do Brasil pelo portal iG no ano de 2013. Saiu do Banco do Brasil em 6 de fevereiro de 2015, após 37 anos na estatal, quando foi indicado por Dilma Rousseff para assumir a presidência da Petrobras.

Dentro da maior empresa de petróleo brasileira, recebeu uma empresa em caos com a crise política. As despesas de juros subiram de R$ 18 bilhões por ano para quase R$ 30 bilhões, além dos maiores prejuízos da história da Petrobras. Saiu em 30 de maio de 2016, com Michel Temer assumindo as funções de Dilma.

É este homem que foi preso no dia 27 de julho de 2017, durante a 42ª fase da Operação Lava Jato chamada COBRA. Antônio Carlos Vieira da Silva Júnior e o publicitário André Gustavo Vieira da Silva também foram detidos no Recife (PE). Ao todo, foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão e três mandados de prisão temporária no Distrito Federal e nos Estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Bendine tinha passagem comprada para Portugal no dia 28 de julho e voltaria no dia 19 de agosto, diz seu advogado.

A prisão ocorreu porque estão sendo investigados contratos da Petrobras e operações com a Odebrecht. Na gestão Bendine, áudios sobre a compra da refinaria de Pasadena teriam sido destruídos. Delatores afirmam que ele teria pedido R$ 3 milhões para não arruinar as relações, o que foi citado por Marcelo Odebrecht em seu depoimento. Ele nomeou a ação de "achaque de Bendine", porque ele parecia cumprir ordens do governo federal antes da prisão do presidente da empreiteira.

Aldemir Bendine tinha proximidade com a ex-presidente Dilma Rousseff e já se especula que sua delação premiada deve atingir o braço direito dela, o ex-ministro Guido Mantega, que já é citado por delatores.

O atual presidente do Banco do Brasil, Paulo Caffarelli, tinha proximidade com Bendine e se afastou. Mas três pessoas dentro do BB ainda possuem proximidade com ele: o vice-presidente de varejo e gestão de pessoas, Walter Malieni, o vice-presidente de negócios e atacado, Maurício Maurano, e o chefe do BB DTVM (braço de fundos de investimento e carteiras administradas), Paulo Ricci. 

Palocci e o encontro do sistema bancário com a Lava Jato

Preso há meses, o ex-ministro de Lula e antecessor de Guido Mantega, Antonio Palocci, está negociando uma delação premiada após troca de advogados. Sites de direita como O Antagonista ventilaram nestes meses que a delação entregaria Lula, mas o que é negociado é ligeiramente diferente.

De acordo com uma reportagem da TV Record citando blogs de esquerda como o Cafézinho e até o colunista Reinaldo Azevedo, bem como informações exclusivas, Palocci pode acabar entregando o sistema bancário por ter trabalhado como consultor e trader depois de deixar o Ministério da Fazenda.

Ele poderia reviver o escândalo de mais de R$ 1 bilhão de sonegação fiscal da TV Globo pelos direitos de transmissão da Copa de 2002, que ocorreu depois de uma recuperação financeira milionária feita pelo BNDES sob orientação de Palocci para salvar a rede, endividada no final dos anos 90.

Assim como Palocci, Bendine dará informações preciosas sobre as relações do Banco do Brasil com os esquemas de propina que circundaram a Petrobras.

Parece que, de vez, o sistema bancário vai entrar na valsa das delações premiadas.

Quem é Raquel Dodge, a sucessora de Rodrigo Janot na PGR

A Procuradoria-Geral passará por uma mudança num período que a Operação Lava Jato está em dúvida. O que esperar da procuradora que vai substituir o homem que colocou Michel Temer na berlinda?

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Em maio de 2017 o Estadão apurou que a Lava Jato teve um corte de um terço das verbas para manter policiais investigando políticos e empresários no escândalo da Petrobras. Na ocasião, a Superintendência da Polícia Federal do Paraná informou que Ministério da Justiça destinou R$ 20,5 milhões – R$ 3,4 milhões para os gastos extras da operação – ante os R$ 29,1 milhões de 2016 – dos quais R$ 4,1 milhões especificamente para a Lava Jato –, uma queda de 29,5%. O aperto financeiro é ainda maior, pois, além da redução, houve contingenciamento de 44% da verba destinada originalmente.

No meio deste impasse, o presidente Michel Temer indicou o nome de Raquel Elias Ferreira Dodge, goiana de Morrinhos, para a Procuradoria-Geral da República que conduz os processos no Supremo Tribunal Federal da Operação Lava Jato. Diferente de outros procuradores, indicados pelo PT, Raquel era a segunda indicada na lista tríplice e seu nome apareceu no dia 28 de junho de 2017. A aprovação dela no Senado Federal se deu por 74 votos a um no dia 12 de julho.

Ela tomará posse em 17 de setembro de 2017. Janot já deixou claro que encaminhará as denúncias envolvendo o presidente Temer na PGR, o que pode gerar sua cassação em agosto deste ano. Se algo acontecer com o processo, Raquel Dodge pode paralisá-lo - se ela for mesma favorável ao governante acusado de praticar corrupção passiva e lavagem de dinheiro por Joesley Batista da J&F/JBS.

No dia 18 de julho, já escolhida, Raquel Dodge questionou Janot sobre a verba reduzida da Lava Jato, o que ele negou. O procurador, então, triplicou a verba da operação em Curitiba no dia 25 de julho. O valor da verba do Ministério Público para policiais e oficiais vai passar de R$ 522 mil para R$ 1,65 milhão na capital do Paraná. O conselho ainda incluiu no orçamento um reajuste de 16,7% para todos os procuradores do MP.

É neste contexto que a procuradora assume as funções de Rodrigo Janot. Mas quem é, de fato, Raquel Dodge?

Pró-direitos humanos, casada com americano e próxima do Mensalão

Raquel nasceu em 26 de julho de 1961, tem 55 anos e é casada com Bradley Dodge, cidadão americano residente no Brasil como professor da Escola das Nações, instituição de ensino para filhos de integrantes do corpo diplomático de Brasília. Dentro do MP, ela atuou em processos envolvendo a defesa dos direitos humanos, principalmente casos sobre trabalhadores em situação análoga à escravidão e violações aos direitos indígenas.

A nova procuradora integrou a operação que investigou o esquadrão da morte comandado pelo ex-coronel e ex-deputado federal Hildebrando Pascoal, na década de 1990, no Acre. No ano de 2009, convidada pelo então procurador-geral Roberto Gurgel, seu amigo, coordenou a força-tarefa da Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, responsável por investigar um esquema de corrupção que tinha, entre seus integrantes, o então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, do PR. Gurgel comemora sua nomeação e era o procurador do processo do Mensalão, que condenou os petistas José Dirceu e José Genoino.

Ela foi coordenadora da Câmara Criminal do MPF, membro da 6ª Câmara, Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão Adjunta. Raquel Dodge também atuou na equipe que redigiu o 1.º Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, e na 1.ª e 2.ª Comissão para adaptar o Código Penal Brasileiro ao Estatuto de Roma. Hoje ela integra a 3ª Câmara de Coordenação e Revisão, que trata de assuntos relacionados ao Consumidor e à Ordem Econômica. 

E trocará o cargo pelo posto de Janot, um dos mais criticados na Lava Jato por cuidar dos processos de políticos com foro privilegiado, o que gerou as prisões preventivas de políticos como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, bem como ampliou as delações premiadas.

Renan Calheiros foi um dos poucos senadores que reclamou da nomeação de Raquel Dodge, segundo a revista Época. Segundo o ex-procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, que assumiu o posto em 2003 após indicação do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a seleção de Raquel desprestigia a tradição do Ministério Público de escolher o primeiro da lista. A informação consta numa entrevista feita à Carta Capital.

De qualquer forma, tudo indica que Raquel Dodge tende a dar continuidade ao trabalho do "doutor Rodrigo Janot", que é criticado por valorizar delações e publicizar grampos sem crimes - alguém lembra do caso entre Reinaldo Azevedo e Andrea Neves?

Mas uma dúvida não existe: Temer e políticos como Renan Calheiros vão aproveitar a troca de cadeiras para se blindarem. 

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.