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Bolsonaro não é (e não pode ser) o "Lula da direita"

Breves considerações sobre o possível candidato de extrema-direita à presidência em 2018.

Bolsonaro não é (e não pode ser) o "Lula da direita"
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O jornalista Márcio Juliboni publicou dois artigos neste mês no Storia que se contradizem. "Bolsonaro é o Lula da direita" e "O dilema de Bolsonaro: pequeno demais para uns; grande demais para outros" são textos que partem de teses simetricamente opostas. Mas são ótimos textos para refletir um pouco sobre o pânico da esquerda com o ex-capitão que só conseguiu aprovar dois projetos de lei na Câmara dos Deputados em 26 anos de atividade parlamentar.

O primeiro texto leva mais em conta razões ideológicas e a compreensão média dos eleitores sobre Lula e Bolsonaro, que não consideram um estudo mais aprofundado de seu desempenho como políticos e nem o tamanho real das candidaturas possíveis. 

"O que os católicos de direita e de esquerda têm em comum? Messianismo. Na fé, ele é representado pela crença de que Cristo retornará à Terra para vencer o Diabo na batalha final do Armagedon e resgatar os puros de coração. Na política, ele é representado pela esperança de que um líder forte e carismático se coloque acima do Bem e do Mal, a fim de promover a ordem e a justiça terrenas (...). Promover a ordem e a justiça terrenas pressupõe combater o Mal que desgraça a política e a sociedade. Vejamos como isso ocorre na política. Nos bons tempos em que era estilingue e não vidraça, Lula não se cansava de se vender ao eleitorado como o único capaz de moralizar a política. Era imaculado, puro, pairava como um Cristo sobre as águas do Paranoá. Alguém se lembra de quando ele disse que, no Congresso, havia '300 picaretas com anel de doutor', frase eternizada em uma música dos Paralamas do Sucesso? Agora, nos tempos da Lava Jato, a bandeira da ética na política mudou de mãos. Ela foi delegada, por parte dos eleitores da direita, a Jair Bolsonaro. Ex-militar, ele encarna a idealização de que bastam a ordem e o cumprimento da lei para que a corrupção acabe. Para tanto, é necessário aplicar a disciplina dos quartéis à máquina pública e às relações com os outros poderes", pontua Juliboni. 

A análise é precisa e leva em conta a percepção cultural que temos de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas uma análise mais detalhista do passado do maior líder do PT mostra mais contradições em relação a Bolsonaro. Embora fosse visto, sim, pela direita como um radical muito próximo de Fidel Castro, de Cuba e de uma esquerda engajada pela ética e pela bandeira anti-ditadura, Lula no fundo sempre foi um centrista com uma leve inclinação à esquerda. Nas greves do ABC nos anos 70, era ele quem mantinha um bom relacionamento com donos de montadoras como a Volkswagen. A habilidade política do "sapo barbudo" sempre foi confundida equiparada com frequência ao "peleguismo". Ele seria, portanto, um líder carismático das greves que enfraquecia os movimentos sociais sindicais para conseguir bons acordos em pleno fim da ditadura.

Nos anos 90, Lula também teve atritos históricos e muito restritos aos bastidores com José Dirceu, este sim ex-guerrilheiro armado nos anos 70 com treinamento em Cuba. Ideológico, o ex-ministro Dirceu sempre tentava o embate direto com o PSDB quando Fernando Henrique Cardoso era o presidente da República, inclusive pedindo o seu impeachment na Câmara. Lula preferia conversar com FHC e selar acordos. Mesmo sendo o derrotado em primeiro turno das eleições de 1994 e 1998, foi assim que o ex-metalúrgico conseguiu chegar ao Palácio do Planalto.

Jair Bolsonaro tentou fazer um atentado a bomba num quartel de Resende, no Rio de Janeiro, por melhores salários no governo João Batista Figueiredo. Utilizando-se de sua influência política, botou os filhos em cargos no Poder Legislativo. Bolsonaro também militou contra qualquer tipo de educação pró-LGBT, estabelecendo conflitos com o suposto "kit gay" do ex-ministro Fernando Haddad, e brigou pelo Dia do Orgulho Hétero. Ele é, portanto, o autoritarismo com ares de nazismo numa roupagem nova, considerando suas declarações dúbias sobre Adolf Hitler ao programa CQC na TV Bandeirantes.

E é neste ponto que o segundo texto de Juliboni enquadra melhor Bolsonaro: "o que se vê é o desejo efetivo do representante da ultradireita de sair do seu minúsculo PSC para viabilizar sua candidatura. Mas, quando bate à porta de legendas mais parrudas, como o PR do ex-governador fluminense Anthony Garotinho, é tratado como um grande nanico. É verdade que sua força entre conservadores e reacionários não pode ser ignorada. Afinal, 21% de intenções de votos (segundo o DataPoder360) não é de se jogar fora. Mas grandes partidos têm grandes interesses e Bolsonaro parece não atendê-los. Primeiro, o tempo de TV com que contam, fruto de suas numerosas bancadas, é valioso para qualquer aspirante ao Planalto em 2018. E, em tempos de Lava Jato, 'valioso' deve ser lido ao pé da letra – essas legendas vendem minutos a peso de ouro, como se viu nas delações. Por que, então, desperdiçar um bom negócio apenas para atender ao sonho de Bolsonaro? Não é por acaso, que o ex-capitão é cobiçado apenas como puxador de votos para a Câmara. O próprio PR, que estaria negociando sua filiação, não lhe garante até agora o direito a concorrer à Presidência".

Bolsonaro empata com Lula em 21% contra 23% segundo o levantamento do site Poder360 do jornalista Fernando Rodrigues. E estes dados, que dão empate numa margem de erro de 3%, só são estáveis se João Doria Jr. for o candidato do PSDB, com 13%. Portanto, embora esteja em ascensão, a candidatura Jair Bolsonaro ainda é muito frágil diante da movimentação de outros candidatos.

Doria pode ser encarado como um anti-Lula, justamente por atacar sempre que pode as atitudes do ex-presidente e por ter um comportamento de negociador que o permite estar num grande partido como é o ninho tucano. Se for presidente da República, por mais que João Doria tenha uma certa simpatia fascista por verde e amarelo e não goste muito de moradores de rua, ele obrigatoriamente terá que dialogar com o centro e com partes da esquerda. E não há esquerdistas no Brasil, com estatura e votos, que defendam o stalinismo ou correntes comunistas mais radicais. A esquerda, portanto, dialoga muito mais do que a direita e, mais ainda, se comparada com a extrema-direita bolsonarista.

Bolsonaro pode se tornar um perigo real ao país se o seu discurso se converter em práticas ainda mais autoritárias do Estado brasileiro. Em nome do combate à corrupção e talvez abençoado por igrejas evangélicas, temos efetivamente a possibilidade de um presidente da República que poderá machucar a população em cima de preceitos racistas, xenofóbicos e homofóbicos.

Jair Bolsonaro não tolera, não respeita e racha as diferenças filosóficas, ideológicas e sociológicas dos demais cidadãos. Desta forma, nem em um ambiente muito polarizado ele pode ser lido como o oposto a Lula.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

Achou que a política só estava em House of Cards? Estava enganado, espertinho. As histórias do continente de Westeros são capazes de ensinar um pouco de ciência política, sobretudo pelo viés de esquerda.

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Repleta de dragões, mortos-vivos - os White Walkers que chegaram com o inverno no continente de Westeros - e outras referências da fantasia literária de George R. R. Martin, a série Game of Thrones da HBO tem muito pouco a ver com o mundo real, certo? Errado. A ficção baseada nas "Crônicas de Gelo e Fogo" tem preciosas lições de ciência política contemporânea.

E os personagens desenhados no seriado desde 2011 trazem muitas informações que pertencem às ideologias de esquerda. A saber, o esquerdismo surgiu na Revolução Francesa de 1789, como a via de pensamento mais popular, e prega o combate às desigualdades sociais.

Vamos verificar, então, 10 aspectos de esquerda que estão em Game of Thrones.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

1. Há o combate à escravidão. Tanto o socialismo (pela esquerda) quanto o capitalismo (pela direita) representam no mundo real a ruptura ao sistema feudal, que dividia a sociedade europeia em castas - clero, nobreza e população, sem a possibilidade de transição entre elas. Game of Thrones exemplifica este tipo de combate com Daenerys Targaryen, herdeira de uma linhagem de reis e dona de três dragões, liberta os escravos de Meereen, uma sociedade religiosa (eles são baseados na teocracia do Egito Antigo, com pirâmides). Dany promove uma verdadeira revolução, dando o poder de decisão aos escravos. Voluntariamente eles se tornam o exército dela, com ex-escravos como seus conselheiros e comandantes.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

2. Há diálogo em torno do bem comum. Desde o começo de GoT, há o temor com a chegada "do inverno". O lance é o seguinte: existe o mundo civilizado dos reinos em Westeros e existe A Muralha, que protege o mundo civilizado de seres mágicos fora dos seus limites. O inverno vai destruir esta barreira e os povos livres do outro lado da fronteira deixam de guerrear contra a Guarda da Noite. Por qual motivo? As guerras históricas são deixadas de lado a medida que os White Walkers surgem para dizimar a humanidade. Em nome da sobrevivência, há o diálogo em torno do bem comum, um conceito tradicional do socialismo.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

3. Há conflitos de classes. Os personagens em GoT são divididos em famílias: os Targaryen eram os antigos monarcas e dominavam com os dragões, quase que representando o feudalismo autoritário, enquanto os Lannisters são a família dona das minas de ouro, sendo portanto o poder econômico. Os que possuem menos posses brigam com demais classes sociais, especialmente depois que a Revolta de Robert Baratheon fez as famílias menos abastadas do norte de Westeros tomarem posse do Trono de Ferro que domina os sete reinos. Existe também a crise econômica que surge com a queda de extração de outro nas minas de generais, como Tywin Lannister.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

4. Há a quebra do tradicionalismo conservador. Religiões antigas são destruídas pelos personagens de Game of Thrones, incinerando igrejas e sacerdotes. Ao mesmo tempo, rainhas como Daenerys criam novas mitologias ao redor de seus dragões mágicos. No entanto, há uma essência anti-idolatria religiosa dentro da ideologia de esquerda. Ela é mais cética à respeito da fé, tradicionalmente dizendo - embora existam correntes católicas e protestantes de esquerdismo, como a Teologia da Salvação no Brasil (fortemente vinculada ao PT).

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

5. Há sacrifícios em torno de causas. As mortes políticas em Game of Thrones começam na família Stark e não param durante o seriado todo. No entanto, os ideais dos patriarcas são passados aos descendentes, que brigam por uma sociedade melhor do que a antiga, um conceito tipicamente esquerdista.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

6. O poder feminino é realçado no seriado. Sansa Stark, Cersei Lannister e a própria Daenerys Targaryen mostram que as mulheres podem ser rainhas. O feminismo é uma bandeira moderna e clara da esquerda e de quem vê política pelo viés progressista.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

7. A dureza dos escravos, dos pobres e dos desfavorecidos existe em Westeros. E esta narrativa aparece forte na vida de Arya Stark, a filha guerreira de Ned Stark. Embora ela seja uma nobre, ela opta por viver na margem da sociedade para vingar sua família, disfarçada como menino e vendo a desigualdade social de Game of Thrones, um problema que é encarado pela esquerda.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

8. O autoritarismo e a defesa violenta do regime gera revoluções. Aerys II Targaryen ficou insano para manter a sua linhagem real obtida a partir de incestos. Tornou-se o "Rei Louco" de Game of Thrones, capaz de queimar sua própria população. Terminou morto por seu braço direito no trono e provocou uma revolução em Westeros, acabando com a paz entre as famílias e colocando Robert no poder.

10 aspectos da esquerda que estão presentes na série Game of Thrones

9. As guerras podem ser evitadas pela negociação política. Este é outro viés esquerdista, mais moderado no seriado, que acredita nas reformas do sistema econômico-político. É uma tendência que evita a revolução, um movimento mais radicalizado que acaba inevitavelmente no conflito direto.

10. A visão do desfavorecido é levada em conta. Game of Thrones não é uma narrativa do "bem contra o mal".  Sua história política de reis e plebeus traz a visão de desfavorecidos socialmente como o anão Tyrion Lannister, que vive uma vida à margem da família real e se apaixona por prostitutas, sem estabelecer vínculos tradicionais. A visão em tons de cinza da vida humana, mostrando personagens nas suas virtudes e falhas, é uma visão da esquerda tradicional, que enxerga o bem real apenas nas causas sociais igualitárias.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.