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Como Albert Camus me ensinou o que é esquerda e imprensa engajada

Uma pesquisa realizada em 2008 sobre imprensa clandestina francesa na Segunda Guerra Mundial mudou minha percepção sobre política. Por este motivo, você também deveria conhecer o escritor franco-argelino Albert Camus.

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Viveu entre 1913 e 1960. Franco-argelino, era considerado pied-noir (pé preto, do francês), uma designação para colonizados que viviam no país europeu. Estudou filosofia e começou no jornalismo como crítico de música. Sua especialidade na academia? História grega. Comecei a estudar Albert Camus em 2007, no começo da minha faculdade de jornalismo, e não parei mais. Me interessei por ele quando li "O Estrangeiro", em 2005.

De um livro para outro, consumi a maioria das obras traduzidas para o português. E descobri sua obra jornalística, um assunto pouco abordado sobre sua vida e carreira.

Mulherengo, viciado em jazz, machista e fumante obcecado, foi amigo de Jean-Paul Sartre, o filósofo existencialista que o introduziu ao círculo de intelectuais de Paris. Escreveu sobre o absurdo em diferentes contos e ensaios, mas foi "Estrangeiro" que lançou a história do homem europeu desencantado, cético e pessimista. A história vinha da própria vida de Camus, filho de um combatente morto na Primeira Guerra Mundial.

Como Albert Camus me ensinou o que é esquerda e imprensa engajada

Fiz minha iniciação científica na Cásper Líbero em cima das contribuições de Albert Camus na imprensa até 2009. Além do Alger Républicain e o Le Express, eu me foquei num jornal clandestino ligado ao Partido Comunista Francês chamado Combat. Nele, Camus fez editoriais e reportagens sobre o campo de batalha francês, que combateu a Alemanha nazista e a República de Vichy, constituída de franceses traidores após a invasão de Paris.

Nos textos, Camus discorria sobre política, guerra e, claro, jornalismo.

"Jornalismo clandestino é honrável porque é uma prova de independência, porque envolve um risco. É bom, é saudável, tudo o que tem haver com os atuais eventos políticos têm se tornado perigoso. Se há algo que nós não queremos ver novamente, é a proteção da impunidade por trás de quem com um comportamento tão covarde e com muitas maquinações uma vez teve refúgio".

(CAMUS ALBERT In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 9) 

A imprensa independente nos moldes burgueses é o que é em cima de múltiplos patrocinadores, que buscam balancear seu "rabo preso". Mas é na clandestinidade que o jornalista se prova realmente independente. Diante de um governo autoritário e censurador, a imprensa engajada se comporta como informe dos sobreviventes. Trabalha pelo dado e pelo julgamento moral dos eventos, não puramente pelo dinheiro. E o Combat dependia única e exclusivamente do partido.

E ele fala sobre filosofia:

"Camus definiu sua maneira de encaixar sua arte, sua vida, sua moral. 'Nenhuma grande obra [...] nunca se fundamenta verdadeiramente no ódio ou no desprezo. Em algum lugar de seu coração, em algum momento de sua história, o verdadeiro criador acaba sempre por reconciliar. Ele atinge então a medida comum na estranha banalidade em que se define [...] Se o artista não pode recusar a realidade, é porque ele tem por encargo dar-lhe uma justificação mais elevada . Como justificá-la se decidimos ignorá-la? Mas como transfigurá-la se consentimos em nos submeter a ela?' Cada página escrita e bem-sucedida foi uma amarga vitória para Albert Camus".

(TODD, Olivier. Albert Camus: Uma vida. 1998. p. 779)

Frasista incorrigível, é de sua autoria dois aforismos que levo para a vida.

Como Albert Camus me ensinou o que é esquerda e imprensa engajada

"Não há amor de viver sem desespero de viver", do livro "O Avesso e o Direito", seu primeiro.

“No meio do inverno, aprendia afinal que havia em mim um verão invencível”, de "Núpcias, O Verão".

Tornou-se filósofo conhecido globalmente, pensador pacifista na Guerra de Argel e terminou brigado com Sartre em cartas públicas na imprensa. Jean-Paul Sartre seguiu para a esquerda armada e engajada, simpatizando-se com a União Soviética, a China e Fidel Castro. As rusgas e as discordâncias intelectuais manteriam Camus e Sartre separados pelo resto da vida.

Fiz um extenso artigo sobre a carreira jornalística de Albert Camus para a revista Anagrama da USP. Se tiver paciência, leia neste link: http://www.albertcamus.com.br/2010/11/jornalismo-frances-e-albert-camus.html

Albert Camus tornou-se minha leitura de cabeceira e uma espécie de guia intelectual do que eu acredito que seja a esquerda crítica correta e a imprensa que todos desejamos.

Termino este artigo com mais duas considerações dele sobre jornalismo, ambas publicadas no jornal Combat entre 1944 e 47, no caos da Segunda Guerra Mundial.

"O que nós queremos? Uma imprensa que seja clara e viril e escreva em um estilo decente. Quando nós sabemos, como nós jornalistas temos conhecimento nesses últimos quatro anos, que escrevendo um artigo pode trazer você até a prisão ou te matar, fica claro que as palavras tem valor e devem ser mensuradas cuidadosamente. O que nós estamos esperando é restaurar a responsabilidade jornalística com o público".

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 22)

"Jornalismo não é reconhecido como escola de perfeição. Pode ser necessária uma centena de matérias de jornal para fundamentar uma única ideia claramente. Mas essa ideia pode esclarecer outras, provida da mesma objetividade que foi feita na sua formulação, empregada na investigação de suas implicações".

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 64)

"Nós também devemos considerar o jornalismo das idéias. Previamente, nós apontamos que a imprensa francesa deixa algo a desejar quando vem com sua concepção de notícias. Jornais procuram informar seus leitores rapidamente do que informa-los bem. A verdade não é beneficiada nessa opção de prioridades".

(CAMUS, Albert. In: LEVI-VALENSI, Jacqueline. Camus at Combat: Writing 1944-1947. 2006. p. 32)

Como Albert Camus me ensinou o que é esquerda e imprensa engajada

Como Trump e Doria derrubam o mito de que "todo o populismo é de esquerda"

Este mito sempre foi mentiroso, mas está mais aparente como nunca em 2017. Entenda por que o populismo de direita serve para enganar eleitores tanto quanto o de esquerda. E saiba como eles são igualmente inócuos.

Como Trump e Doria derrubam o mito de que "todo o populismo é de esquerda"
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A expressão "populismo" ganhou força entre os séculos 19 e 20, quando o poder na Rússia migrou do Czar para os camponeses e trabalhadores. A formação dos sovietes e a revolução de 1917 colocaram Vladimir Lênin no poder. Depois veio Stalin e a mão de ferro da União Soviética. 

E o resto é história.

Na América Latina, o populismo se notabilizou com os chamados "caudilhos", como Fulgêncio Batista em Cuba (antes do falecido Fidel Castro), Getúlio Vargas no Brasil e outros. Tratam-se de governos de Estado forte sustentados por redes de apoio populares que não suportam rivalidade. A partir do século 20, o populismo saiu da esquerda e deu face a governos de direita e até fascistas - caso de Vargas no Brasil, embora também fosse desenvolvimentista.

Como Trump e Doria derrubam o mito de que "todo o populismo é de esquerda"

Nos anos 2000, Hugo Chávez foi classificado como um novo caudilho de esquerda, embora tenha fortalecido as estruturas venezuelanas, diferente do camarada Nicolás Maduro, seu sucessor. E, no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva foi apontado como novo caudilho, embora a oposição do PSDB tenha ficado mais de 20 anos no poder em São Paulo, contra 13 da administração do PT no governo federal.

Como Trump e Doria derrubam o mito de que "todo o populismo é de esquerda"

Eis que surge o Tea Party nos Estados Unidos, como uma reação popular das elites, e a extrema-direita Europeia contra governos de esquerda do Estado do Bem-Estar Social. Donald Trump na presidência americana e João Doria Jr. na prefeitura de São Paulo são frutos diretos deste novo populismo entre 2010 e 2017. É a reação de Wall Street, do 1%, de se proteger através de políticas protecionistas, xenofóbicas e (por que não?) nacionalistas.

A linha de raciocínio parece similar a da Alemanha pós-Republica de Weimar e pré-Hitler. Depois de um período de paz recheado de tensões, o mundo caminha para inflamar. Mas desta vez não será numa revolução que colocará o povo no poder, e sim a velha elite branca, masculina e machista de sempre.

Trump canetou em menos de 10 dias de governo uma lei proibindo a entrada de refugiados de sete países: Irã, Iraque, Síria, Iêmen, Somália, Sudão e Líbia. A base da legislação que valerá três meses são ataques terroristas feitos supostamente "por estes países", sendo que o 11 de setembro aconteceu por terroristas sauditas e egípcios.

Doria vestiu-se de gari, pedreiro, cadeirante e prometeu um almoço a um mendigo para depois tirar uma foto sem sua autorização. Diz-se antenado com as necessidades do paulistano, mas apagou grafites milionários da cidade com tinta cinza, além de perseguir pichadores. Agrada à classe média reacionária, mas não satisfaz os pobres que o elegeram, cansados também da política do PT.

O populismo de direita nos levará até a catástrofe, mais do que a esquerda.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.