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Como Sérgio Moro acabou desmoralizado pela Veja e pelo Estadão pós-JBS?

A delação do empresário Joesley Batista colocou o magistrado de primeira instância na berlinda. A Justiça é menos "imparcial" do que parece?

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A grande mídia brasileira, sobretudo representada pelas grandes famílias (Marinho, Frias, Mesquita e Civita), elegeu Sérgio Moro como o juiz da vez no caso da Operação Lava Jato. A revista Veja o elegeu personalidade do ano em 2015, enquanto o jornal O Globo premiou o magistrado de Curitiba.

Responsável por julgar políticos e empresários baseados nas delações premiadas da Força-Tarefa do Paraná, o barco parece ter virado para Moro. E a percepção pública da mídia mudou justamente pela delação premiada de Joesley Batista da JBS, que atingiu em cheio o núcleo duro do PMDB e do governo de Michel Temer - que não foram abalados pelo juiz.

No editorial "Estado Policial", publicado no dia 27 de maio de 2017, Veja muda de posicionamento defendendo seu ex-colunista Reinaldo Azevedo, que se demitiu após vazarem áudios seus com Andrea Neves dele falando mal da revista. A publicação passa a condenar os grampos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, na época que o ex-presidente quase se tornou ministro-chefe da Casa Civil.

Veja pontua:

"Em 16 de março de 2016, o país inteiro ouviu um diálogo telefônico entre a então presidente Dilma Rousseff e o ex-presi­dente Luiz Inácio Lula da Silva. Eram 13h32 de uma quarta-feira, e os dois discutiam sobre o envio de um documento para a posse de Lula como ministro da Casa Civil. O conteúdo da conversa era do interesse da investigação, mas a autorização judicial para monitorar o telefonema acabara às 11h12, duas horas antes. Portanto, depois desse horário a gravação era ilegal. Pois ela foi feita mesmo assim, seu conteúdo foi divulgado e a crise política daqueles dias se aprofundou dramaticamente. Na semana passada, ocorreu novo episódio de violação da lei das interceptações telefônicas, quando veio a público o diálogo do jornalista Reinaldo Azevedo, ex­-blogueiro de VEJA e colunista do jornal Folha de S.Paulo, com Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves. A gravação estava autorizada judicialmente e se realizou dentro do prazo de validade, mas o conteúdo da conversa entre os dois nada tinha a ver com as investigações. O material deveria ter sido incinerado. Também não foi. Configurou-se outra afronta à lei, com uma agravante: a Constituição prevê a inviolabilidade da comunicação de um jornalista com sua fonte. Esse é um dos pilares do jornalismo nos países democráticos, dado que, sem tal garantia, não existe liberdade de imprensa. É lamentável que autoridades encarregadas de fazer cumprir a lei — policiais, procuradores, juízes — acabem se tornando violadoras da lei. A Lava-Jato é um poderoso desinfetante em um país de corrupção sórdida. Mas esse tipo de agressão — à lei, à privacidade, à liberdade de imprensa — não é digno de um Estado democrático de direito. É coisa própria de Estados policiais".

A revista Veja, portanto, aponta que abusos cometidos por Sérgio Moro são consequência de um Estado que valoriza a polícia e não a Justiça propriamente dita.

No dia 1º de junho, o jornal O Estado de S.Paulo adota uma postura semelhante a da Veja no editorial "É isto a justiça?" A publicação da família Mesquita critica nominalmente o juiz, afirmando que ele mesmo valorizou delações premiadas ao colocar tais denúncias em andamento a partir do doleiro Alberto Youssef.

"Criou-se um ambiente em que as delações parecem bastar. Se é assim, o objetivo não é fazer justiça, mas uma certa justiça. Aliás, ensinava o juiz Oliver W. Holmes que juiz não faz justiça, aplica a lei. Há tempos ficou claro que certos membros do Ministério Público têm a pretensão de purgar o mundo político daqueles que consideram nocivos. Para esse fim, basta espalhar por aí, por meio de vazamentos deliberados, que tal ou qual político foi citado nesta ou naquela delação para que o destino do delatado esteja selado, muito antes de qualquer tribunal pronunciar sua sentença".

E o jornal arremata:

"Se é verdade, como diz o juiz Sérgio Moro, que o objetivo dos paladinos do Ministério Público é “pegar os grandes” criminosos, como explicar que alguém que confessa crimes dessa magnitude, como fez Joesley Batista, não será punido? A resposta é muito simples: o objetivo não é pegar os grandes criminosos, mas apenas aqueles que, na visão dos procuradores da República, devem ser alijados da vida nacional – isto é, os políticos. Ainda que nenhuma prova apareça para corroborar as acusações, o estrago já estará feito. E, no entanto, há muitos políticos honestos neste país".

E por que ocorreu tal mudança de posicionamento destas publicações de grande mídia?Mudança ideológica?

Nada disso. É o simples medo de, ao compreender as críticas que eram feitas na perseguição a petistas, verificar que Moro não colocou em andamento investigações e julgamentos para punir de fato todo o sistema corrupto. O juiz de Curitiba atingiu apenas uma determinada casta política e as punições empresariais foram desbalanceadas - basta verificar o tempo de prisão de Marcelo Odebrecht e como Joesley Batista facilmente fugiu das prisões ao delatar e grampear telefonemas.

O que a Veja e o Estadão não contam nesta história é como foram cúmplices nesta operação. A coluna do jornalista Fausto Macedo no Estado de S.Paulo dá em primeira mão as delações premiadas, muitas vezes atingindo o PT primeiro antes dos demais partidos. A revista Veja promoveu Sérgio Moro por seus colunistas, inclusive por Reinaldo Azevedo que terminou demitido e criticando a Lava Jato mas tinha outro discurso em carnavais passados.

Um dos maiores erros de Moro, fora grampos ilegais e delações seletivas, foi ter barrado perguntas de Eduardo Cunha a Temer, que antecipavam as denúncias de Joesley na Justiça.

Moro acabou demoralizado pela Veja e pelo Estadão. Pena que eles não admitem que foram cúmplices na sua jornada antipetista anteriormente.

10 pontos sobre o texto de Fernando Haddad na Piauí

O ex-prefeito de São Paulo publicou um texto esclarecedor na revista Piauí de junho de 2017. Como o material é longo, separamos aqui os principais pontos.

10 pontos sobre o texto de Fernando Haddad na Piauí
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Fernando Haddad publicou um texto longo e complexo na edição de junho de 2017 da revista Piauí. Com o título "Vivi na pele o que aprendi nos livros", o ex-prefeito fala sobre o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff disfarçado de impeachment, critica a ex-presidente, descreve perseguição da mídia e ainda comenta sobre o papel golpista do PSDB nos últimos anos.

O texto é uma distribuição democrática de apontamentos duros, aproveitando que Haddad está afastado da vida política e dando aulas de ciência política na USP.

Separamos aqui os 10 melhores pontos sobre as críticas de Fernando Haddad.

1 - "Meu primeiro encontro de trabalho com Dilma mostrava que eu havia me equivocado. Ela encerrou a conversa, me acompanhou até a porta e disse uma frase de que não me esqueço: 'Espero que o nosso próximo encontro seja mais produtivo'. Sou filho do casamento de um comerciante libanês com uma normalista. Aprendi em casa a negociar e conversar, e tenho um temperamento em geral tranquilo, mesmo nas situações mais adversas. As pessoas confundem isso com frieza, mas não é. Choro até com propaganda de tevê. Mas costumo ser focado e dificilmente perco a cabeça. Meu corpo, no entanto, às vezes reage. É uma coisa neuromuscular, incontrolável. Na saída daquela audiência, quando entrei no carro com o secretário Marcos Cruz, essa reação corporal foi muito forte. Ele estranhou, achou que o contratempo na reunião não era para tanto. O que eu sentia ali era algo que já havia experimentado algumas outras vezes na vida: mais do que um mal-estar ou uma simples angústia, era uma espécie de intuição, a sensação nítida de que algo muito sério estava se passando, de que havia um risco real e iminente".

Haddad narra neste trecho inicial do seu artigo as dificuldades de negociação entre a prefeitura, quebrada em dívidas, e o governo federal. O ex-prefeito enfrentava pressão popular das ruas para barrar aumento das tarifas de transporte público e dependia de Dilma para que o aumento não afetasse os mais pobres. Fernando Haddad queria reatar os laços de São Paulo, mergulhado em políticas tucanas, com o Partido dos Trabalhadores, assunto que ele tratou com Lula. A falta de comunicação entre o prefeito e a presidente seria o prenúncio da crise política do PT, na sua visão.

2 - "A Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acertadamente, aprovou uma emenda de bancada ao orçamento, designando recursos para um programa de combate à homofobia nas escolas. O Ministério Público questionou o MEC sobre a liberação da emenda. Só então o MEC entrou na história, solicitando a produção do material a uma ONG especializada. No exato momento em que o material foi entregue para avaliação, eclodiu a crise do 'kit gay'. Desde o início, quem lia as notícias imaginava que aquela era uma iniciativa do Executivo, quando na verdade a demanda havia sido do MP e do Legislativo. Também se sugeriu que o material estivesse pronto e já distribuído, quando sequer havia sido examinado. Expliquei tudo à imprensa e às bancadas evangélica e católica do Congresso, e o mal-entendido parecia desfeito. Despreocupado, viajei no dia 25 de maio a Fortaleza para receber o título de Cidadão Cearense. Então, durante a minha ausência de Brasília, um material de outro ministério, o da Saúde, foi apresentado como sendo o tal “kit gay” do MEC para as escolas. Esse outro material se destinava à prevenção de DST/Aids e tinha como público-alvo caminhoneiros e profissionais do sexo nas estradas de rodagem – com uma linguagem, portanto, direta e escancarada. O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) exibiu em plenário a campanha do Ministério da Saúde dizendo que eu havia mentido no dia anterior e que as escolas de Campos dos Goytacazes, onde a mulher dele, Rosinha Garotinho, era prefeita, já dispunham de exemplares para distribuir aos estudantes. Aquilo virou um caldeirão. Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete da Presidência, me telefonou alarmado. Eu disse: 'Gilberto, pare dois segundos para pensar e se acalme. Isso não existe. O material para as escolas ainda está na minha mesa, não há chance de ele ter sido distribuído'".

O ex-prefeito desfaz confusões a respeito do suposto "kit gay" que teria sido distribuído na época em que era ministro da Educação do governo Lula. Haddad diz que a mentira teria sido difundida pelo jornal Folha de S.Paulo.

3 - "Em um artigo recente para a revista nova-iorquina Dissent, a filósofa norte-americana Nancy Fraser discutiu a eleição de Donald Trump e o que chamou de 'derrota do neoliberalismo progressista'. No texto, Fraser mostra como se constituiu nos Estados Unidos a disputa entre duas modalidades de direita: o neoliberalismo progressista dos governos Clinton e Obama e o protofascismo de Trump, com seu discurso protecionista na economia e seu conservadorismo regressivo em relação aos costumes e direitos civis. Pode-se discutir se é correto enquadrar Obama no campo neoliberal, mas o que importa preservar do argumento da autora, nesse embate, é que a grande vantagem do neoliberalismo americano, que era o diálogo com as minorias – LGBT, mulheres, negros e imigrantes –, se perdeu. O que vimos no Brasil dos últimos anos foi algo um pouco diferente: essas duas modalidades de direita em boa medida se fundiram, de modo que mesmo nossa direita neoliberal passou a cultivar a intolerância. A vitória socioeconômica do projeto do PT até 2013 foi tão acachapante – crescimento com distribuição de renda e ampliação de serviços públicos – que sobrou muito pouco para a versão civilizada da direita tucana. Ela não podia mais se dar ao luxo de ser neoliberal e progressista. Para enfrentar a nova realidade, os tucanos passaram a incorporar a seu discurso elementos do pior conservadorismo. Temas regressivos foram insuflados no debate nacional. A campanha de José Serra à Presidência em 2010 foi um momento importante dessa inflexão tucana. Embora talvez fosse o desejo íntimo de alguém como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o PSDB não conseguiu se transformar na versão brasileira da agenda democrata norte-americana. Pelo contrário, ao radicalizar o discurso conservador, o partido revolveu o campo político de onde floresceu a extrema direita no Brasil. Quem abriu a caixa de Pandora de onde saiu o presidenciável Jair Bolsonaro foi o tucanato. Embora essa agenda pudesse vir à tona em algum momento, foram os tucanos que a legitimaram. Um equívoco histórico. Quando, pela mudança de conjuntura, se tenta abdicar desse ideário, isso já não é mais possível, pois logo aparece alguém para ocupar o espaço criado. Foi exatamente o que aconteceu: a extrema direita desgarrou e agora quer tudo – a agenda tucana e muito mais".

Trecho interessantíssimo do artigo, nele Haddad elenca como o PSDB queria se tornar uma versão tupiniquim do Partido Democrata norte-americano e se tornou uma versão caricata dos republicanos. Para o ex-prefeito, foi FHC e os tucanos que abriram espaço político para figuras públicas pró-fascismo e ditadura militar como Jair Bolsonaro.

4 - "Um dos problemas do jornalismo no Brasil é a falta de regulação do mercado. Os meios de comunicação por aqui funcionam, do ponto de vista econômico, como oligopólio; e funcionam como monopólio do ponto de vista político. Chegaram a ponto de tentar tirar do ar, por via judicial, os portais de informação estrangeiros em língua portuguesa – como BBC Brasil, El País Brasil ou The Intercept Brasil –, invocando o artigo 222 da Constituição, que reserva aos brasileiros natos a propriedade de empresas jornalísticas. Os grandes grupos de comunicação são geridos por famílias que pensam da mesma forma e têm a mesma agenda para o país, com variações mínimas. Em momentos cruciais de nossa história, como em 1964 e 2016, atuam em bloco. Talvez a prova mais consistente de que esse oligopólio econômico funciona como monopólio político-ideológico seja o fato de que, à propriedade cruzada dos meios de comunicação, corresponde uma espécie de emprego cruzado no mundo do trabalho. Ou seja, os principais jornalistas do país, sobretudo aqueles que cumprem o papel de alter ego dos empregadores, podem estar – e rigorosamente estão – em qualquer lugar a qualquer tempo. Não se pode escapar da sua voz, imagem e comentários onipresentes".

Fernando Haddad então dá nome aos bois no debate público da imprensa e mostra como colunistas como Eliane Cantanhêde e outros representam grupos familiares que querem manter a hegemonia na mídia a todo custo. E isso se dá por propriedade cruzada, algo que é proibido em mercados como o norte-americano. No Brasil, donos de televisão são líderes de audiência na internet, nas revistas, nos jornais e até nas rádios. Formam, desta forma, oligopólios - e no caso da televisão aberta há o monopólio da Rede Globo.

5 - "Claro que há limites para o poder desse monopólio político-ideológico. Num ambiente de relativa liberdade, os indivíduos trocam impressões, questionam, firmam contrapontos. Até as Organizações Globo, com todo o seu poderio, têm dificuldades em derrotar uma boa ideia. O Programa Bolsa Família, por exemplo, existe, apesar da Globo. Tentou-se por todos os caminhos deslegitimá-lo, desconstruí-lo, mas essa iniciativa de caráter eminentemente liberal é hoje recomendada a outros países do mundo pelo Banco Mundial".

Neste ponto ele limita a ação dos grupos de comunicação contra o PT, mostrando que determinadas políticas dos governos Lula e Dilma sobreviveram apesar dos ataques.

6 - "O que se percebe muito rapidamente é que a esfera pública está contida na mídia em vez de envolvê-la. O Brasil tem pouco mais de cinquenta cidades com mais de 400 mil habitantes, número que corresponde, na média, ao de moradores de cada uma das 32 subprefeituras da cidade. Numa escala tão grande como essa, um político não consegue ser avaliado pela forma como se apresenta, mas pela forma como é apresentado. Isso confere à mídia um poder enorme: ela tanto pode impedir que boas iniciativas se colem à imagem de um gestor, condenando-o à invisibilidade, como obrigá-lo a compartilhar responsabilidades que recaem sobre outra esfera de governo, superexpondo-o indevidamente. Não bastassem os problemas estruturais de relacionamento da grande imprensa com qualquer governante de centro-esquerda, eu ainda tive problemas conjunturais com a segunda divisão dos meios de comunicação. Na minha percepção, foram muito mais danosos à imagem do governo do que os episódios até aqui narrados, porque impactaram diretamente a periferia da cidade. Nesses casos, a política transbordou para o pessoal".

Haddad segue na crítica de imprensa e coloca o papel do político como um "produto de marketing" na propagação de informação e não como um fazedor público. Ele colecionou 413 editoriais negativos do Estadão, problemas com o apresentador Datena na Bandeirantes (que depois tentou a prefeitura e desistiu), além de baixarias na Jovem Pan com Marco Antonio Villa.

7 - "O Brasil é um país fortemente estratificado: a desigualdade sempre foi a marca da nossa sociedade. Somos um misto de sociedade de 'castas' com meritocracia. O indivíduo pode, por esforço e talento próprios, mudar de casta sem reencarnar – mas a posição relativa das 'castas' há de ser mantida. Durante o governo Lula essa estrutura começou a se alterar e, aparentemente, gerou grande mal-estar: os ricos estavam se tornando mais ricos e os pobres, menos pobres. Por seu turno, as camadas médias tradicionais olhavam para a frente e viam os ricos se distanciarem; olhavam para trás e viam os pobres se aproximarem. Sua posição relativa se alterou desfavoravelmente. Se os rendimentos dessas camadas médias não perderam poder de compra medido em bens materiais, perderam-no quando medido em serviços".

Fernando Haddad então estuda como os protestos de 2013 surgiram através de um descontentamento das classes médias diante de mudanças sociais num país desigual per se.

8 - "Eis que entra em cena o 'comando da polícia', uma entidade desde sempre mais preocupada com a ordem pública do que com a segurança pública, mais preocupada com os deveres do cidadão do que com seus direitos. Na ocasião, a administração municipal se desgastava com a cúpula da Polícia Militar em função da readequação das regras de remuneração da chamada Operação Delegada, programa criado por Kassab mediante o qual o município repassava mais de 100 milhões de reais para a corporação por serviços de combate aos ambulantes ilegais. Atrito, aliás, que já havia se manifestado na primeira Virada Cultural sob nossa administração, quando arrastões aconteceram diante de olhos displicentes de alguns policiais, segundo diversos relatos da época. E se agravaria com o boicote explícito ao programa De Braços Abertos, com a transferência dos excelentes policiais militares que inibiam a ação do tráfico na região da Cracolândia. Em 13 de junho de 2013, a foto de um policial com o rosto coberto de sangue estampou a capa dos jornais. Ele havia sido agredido pelos manifestantes. Naquele dia eu voltava de uma viagem de trabalho com o governador Geraldo Alckmin e, até aquele momento, a situação nem de longe parecia fora de controle. Aquela foto, entretanto, me impeliu a dar um telefonema ao secretário de Segurança Pública do estado: era imprescindível um esforço para que não houvesse um revide da polícia. Mas ele veio. E então o país explodiu".

Haddad então dá nome e sobrenome do culpado por 2013: A PM de Alckmin.

9 - "A crise que se instalou depois da reeleição de Dilma faria o pesadelo de 2013 parecer um sonho erótico. No final de 2013, num encontro com o presidente Lula, com a discrição que o caso requeria, perguntei se ele, passados três anos desde que tinha deixado a Presidência, conseguiria projetar a situação do país dali a cinco anos. Ele me perguntou por que cinco anos. E eu lhe disse que esse era o tempo que ainda restaria a Dilma para governar o país no caso, que me parecia muito provável, de sua reeleição. Ele me respondeu com o corpo: cotovelos colados à cintura, palmas viradas para cima e uma expressão facial que indicava 'Não sei' ou, talvez, 'Quem é que sabe?'. Poucos meses depois, cruzei com João Roberto Marinho descendo as escadas do Instituto Lula. Cumprimentei-o e segui para o encontro com o presidente. Perguntei a ele o motivo daquela visita. Era uma sondagem para que Lula fosse o candidato à Presidência em 2014, no lugar de Dilma. Mais explícito foi o movimento feito por Marta Suplicy, que chegou a organizar um jantar de 'Volta, Lula'. O ex-presidente nunca mexeu um dedo, muito pelo contrário, nem por um terceiro mandato, nem pelo 'Volta, Lula'. Dilma quis ser e foi candidata à reeleição e venceu o pleito como previsto. E, a não ser pelos dois ou três dias que antecederam a eleição, quando mídia e redes sociais ferviam com denúncias e boatos de toda ordem, e fac-símiles de uma capa da revista Veja distribuídos por toda a periferia da cidade, não imaginei que a vitória pudesse estar em risco".

O ex-prefeito então diz que a Rede Globo, ao contrário do que se convenciona, queria que Lula fosse candidato a presidente em 2014, no lugar de Dilma. A reeleição dela, baseada num plano econômico que desagradou as elites e os rentistas, provocaria o PSDB a organizar o golpe com o PMDB de Michel Temer.

10 - "O que me surpreendeu foi a pós-eleição. As principais lideranças do PSDB se dividiram: Aécio começou a trabalhar por novas eleições; Serra, pelo impeachment; e Alckmin, grande vencedor do pleito de 2014, pela normalidade institucional até 2018, cenário que mais lhe favorecia. O movimento mais visível foi o de Aécio. Pediu recontagem dos votos, ação pela cassação da chapa Dilma–Temer por abuso de poder econômico, mobilizou todos os argumentos para que o resultado das urnas não fosse aceito. A tensão aumentava a cada dia. Convidei FHC para um almoço na prefeitura. Dias depois, fomos juntos ao Theatro Municipal. Queria entender melhor o que ele pensava. Concordamos sobre a gravidade da crise. Mas meu diagnóstico sobre seu desenrolar se mostrou totalmente errado. A certa altura do almoço, arrisquei: 'Ela não governa, mas vocês não a derrubam'. A unidade do PSDB a favor do impeachment foi construída com a participação de FHC. Alckmin, o último que resistia à ideia, finalmente foi enquadrado e a tese de Serra saiu vitoriosa".

Haddad encerra o texto dando o real autor da unificação do golpe em torno de Dilma Rousseff: Fernando Henrique Cardoso. Serra, derrotado em eleições, queria o impedimento e o PSDB no poder a todo custo. Aécio queria novas eleições. Alckmin, fenômeno eleitoral no governo do estado, preferia aguardar até 2018. FHC serviu como catalizador para patrocinar a loucura de derrubar uma presidente sem crime legítimo.

É, de fato, um denso e ácido texto este de Fernando Haddad.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.