Coluna do Pedro Zambarda
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Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

Nesta sexta-feira (20), o magnata Donald Trump assume como 45º presidente dos Estados Unidos. Para além do triunfo do Partido Republicano e discursos sobre a tal "pós-verdade", o duelo de verdade se dará na mídia, que definirá o futuro do maior império dos séculos 20 e 21 até o momento.

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O dicionário Oxford definiu o termo "pós-verdade" como palavra do ano de 2016 em novembro do ano passado. A expressão está diretamente relacionada com a vitória de Donald Trump em cima de Hillary Clinton na corrida pela presidência na Casa Branca. E a vitória do candidato republicano rejeitado pelo partido aconteceu quando todas as pesquisas de intenção de voto apontavam vitória com folga da herdeira política do ex-presidente Bill Clinton.

A eleição de Trump foi a eleição do Facebook, das redes sociais e dos memes. O BuzzFeed News analisou 40 notícias sobre as eleições norte-americanas em três meses e constatou que as falsas tem mais alcance do que análises verdadeiras de veículos reconhecidos, como o New York Times. No Brasil, uma estatística similar pode ser vista nas eleições de Dilma versus Aécio, além da crise política que desembocou no impeachment da presidente.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

As mentiras favoreceram Donald Trump diretamente. Obama "foi o pior presidente da história". Obama "tem ligação com grupos islâmicos". E muitas outras. No entanto, no mar de falsidades e factoides fabricados pela Fox News, emissora abertamente de extrema-direita e favorável a Trump, uma informação real pegou: Os emails que mostravam que a candidata Hillary Clinton teria manipulado dados sigilosos enquanto era Secretária de Estado. Foi objeto de denúncias do WikiLeaks, site de Julian Assange, de uma investigação do FBI e do noticiário do próprio New York Times.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

Suspeita-se que Assange teria vazado as informações a pedido de Vladimir Putin, chefe de Estado russo suspeito de ter interferido nos resultados eleitorais. Agora, com Trump prestes a assumir como presidente na Casa Branca, o BuzzFeed, favorável a Hillary nas eleições, vazou um documento sem crédito que acusa o republicano de ter feito "golden shower" (feito xixi) num hotel em que Obama se hospedou. A gravação da baixaria feita com garotas de programa na cama em que o ex-presidente e a primeira dama dormiram estaria em mãos de Putin.

Com tantas conspirações e ataques por diferentes lados, Donald Trump não respondeu perguntas da rede de TV CNN, uma das que propagou a história do BuzzFeed. Alegou que a rede era de "notícias mentirosas" e que era "terrível".

Trump está certo em criticar uma imprensa que se posiciona politicamente como oposição a ele, especialmente quando ela não tem como provar as acusações que faz.

No outro sentido, a mídia norte-americana mainstream, favorável a Barack Obama, também está no direito dela em 'atacar' Donald Trump.

Quem ataca indiscriminadamente Barack Obama ou Hillary Clinton esquece com uma frequência preocupante que as guerras do Afeganistão e do Iraque aconteceram graças a dois mandatos do republicano George W. Bush. Na época, a mídia em peso deu prestígio ao presidente para cometer os piores atentados aos direitos humanos no Oriente Médio em troca de uma suposta perseguição a Osama Bin Laden. O resultado das políticas da era Bush, que não afrouxaram o quanto deveriam com Obama, foi justamente a criação do Estado Islâmico (ISIS), a disseminação de tropas mercenárias na região (Blackwater), a destruição de civis no Afeganistão e no Iraque, além da crise síria e turca que não termina graças ao embate com os interesses petrolíferos e políticos da Rússia na região. A mídia mainstream americana, embora seja tradicionalmente governista, mudou de posicionamento ao entender, pelo menos em parte, que aquelas guerras não deveriam ter ocorrido naquela região e daquela forma. E o terrorismo islâmico tornou-se justificativa para episódios de terrorismo provocados pelos próprios norte-americanos.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

O surgimento do Huffington Post em 2005, que depois daria origem ao BuzzFeed, foi uma reação da oposição democrata ao stablishment que permaneceu republicano na gestão Obama.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

E neste contexto, surge Donald Trump como um aventureiro viável eleitoralmente. Depois de perder disputas com moderados como John McCain e Mitt Romney, o Great Old Party (GOP, ou Partido Republicano) se ergueu com um empresário bilionário que se sustenta em discursos xenofóbicos e reacionários. É praticamente todo um retrocesso de um debate que estava sendo vencido contra a herança Bush.

É como se, ao invés de dar ouvidos à Al Jazeera que foi um dos veículos a fazer a melhor cobertura dos casos do Oriente Médio, os Estados Unidos dessem a voz da razão novamente à Fox News.

Por este motivo, o campo de batalha das narrativas e da política em si será travado no "Quarto Poder" americano: A mídia. 

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

Trump está certo em cobrar a imprensa para que falem a verdade, não importa quem seja o assunto em voga. E a imprensa tem seus motivos políticos para confrontar um novo presidente que foi eleito a partir de mentiras que existem desde 2001, quando as Torres Gêmeas foram derrubadas em Nova York.

ONG diz que 8 homens têm a riqueza dos mais pobres. Olhe a África para entender

Um estudo da Oxfam mostra que a desigualdade social entre "super-ricos" e pobres pode ser maior do que pensamos. Para além da pesquisa, Thomas Piketty é mais atual do que nunca. Um estudo mais antigo, também.

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São oito homens. Na sua maioria, são brancos e empresários ligados aos ramos de tecnologia, mercado financeiro, telecomunicações, internet e varejo. Eles são Bill Gates, da Microsoft; Amancio Ortega, da Inditex; Warren Buffett, maior acionista da Berkshire Hathaway; Carlos Slim, proprietário do Grupo Carso; Jeff Bezos, da Amazon; Mark Zuckerberg, do Facebook; Larry Ellison, da Oracle; e Michael Bloomberg, da agência de informação de economia e finanças Bloomberg. Eles foram alvo de uma pesquisa do Comitê de Oxford de Combate à Fome (Oxfam) na realização do Fórum Econômico Mundial de Davos neste começo de 2017.

O documento circulou no noticiário da imprensa mundial e trouxe o título "Uma economia para os 99%", continuando as críticas que ganharam força na crise norte-americana que persiste desde 2008. No comunicado oficial da diretora-executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima, ela afirmou que “quando uma em cada dez pessoas no mundo sobrevive com menos de US$ 2 por dia, a imensa riqueza que acumulam apenas alguns poucos é obscena”. Oito bilionários, portanto, ganham a mesma coisa do que 3,6 bilhões de pessoas em situação de absoluta miséria.

Há mais dados no relatório. Entre 1988 e 2011, a renda dos 10% mais pobres da população mundial aumentou em média US$ 3 por ano, enquanto a do 1% mais rico cresceu 182 vezes mais, a um ritmo de US$ 11800 mil/ano. Ao invés de se chocar com estes dados, ou taxá-los de "estudo comunista", vale conhecer o trabalho do professor francês Thomas Piketty, que alcançou status pop mundial com o livro "O Capital do Século XXI" a partir de 2013.

ONG diz que 8 homens têm a riqueza dos mais pobres. Olhe a África para entender

Piketty analisou o gráfico de concentração de renda em 200 anos. Apesar de homenagear "O Capital" de Karl Marx, as semelhanças morrem no título. O livro na verdade estabelece patamares gráficos de risco social com o aumento progressivo da desigualdade social e econômica. Desde o período pós-Segunda Guerra Mundial, os riscos não estiveram tão grandes quanto neste período entre 2014 e 2017. As consequências das disparidades, segundo Thomas Piketty, é justamente a crise da União Europeia, a Primavera Árabe, as crises envolvendo Estados Unidos e Rússia, além dos conflitos que hoje existem no Brasil.

Entrevistei Piketty no final de 2014. Ele disse claramente que entendia quais eram os motivos para que eleitores pobres tenham votado em Dilma ou Lula e no PT: Redução da desigualdade social. E por que a Petrobras está em crise? Por que o impeachment de Dilma Rousseff ocorreu? Trata-se de uma mobilização da chamada plutocracia: Os super-ricos que têm influência política, entre os quais os oito da pesquisa da Oxfam.

O golpe contra Dilma se desenha neste ambiente de crise econômica e ampliação de desigualdades.

Thomas Piketty escreve também sobre as crises europeias e é insuspeito de ser um militante de esquerda. É tão crítico com a direita quanto é pela esquerda opressora de Nicolás Maduro ou Hugo Chávez. Os prejuízos aos trabalhadores comuns estão no centro de seu estudo.

O segundo levantamento que endossa os estudos da Oxfam sobre os super-ricos é da pesquisadora americana Nancy Hafkin, que foi mostrada no Brasil em 2014. O trabalho chama-se Women in Global Science & Technology (WISAT) e envolve as mulheres e as denúncias de violência em eleições de 2007 no Quênia, na África.

ONG diz que 8 homens têm a riqueza dos mais pobres. Olhe a África para entender

No levantamento da professora doutora, as regiões africanas com mais isolamento feminino levam a menos inclusão digital. Na mesma pesquisa, nos locais onde o machismo predomina a desigualdade social é maior, uma vez que o poder econômico das mulheres é muito reduzido.

A pesquisa de Nancy casa com um dado importante da Oxfam: Segundo o levantamento, as mulheres sofrem maiores níveis de discriminação no trabalho e assumem a maior parte das funções não remuneradas. No ritmo atual, a humanidade ainda levará 170 anos para se conseguir a igualdade salarial entre homens e mulheres com a situação social e econômica que se aprofunda diretamente na crise.

Portanto, antes de defender Bill Gates e acreditar que a desigualdade social o tornará menos rico, olhe para a África. Observe as mulheres.

A resposta está aí.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.