Coluna do Pedro Zambarda
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"É racional parar de dialogar" com o fascismo

Em sua segunda coluna sobre o assunto, o filósofo Vladimir Safatle dá um enlace final no assunto que envolve a candidatura de Jair Bolsonaro.

"É racional parar de dialogar" com o fascismo
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Safatle dedicou duas colunas, uma no dia 3 de março e outra no dia 10, para abordar a candidatura de Jair Bolsonaro. Na primeira, sentenciou que diante da amplitude dos pensamentos fascistas, é necessário o combate "sem trégua". Na segunda coluna, ele traz a conclusão de seu pensamento.

"Uma sociedade cujas instituições e práticas são racionais seria necessariamente capaz de regular seus conflitos a partir da capacidade de exigir dos sujeitos a explicitação de suas razões para agir e a avaliação de tais ações a partir da procura do melhor argumento. Ou seja, a razão nos permitiria orientar nossas ações a partir do consenso possível produzido pela procura do melhor argumento", diz o pensador de esquerda.

É nesta lógica social que Vladimir Safatle encontra a maior contradição do pensamento designado como fascista de Bolsonaro, que engloba racismo, homofobia e (talvez) xenofobia. É um nacionalismo fora de história e de contexto.

"O filósofo francês Jacques Derrida lembrava, com propriedade, que não há nada mais violento do que dizer: 'posso ouvir suas considerações, posso levar em conta o que você tem a dizer, mas desde que você fale a minha língua'. Esta 'minha língua' não é exatamente a língua que falo agora, mas algo mais determinante, a saber, o conjunto de valores, a gramática que organiza minha sintaxe, a compreensão do que é um enunciado válido ou não. Para dialogar é necessário pressupor uma gramática comum. Mais do que isto. É necessário pressupor que todos os conflitos e todas as posições conflitantes farão sempre referência à mesma gramática comum".

O pensamento de Safatle, recorrendo ao pensador Derrida, à filosofia francesa contemporânea e aos seus referenciais na psicanálise, vai de congruência a uma declaração que ele deu ao Diário do Centro do Mundo em 2016, durante o impeachment de Dilma. "Nós não vivemos no mesmo país", afirmou o filósofo em referência aos manifestantes de verde e amarelo na Paulista, berrando seu antipetismo. Há, portanto, um problema de inconsistência gramatical numa tentativa de comunicação. 

"Nossas sociedades não são só momentaneamente antagônicas. Não estamos simplesmente divididos e voltaremos a nos unir assim que as paixões se arrefecerem. Nossas sociedades são estruturalmente antagônicas e a divisão é sua verdade. Pois julgamos a partir da adesão a formas de vida e o que nos distingue são formas diferente de vida. Não queremos as mesmas coisas, não temos as mesmas histórias. Neste ponto, há os que dirão que esta é a maior prova de que precisamos de sociedades baseadas no respeito a diferença. Sendo sociedades antagônicas, devemos neutralizar os combates e construir uma forma de convivência entre as diferenças. Mas o que fazer quando temos aqueles que defendem a tortura, que exaltam ditaduras militares (e, por favor, que não venha pela enésima vez dizer: 'mas, e Cuba?'. Há muitos de esquerda que não compactuam com regimes degenerados como o cubano) ou que naturalizam a espoliação social das mulheres? Há de se respeitar esta 'diferença'? Mas você realmente acredita que podemos resolver tais diferenças por meio do diálogo? Neste ponto, seria importante lembrar que nem todos os modos de circulação da linguagem se resumem ao diálogo e à comunicação. A palavra que circula na experiência estética do poema, na experiência analítica da clínica e mesmo nas conversões de toda ordem não argumenta nem comunica. Ela instaura, ela mobiliza novos afetos e desativa antigos, ela reconstrói identificações, em suma, ela persuade com uma persuasão que não se resume a explicitação de argumentos, e isto vale também para os verdadeiros embates políticos. O que nos falta não é diálogo, mas encontrar a palavra nesta sua força instauradora".

A partir deste ponto do texto, Vladimir Safatle volta ao ponto inicial do primeiro texto: É necessário destruir os "afetos" do fascismo na sociedade. O louvor a uma ditadura militar é um traço da cultura brasileira que precisa ser enfrentado para que os valores democráticos realmente prevaleçam.

É racional parar de dialogar com o fascismo, seguindo a lógica safatliana.

Vladimir Safatle e o "combate sem trégua" ao fascismo BR

Um dos colunistas da esquerda mais eloquentes e sensatos da imprensa brasileira, com proximidade óbvia com o PSOL, Safatle atacou o candidato Jair Bolsonaro. Mas há uma lógica coerente em sua coluna afiada na Folha de S.Paulo.

Vladimir Safatle e o "combate sem trégua" ao fascismo BR
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Tive aulas por três semestres com o professor de filosofia Vladimir Safatle na USP. Estudei música, filosofia contemporânea francesa (Deluze) e Theodor Adorno. Posso dizer que suas aulas foram fundamentais na minha formação, considerando a originalidade do pensamento e a ideia de se estudar o todo e não apenas o fragmento do conhecimento.

Safatle sempre foi um crítico contumaz da política "conciliatória" do PT: Um misto de roubalheira do PMDB e acordos com a elite brasileira que permitiram quase quatro mandatos seguidos no governo federal. Adepto de uma esquerda globalista e sintonizada com os protestos contra Wall Street desde 2008 nos Estados Unidos, o professor sempre alertou para os perigos da radicalização da direita no Brasil.

Na sua coluna da Folha de S.Paulo publicada no dia 3 de março, Vladimir Safatle faz um ataque direto a Jair Bolsonaro, o principal beneficiado da pesquisa de intenção de voto para 2018 da CNT/MDA junto com Lula.

O filósofo diz:

"Uma leitura mais detalhada da pesquisa revela fatos ainda mais surpreendentes. Bolsonaro é o candidato mais votado dentre aqueles que possuem ensino superior (20,7%) e aparece empatado com Lula na escolha dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5%)".

O argumento contradiz a espinha dorsal de colunistas como Reinaldo Azevedo e da chamada "direita liberal", mais de centro. Jair Bolsonaro não parece ser um fenômeno de direita populista, ligada aos mais pobres e menos escolarizados. Pelo contrário, o candidato parece próximo de estudantes, jovens adultos e cidadãos brasileiros escolarizados.

Safatle então relembra o significado clássico do fascismo, que veio do nacionalismo italiano se baseando na xenofobia exagerada e no belicismo. Bolsonaro é um dos poucos deputados na ativa que defende a ditadura militar, saudou um torturador no impeachment de Dilma Rousseff. Ele seria, portanto, um representante desta linha de pensamento totalitária de direita e, portanto, defensora dos valores do capitalismo convencional.

"Já há algum tempo, o termo fascista é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político. No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais", completa.

Vladimir Safatle ainda arremata concluindo que Bolsonaro é um exemplar do "culto à violência sistemática do Estado" e o conecta diretamente aos manifestantes verdes-amarelos que tiram selfies com a PM. "De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua".

O filósofo pede que a gente pegue em armas para combater este tipo de pensamento?

Como todo o bom pensador, a ideia não é meramente recorrer à ação direta. Mas sim dar a designação correta aos movimentos políticos em ascensão e alertar para os perigos reais deste pensamento.

A ditadura militar matou, no papel, 357 pessoas. O jornal Folha de S.Paulo, onde Safatle publica suas colunas, aumenta o número para 600. Há relatos de que, somente num hospício em Minas Gerais, 60 mil pessoas morreram.

Chile matou 40 mil pessoas. Argentina, 30 mil. Em plena Guerra Fria, naquela mentira do "capitalismo contra o comunismo".

Safatle não fala em pegar em armas. Mas parece que o fascismo de direita está de volta.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.