Coluna do Pedro Zambarda
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Eis os reais papéis de Temer e Cunha no impeachment de Dilma

A delação de Lúcio Funaro, operador de Eduardo Cunha, evidencia que a "normalidade das instituições" não foi tão regular na deposição da ex-presidente Dilma Rousseff. Ela foi divulgada progressivamente em reportagens da revista Veja.

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(Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil/Fotos Públicas)

Enquanto Antonio Palocci detona Luiz Inácio Lula da Silva diante do juiz Sérgio Moro, Lúcio Funaro traz detalhes notáveis sobre o processo subterrâneo que envolveu dois atores do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. As palavras do novo delator, que o presidente da República supostamente quis calar, podem ser mortíferas para o governo que, segundo o instituto CNT/MDA em 19 de setembro, conta com apenas 3,4% de aprovação.

Lúcio Bolonha Funaro, operador de Eduardo Cunha, decidiu falar às autoridades neste começo de setembro, numa delação que começou a ser fechada no mês passado. Aproveitou que Cunha não conseguiu entrar num acordo com o Ministério Público e decidiu ele mesmo falar o que sabe. As informações começaram a surgir parcialmente nos jornais Folha de S.Paulo e Estadão, mas ganharam força na revista Veja.

Funaro esclareceu enfim como Cunha e Michel Temer agiram nos bastidores do impeachment de Dilma Rousseff. Nas palavras do delator, os dois "confabulavam diariamente" para "tramar" a aprovação do impedimento da ex-presidente. O dado consta no roteiro do acordo de delação premiada de Lúcio Funaro, apontado pelas autoridades como operador financeiro de propinas do PMDB.

O processo ganhou força e corpo no partido de Temer, mas sem dúvida alguma contou com apoio do PSDB e da figura do candidato derrotado Aécio Neves. O tucano pediu a recontagem de votos e a cassação da chapa´vencedora das eleições de 2014. Com as duas estratégias fadadas ao fracasso, deu força e apoio a movimentos como o MBL e o Vem Pra Rua, concentrando milhões de pessoas na pauta antipetista.

Nova conta secreta de Eduardo Cunha e R$ 57 milhões

No relato que foi entregue à Procuradoria-Geral da República neste mês, Lúcio Funaro fala de uma conta de Eduardo Cunha no Banco Northern Trust Bank, em Nova York. Remessas de propina teriam sido enviadas supostamente entre 2003 e 2006.

A conta foi batizada de “Glorieta LLP” e está em nome de uma offshore da Oceania. Cunha já usou do expediente na Suíça, ocasião em que disse que era apenas "usufrutuário" do dinheiro.

Numa reportagem de Rubens Valente na Folha, Cunha teria recebido R$ 56,9 milhões depois da Lava Jato ter sido deflagrada em março de 2014. O valor corresponde ao que foi registrado em planilhas apreendidas na casa da irmã de Lúcio Funaro. 

Do valor pago durante a Lava Jato, R$ 1,3 milhão foram entregues por Funaro quando Cunha era o presidente da Câmara dos Deputados em 2015. As informações extraídas de material apreendido foram comparadas com declarações que o próprio Funaro forneceu à PF na fase de negociações para seu acordo de delação. Tais planilhas foram apreendidas por ordem do juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília. Eduardo Cunha é identificado pelo apelido de "Bob" nos papéis.

Os documentos, segundo a Polícia Federal, mostram pagamentos de Funaro para Cunha desde 2011. Até 2015 há anotações de pagamentos de R$ 89 milhões para Cunha, incluídos cerca de R$ 7 milhões pagos a outros políticos. A conta inclui R$ 30 milhões que Funaro recebeu de Joesley Batista para repassar a políticos nas eleições de 2014.

A PF afirma os pagamentos de Funaro para Cunha foram distribuídos desta forma: R$ 920 mil em seis entregas ocorridas em 2011, R$ 13,6 milhões por meio de 34 entregas em 2012, R$ 16,4 milhões em 63 entregas no ano de 2013, mais R$ 57,2 milhões no ano de 2014 e outros R$ 1,3 milhão por meio de 12 entregas no ano de 2015.

Os pagamentos iam tanto para o bolso de Cunha quanto o de aliados. Por isso, na ocasião do impeachment, era interessante para o então vice-presidente Temer manter contato com o então presidente da Câmara dos Deputados.

Nas palavras da revista Veja, a "bancada do Eduardo Cunha" era "comprada" na base da propina. O dinheiro deu benefícios milionários para pelo menos 25 deputados. Entre os citados estão Sandro Mabel, Marcelo Castro, Soraya Santos, Alexandre Santos e Sérgio Souza.

Propinas para Geddel, Eliseu Padilha e Moreira Franco

 O ex-ministro Geddel Vieira Lima, preso preventivamente e acusado de receber uma mala de R$ 51 milhões em dinheiro vivo, recebeu pelo menos R$ 1 milhão de Josef Yunes, advogado amigo do presidente Temer. O dinheiro faz parte do montante de R$ 4 milhões que foram entregues ao atual chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. A verba era parte de R$ 10 milhões ao "grupo de Michel Temer", que incluiu a campanha eleitoral municipal de Paulo Skaf, o presidente da FIESP.

Funaro também diz que, em apenas uma operação da Caixa Econômica Federal, realizada com o grupo Bertin em 2009, o ministro Moreira Franco, atual chefe da Secretaria-­Geral da Presidência, ficou com R$ 6 milhões.

Todos os políticos são do PMDB.

Temer pessoalmente envolvido

Lúcio Funaro diz que nunca conversou sobre dinheiro diretamente com o presidente Michel Temer, “pois essa interface era feita por Eduardo Cunha” segundo a revista Veja. Mas ele diz que era informado por Cunha sobre as divisões da propina. 

Funaro garante no roteiro da delação premiada que Temer “sempre soube” de todos os esquemas tocados pelo ex-deputado. “Temer participava do esquema de arrecadações de valores ilícitos dentro do PMDB. Cunha narrava as tratativas e as divisões (de propina) com Temer”, acusa. O delator cita dois repasses a Temer. Um deles, de R$ 1,5 milhão, veio do grupo Bertin. O segundo, em 2014, saiu de um acerto com a JBS. Funaro conta ter intermediado um pagamento de R$ 7 milhões da JBS que tinha como destinatários Temer, Cunha e o ministro da Agricultura na ocasião, Antônio Andrade. 

O presidente ainda teria intermediado um pagamento de R$ 5 milhões de Henrique Constantino, do Grupo Constantino, à campanha do então deputado Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo, em 2012, com Fernando Haddad na cabeça de chapa.

Os acordos então funcionaram com intermédio de Cunha antes do impeachment e depois com auxílio de Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco com Temer no governo.

A tese do golpe parlamentar ganha força

Antes de sair da PGR, Rodrigo Janot denunciou Michel Temer pela segunda vez pelos crimes de organização criminosa e obstrução de Justiça. A delação de Funaro claramente pesou na denúncia.

Se antes a tese do "golpe parlamentar" era forte somente nos círculos esquerdistas, ela pode ganhar tom real de crime para a história se as denúncias forem comprovadas e os responsáveis, punidos.

Joesley Batista, além de tentar comprar o silêncio de Funaro e Cunha, cobrou R$ 100 milhões para não contar o que sabia a ninguém. Não foi pago e decidiu denunciar em maio, segundo o delator e operador do PMDB.

Temer achou mesmo que, com Eduardo Cunha, conseguiria comprar um impeachment por milhões de empresas públicas e privadas e que isso sairia de graça? 

Lula está certo sobre Palocci: três casos de delações controversas na Lava Jato

O ex-presidente quer evidentemente diminuir os argumentos da acusação da Força-Tarefa da Operação Lava Jato. No entanto, Luiz Inácio Lula da Silva tem um ponto quando questiona a legitimidade da instituição da delação premiada.

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(Foto: Agência Brasil)

No dia 13 de setembro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou um depoimento diante do juiz Sérgio Fernando Moro. O segundo encontro dos dois aconteceu depois do depoimento de Antonio Palocci no dia 6. Naquela ocasião, Palocci disse que seu ex-chefe recebeu R$ 4 milhões em dinheiro vivo e fez um "pacto de sangue" com Emílio Odebrecht. Ao longo da semana, o ex-ministro da Fazenda afirmou ainda que o ex-presidente recebeu propinas menores, entre R$ 30 mil e R$ 50 mil.

Em Curitiba, Lula fez críticas duras e diretas ao seu ex-aliado Palocci. Chamou-o de "mentiroso, frio e calculista" e disse que ele falou o que falou sobre o ex-presidente para recuperar parte do dinheiro bloqueado por decisões judiciais de Sérgio Moro. Afirmou também que Antonio Palocci quer fazer delação premiada para reduzir parte de sua pena em primeira instância de 12 anos.

E Luiz Inácio Lula da Silva diz o seguinte, em depoimento a Moro, sobre as delações premiadas: "já disse aqui que a desgraça de quem conta a primeira mentira é passar o resto da vida mentindo para justificar a primeira mentira. E aquele Power Point feito [e divulgado por Deltan Dallagnol] chamando o PT de organização criminosa, que o Lula por ser a pessoa mais importante é o chefe e, portanto, que o governo do Lula foi feito para roubar, sabe, mereceria um processo contra quem escreveu aquilo a serviço da opinião pública".

Depois ele critica diretamente o possível delator: "o Palocci veio aqui e o senhor sabe que eu tenho uma profunda amizade com o Palocci, há mais de 30 anos. Não é uma coisa de um dia. O Palocci foi meu ministro da Fazenda e prestou um grande serviço a este país (...). Eu vi atentamente o depoimento do Palocci. Foi uma coisa quase cinematográfica, feita por um roteirista da Globo. Você vai dizer tais coisas, os leads são esses e ele foi dizendo, lendo algumas coisas (...). Nada ali é verdadeiro. A única coisa de verdadeira ali é que ele quer os benefícios da delação [premiada]".

A crítica do ex-presidente se direciona especialmente ao juiz Sérgio Moro, que popularizou as delações a partir do escândalo do Banestado, nos últimos anos do governo FHC, a partir dos depoimentos do doleiro Alberto Youssef. Diminuindo o tempo de cadeia de um criminoso confesso, o juiz de primeira instância criou um sistema muito parecido com o norte-americano para quem um dedure o outro em grandes casos de corrupção, sem haver uma investigação real da Polícia Federal para embasar os depoimentos.

Os métodos de Moro, neste aspecto, são mesmo controversos é há pelo menos três casos problemáticos dentro da Lava Jato. Você pode não concordar com Lula e nem pressupor que ele seja inocente, mas ele estava certo ao criticar o instituto da delação premiada.

Fernando Moura

Em maio de 2016, o lobista e amigo do ex-ministro José Dirceu foi o primeiro acordo de delação premiada da Lava Jato que teve a quebra oficializada pelo juiz Moro Sergio Moro. Ao depor ao juiz Moro, Fernando Moura negou que Dirceu tivesse sido responsável pela indicação de Renato Duque para o cargo de diretor de Serviços da Petrobras e também negou ter dito que o ex-ministro o orientou a deixar o Brasil durante o processo de julgamento do mensalão.

As duas afirmações constavam da delação firmada com o Ministério Público. Porém, diante da ameaça de ter sua colaboração anulada pelo recuo, Moura deu uma nova versão, e voltou a incriminar Dirceu. Ele disse que o ex-petista recebia propina de construtoras proveniente de desvios de recursos de contratos com a Petrobras.

A pressão para entregar quadros petistas fez com que o acordo fosse anulado. Moura estava em prisão domiciliar em Vinhedo e voltou a ser preso. O lobista foi condenado a 16 anos e dois meses de prisão por organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Delcídio do Amaral

Considerada uma das delações mais explosivas no final do governo Dilma, o depoimento do ex-senador petista Delcídio do Amaral ficou em xeque no mês de setembro de 2017. O Ministério Público Federal pediu que o ex-congressista perca os benefícios assegurados no acordo de colaboração premiada.

A Procuradoria da República afirma que o ex-parlamentar mentiu sobre fatos que levaram à abertura de ação penal contra sete pessoas. Se o pedido for aceito, em caso de condenação, o ex-senador poderá ter de cumprir integralmente as penas pelos crimes de obstrução à Justiça e patrocínio infiel. Ele foi preso em novembro de 2015 acusado de dificultar a delação de Nestor Cerveró.

Para o procurador e o MP, ao contrário do que afirmou Delcídio do Amaral, tanto na colaboração quanto no depoimento dado à Justiça, o silêncio de Cerveró não foi encomendado ou interessava a Lula, mas sim ao próprio senador. A procuradoria reconstitui a forma como, segundo as provas dos autos, ocorreu o fato que gerou a denúncia: o pagamento de R$ 250 mil para que Cerveró não firmasse acordo de colaboração premiada com o MPF ou que, em o fazendo, protegesse Delcídio do Amaral. A narrativa foi construída a partir das provas reunidas no processo.

Joesley Batista

Apesar da delação da JBS não ter sido cancelada, a proximidade entre o empresário Joesley Batista e o ex-procurador Marcelo Miller, que trabalhou no mesmo grupo do procurador-geral Rodrigo Janot, colocou em dúvida a denúncia contra o presidente Michel Temer. Na acusação, Joesley e diretores da J&F/JBS acusam Temer de tentar comprar o silêncio de Eduardo Cunha e de Lúcio Funaro com uma mesada de R$ 500 mil por 20 anos.

As acusações ainda não perderam validade, mas no dia 10 de setembro Joesley e o diretor Ricardo Saud foram presos preventivamente. O ex-procurador Miller também é investigado. Portanto, mesmo a delação da JBS que é repleta de gravações envolvendo diretamente e indiretamente Temer também está em xeque.

Conflito entre a possível delação de Palocci e a da Odebrecht

Preso por mais um ano, Marcelo Odebrecht entregou uma lista de políticos que se beneficiavam de propinas da empreiteira. Diretores da empresa delataram e seu pai, Emílio Alves Odebrecht, também prestou depoimento. Emílio disse que nunca tratou de valores com Lula.

No depoimento de Antonio Palocci, o ex-ministro diz que o ex-presidente fez um "pacto de sangue" com Emílio Odebrecht. Quem está mentindo? Palocci ou Emílio?

Vamos visualizar a verdade nos próximos capítulos.

Mas considerando os exemplos anteriores, a mentira já foi utilizada para tentativas de redução de pena na Justiça.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.