Coluna do Pedro Zambarda
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Invadir o Congresso funciona? Reflexões à esquerda

No passado, a ditadura militar se impôs através do fechamento do Congresso e a concentração de poder. Numa nação profundamente corrupta e denunciada via delações premiadas, a esquerda política flerta com a ideia. É o que devemos fazer?

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A Lista de Fachin, do STF, lançou acusações sobre praticamente todos os partidos políticos dentro do Congresso e do Senado. A Operação Lava Jato, embora atropele direitos de defesa de petistas e tenha a condução de um Ministério Público enviesado, segue colhendo delações premiadas. E a esquerda organizada na rua cresce a medida que o governo Michel Temer se prova insensível com pobres, aposentados e até mesmo com a classe média que não goza de privilégios financeiros em tempos de crise. Ele quer o ajuste fiscal que beneficie os ricos. Custe o que custar.

No dia 31 de março de 2017, aniversário do golpe miliar de 1964, a esquerda deu as caras numa Avenida Paulista levemente chuvosa e muito ensolarada. O arco-íris se misturou com os balões das centrais sindicais CUT e CTB, além das bandeiras dos partidos PCO, PSTU e PSOL. No centro do movimento, o líder do MTST Guilherme Boulos roubou a cena.

“Este ato faz parte de uma série que teremos nos próximos dias até a greve geral em 28 de abril. Se até lá a Reforma da Previdência for aprovada pelo governo golpista de Temer, teremos que invadir o Congresso, como outros já fizeram. Invadiremos o Congresso. Aí vai ter acabado o diálogo”.

Boulos fez uma óbvia referência à invasão promovida por militantes pró-golpe militar em novembro de 2016. Além deles, policiais civis invadiram a casa dos deputados neste mês. Fora estas pressões óbvias, policiais militares pararam por 21 dias no Espírito Santo, gerando saques e roubos, além de protestos em 2013 que chegaram perto de promoverem invasões das casas legislativas.

A esquerda se arma no discurso desta forma porque a farsa da direita caiu. A queda de Dilma Rousseff não foi contra a corrupção, mas foi apenas para blindar os homens do governo Michel Temer e seus aliados, incluindo políticos do PSDB como José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves.

A CUT, o MST, o MTST e as centrais sindicais podem não defender abertamente o fechamento do Congresso, como fizeram os militaristas no passado, mas querem uma radicalização da mobilização na greve geral, que promete parar o país no dia 28 de abril. E não estão errados nisso. Invadir o Congresso pode ser sim controverso e antidemocrático per se, mas faz sentido quando uma classe política se desenha para apenas defender os interesses econômicos dos ricos.

A radicalização se faz necessária. A questão que sempre se põe nestes momentos, no entanto, é uma só: Quem vai pagar o ônus das prisões e das agressões que virão disso?

A esquerda deve fazer esta reflexão quando radicaliza seus posicionamentos.

Mas, sim, o assalto dos ricos contra os pobres e o fascismo diminuem as vias do diálogo pacífico e pouco engajado. A persuasão e a dureza dos discursos devem ser mais fortes neste momento de crise do governo Temer. Porque é desta radicalização que é possível produzir uma politização mais humana daqueles que estão perdidos no debate ideológico.

Um afrouxamento a esta altura do campeonato, com a crise econômica se prolongando graças a medidas pouco efetivas do novo governo, é a entrega do atestado de derrota nas lutas políticas. Mas toda a radicalização deve pressupor uma reflexão madura.

Rafael Braga condenado: O que esta injustiça representa?

Preso nos protestos de 2013, o ex-morador de rua prova que preto e pobre é quem realmente sofre com a repressão do Estado. Não é nem a classe média, que às vezes toma umas borrachadas, e nem os ricos, que são intocáveis.

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O ex-catador de latas Rafael Vieira Braga foi condenado a 11 anos e três meses de prisão com multa de R$ 1687 por porte de droga e associação ao tráfico de drogas, informe o site Ponte Jornalismo no dia 21 de abril, feriado de Tiradentes. Braga foi preso em 2013 por "porte de artefato explosivo", quando a perícia constatou que ele apenas tinha Pinho Sol, produto de limpeza. A sentença foi dada pelo juiz Ricardo Coronha Ribeiro.

A sentença completa está aqui, executada pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ). Rafael foi posto em liberdade pela primeira vez no final de 2015 e foi preso novamente em 12 de janeiro de 2016. Na época, ele estava com tornozeleira eletrônica.

Rafael Braga afirmou em audiência que policiais militares do Rio o forçaram a cheirar cocaína com o intuito de incriminá-lo. Os PMs caíram em contradição nos depoimentos, mas isso não impediu a condenação expedida pelo juiz Ribeiro.

A polícia e a Justiça não embasaram suas investigações e trazem uma presunção de culpa com o cidadão pobre e negro, sobretudo em zonas urbanas marginalizadas como é o subúrbio do Rio de Janeiro, corroído pelo tráfico de drogas e pelo crime organizado. Para dar números e "mostrar serviço", o Estado forja crimes para encarcerar mais pessoas.

O caso de Braga, no entanto, rompeu a barreira do noticiário policialesco para entrar no coração da cobertura política nacional. Ele foi preso no embrião dos maiores protestos nacionais contra deputados, senadores, prefeitos, governadores e a própria ex-presidente Dilma Rousseff. O ódio policial e o preconceito com negros ainda assim se manifestou num caso desta repercussão.

E culminou nesta sentença injusta e que expõe a pornografia do sistema político-judicial brasileiro.

Esquerdistas de São Paulo e do Rio organizaram vigílias em nome de Rafael Braga nos dias 24 e 25 de abril. No dia 28, marcado para a greve geral conduzida sobretudo pela classe sindical, o nome de Braga estará entre as denúncias na rua.

No entanto, mesmo com tantas palavras de ordem, a mão fria e injusta de juízes continua a condenar negros e pobres.

Para o olhar do Estado, pobre tem mais é que ir preso. É pra dar o exemplo como a história de Tiradentes, aproveitando o recente feriado de 21 de abril.

Rafael Braga é vítima de um sistema profundamente injusto, que não se intimida nem com manifestações políticas legítimas que denunciam sua própria injustiça social.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.