Coluna do Pedro Zambarda
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna do Pedro Zambarda
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna do Pedro Zambarda
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Lula e a aliança vergonhosa com Renan Calheiros são espólios do PMDB rachado

O senador traiu o PT e voltou pelo impeachment de Dilma Rousseff. Agora Renan aparece dividindo palanque com Lula. O que ele pretende? E Lula? Vai voltar a fazer alianças com as velhas raposas da política, sabotando a esquerda?

Lula e a aliança vergonhosa com Renan Calheiros são espólios do PMDB rachado
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Fotos Públicas)

O PT, mesmo golpeado, parece não ter se liberado dos velhos vícios. A autocrítica se faz necessária num momento decisivo da pré-campanha presidencial. O homem que pode ser o futuro do partido pode colocar tudo a perder neste aperto de mãos. Mas existem razões para o acontecimento.

Em 22 de agosto de 2017, Lula estava em pré-campanha presidencial passando por Alagoas. O ex-presidente chegou até a cidade de barco, numa jornada registrada ao vivo em suas redes sociais, especialmente no Facebook e no Twitter. Até então estava tudo certo nas aparições públicas de Luiz Inácio Lula da Silva.

Eis que Lula sobe ao palanque com o governador do estado, Renan Filho, e seu pai, o senador Renan Calheiros do PMDB. Renan, animal antigo da política nacional, aproveitou o evento para capitalizar sua audiência com o ex-presidente.

O que aconteceu para o presidente mais popular da história brasileira recente aparecer com coronéis do nordeste?

Os espólios

Há um ditado comum no jornalismo que diz "na dúvida, siga o dinheiro". Renan Calheiros foi o homem que protegeu Fernando Collor de Mello enquanto pôde do impeachment nos anos 90, Livrou-se, em 2007, de denúncias que vieram de uma reportagem de capa da revista Veja. Na ocasião, a empreiteira Mendes Júnior pagava R$ 12 mil por mês à jornalista Mônica Veloso, sua amante, por trocas de favores. Renan foi absolvido das acusações, numa manobra que contou com a ajuda de seu padrinho político, José Sarney.

Quando Sarney saiu da presidência do Senado, no governo Dilma Rousseff, Renan assumiu seu posto e defendeu o quanto pôde a ex-presidente eleita. No processo de impeachment arquitetado por Eduardo Cunha, as pressões políticas do próprio PMDB e de Michel Temer forçaram Renan Calheiros a mudar seu voto sobre o impedimento.

O golpe parlamentar, no entanto, não foi total. Apesar de condenar Dilma sem crime de responsabilidade claro, Renan votou com o senador Randolfe Rodrigues (Rede) para manter os direitos políticos da ex-presidente.

Depois da deposição, Renan Calheiros parecia ser mais um aliado de Temer. No entanto, a ação do STF de dar seguimento às investigações da Operação Lava Jato o levou a mudar de direcionamento político. Renan chegou a recusar o pedido de afastamento da presidência do Senado pedido pelo Supremo. Simplesmente não recebeu a documentação que a Justiça queria obrigá-lo a receber.

Numa habilidade política pouco vista no cenário nacional, dobrou o Poder Judiciário e saiu da presidência do Senado sem ser cassado. Seu cargo foi ocupado por Eunício Oliveira, homem forte de Michel Temer. E, desde o episódio, Renan Calheiros virou oposição.

E virou petista desde criancinha, falando abertamente que apoia a candidatura do ex-presidente Lula, seu antigo aliado. Com a crise econômica aprofundada por um crescimento que não chega a 1% do PIB, o PMDB literalmente rachou entre Renan e Temer. Eduardo Cunha, o grande catalisador do processo, foi preso pela Lava Jato. E cada um dos congressistas teme uma judicialização generalizada.

Portanto, mais do que antigos vícios, o que interessa ao PT numa aliança com Renan Calheiros são os espólios desta disputa. Por sua vez, o que interessa em Lula para Renan é a recuperação de seu capital político depois de tantas manobras para se livrar da cadeia.

Lula declarou, em sua conta oficial no Twitter, no dia 25 de agosto: "Eu estou convencido que a aliança política continua necessária. O Renan pode ter todos defeitos, mas me ajudou a governar esse país".

O que está em jogo nesta disputa suja é uma pauta comum de sobrevivência política.

Unidos pela crítica à Lava Jato

No entanto, apesar das alianças baseadas em propinas entre PMDB e PT, há uma motivação digna nesta união mostrada em Alagoas. Com exceção das investigações feitas por Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República baseadas na delação premiada de Joesley Batista e da JBS, nenhuma outra linha de apuração da Lava Jato atinge Michel Temer.

Temer se beneficiou com as denúncias do juiz Sérgio Moro afetarem principalmente partidos como PP e PT, sem tocar em seus homens fortes, como Romero Jucá e Geddel Vieira Lima. Quando Eduardo Cunha ameaçou delatar o presidente da República em exercício, Moro não considerou suas declarações. O temor de Renan, com a blindagem de Michel Temer, é justamente todos os inimigos deste governo serem investigados.

É o que Temer fará se Raquel Dodge cumprir sua função de afundar os avanços que Rodrigo Janot fez nas investigações de seu grupo governamental.

O apoio político a Lula seria, portanto, uma aposta redobrada de que a crítica à Operação Lava Jato é o que vai prevalecer. E seria uma resposta de uma classe política unida contra os abusos do judiciário.

Corretos ou não, o ex-presidente e o senador golpista têm suas razões para trocarem abraços e apertos de mão numa aliança vergonhosa.

Sim, Lula é a melhor opção do PT agora

Ao contrário do que se pensa frequentemente, esta não é uma opinião emocional sobre o momento político do ex-presidente. Trata-se de um vácuo absoluto da vida pública que, somado à polarização, exige um candidato mais experiente.

Sim, Lula é a melhor opção do PT agora
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Fotos: Ricardo Stuckert/Lula.com.br/Divulgação)

Com um governo ilegítimo ocorrendo sob a gestão de Michel Temer, o assunto nacional são as expectativas sobre o futuro do Brasil. Num período de economia perdida e de corrupção sistêmica generalizada e exposta, todos querem saber quem será o futuro presidente. E, mais importante, o que um novo governo vai trazer a este país.

O jornalista Márcio Juliboni escreveu no Storia Brasil que o PT "erra ao insistir em Lula". Este texto é uma resposta a ele.

Sim, Lula é a melhor opção do PT agora

Luiz Inácio Lula da Silva começou sua turnê pelo nordeste brasileiro no dia 17 de agosto. O ex-presidente pretende ficar por 25 dias revisitando capitais e cidades interioranas para promover comícios e eventos online com a militância petista. Há, de fato, um "messianismo" em torno do nome de Lula. As pesquisas Datafolha, DataPoder360 e Paraná Pesquisas mostram ele com cerca de 30% das intenções de voto. Há também 40% de rejeição devido aos escândalos de corrupção do PT em 13 anos no governo federal. Mesmo assim, para a maioria dos brasileiros, o governo do petista foi o melhor no pós-ditadura militar.

Retornando ao seu berço eleitoral, o ex-presidente desce do pedestal e fala com brasileiros que foram beneficiados pelo Bolsa Família, pelo aumento do salário mínimo e as políticas que emanciparam cerca de 36 milhões de indivíduos, tirando-os da linha da miséria econômica.

A dificuldade de formar novos quadros

Sim, Lula é a melhor opção do PT agora

O ambiente político está viciado e polarizado. Após um processo de impeachment controverso envolvendo a ex-presidente Dilma Rousseff, Temer amarga menos de 5% de aprovação com a população, segundo os institutos de pesquisa, e colocou os adversários do PT, o PSDB, na base do seu governo. A delação de Joesley Batista e da JBS colocou ele e políticos do calibre de Aécio Neves a desvios de até R$ 50 milhões relacionados com a Operação Lava Jato.

Michel Temer teria pedido que Joesley pagasse cifras milionárias para que Eduardo Cunha e seu operador, Lúcio Funaro, permanecessem em silêncio e não fechassem delação premiada mesmo presos. Funaro já fechou delação e pode furar o bloqueio montado com propinas e agrados que estão na acusação envolvendo o presidente da República

Neste contexto, Lula foi condenado em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro por favorecimento ilício no triplex do Guarujá. Tem ainda os processos do sítio de Atibaia e das palestras de seu instituto. Embora esteja tão envolvido em corrupção quanto Temer, o ex-presidente não carrega acusação em exercício de mandato e não será investigado se voltar ao comando do governo.

Sendo favorito nas pesquisas eleitorais pré-2018, aumenta a tensão se Lula irá para a cadeia ou para a cadeira da presidência.

Isso naturalmente polariza a eleição. E há um fator adicional: Michel Temer está privatizando a Eletrobras, cortando direitos trabalhistas, colocando tetos nos investimentos públicos e diminuindo programas sociais importantes como o Bolsa Família. Governa para que a Bovespa e os traders do mercado financeiro ultrapassem os 70 mil pontos. Não parece preocupado com o aumento da pobreza na maior recessão econômica criada por Dilma. Temer, portanto, governa para os ricos.

O sofrimento do pobre alimenta uma esperança praticamente "messiânica" com Lula. Mas a esperança tem um fundo de verdade. O projeto de desmonte do Estado brasileiro só encontra barreira na esquerda política nacional, que formalizou seu projeto desenvolvimentista com Luiz Inácio Lula da Silva.

Tais circunstâncias desfavorecem a criação de novos quadros. Fernando Haddad é um político promissor, mas amargou uma derrota em primeiro turno para João Doria Jr. na prefeitura de São Paulo. Ciro Gomes traz um projeto desenvolvimentista alinhado com a esquerda e carrega bom discurso, mas fez um governo autoritário no Ceará e só performa com 5% nas pesquisas. Gleisi Hoffmann, a nova presidente do PT, fez um apoio inconsequente ao regime ditatorial de Nicolás Maduro na Venezuela. Aloizio Mercadante, Jacques Wagner e outros nomes do petismo não têm qualquer apelo popular ou potencial eleitoral.

Em uma entrevista coletiva, o presidente estadual do PT em São Paulo, Luiz Marinho, disse que o partido não tem plano B. A ausência de outro nome alimenta um aspecto claro na candidatura Lula.

A crítica necessária à Lava Jato

Sim, Lula é a melhor opção do PT agora

Mesmo que você não seja fã de Lula ou do PT, qualquer pessoa deve admitir que a delação de Joesley Batista derrubou a tese mentirosa que os petistas criaram "o maior esquema de corrupção da história". A propinagem dos últimos 14 anos foi fruto, na realidade, de um consórcio no qual o PMDB de Temer atuava forte nas sombras. Um dos políticos mais fortes em articulações, Eduardo Cunha, foi cassado e preso para que outros nomes do seu partido não fossem investigados pela Força-Tarefa do Ministério Público ou pela Procuradoria-Geral da República.

Luiz Inácio Lula da Silva transformará sua campanha numa clara crítica a um sistema de apuração da corrupção baseado apenas nas chamadas delações premiadas, em que um ladrão confesso entrega outro esperando reduzir sua pena. Este sistema se transformou numa máquina de tritura da classe política, o que facilita novas corrupções de quem não foi investigado, como é o caso de Romero Jucá, Geraldo Alckmin e José Serra, citados na delação de Marcelo Odebrecht, na planilha de pagamentos e em outras denúncias que ainda não foram corretamente apuradas.

A candidatura Lula, portanto, pode ser a crítica necessária ao que está acontecendo. Se ele for eventualmente condenado em segunda instância pelo TRF4 de Porto Alegre, depois de Moro, é muito provável que algum nome forte do PSDB também caia em desgraça. A polarização esquerda e direita, portanto, circunda essa parte de efeitos nefastos da Lava Jato.

Refundação da esquerda a longo prazo

Sim, Lula é a melhor opção do PT agora

Embora seja um centralista incorrigível, Lula pertence à ideologia de centro-esquerda, conversa com as elites e não apela para teses extremistas como Jair Messias Bolsonaro, o extrema-direita. Sua candidatura pode revelar nomes que podem se fortalecer, dentro e fora do PT, para uma candidatura em 2020. Candidatos novos petistas ou esquerdistas de outras legendas não estão descartados, mas eles perderiam neste ambiente polarizado.

Sim, Lula é a melhor opção do PT agora

Além de autocrítica pelos escândalos do Mensalão e do Petrolão - o que nem o PT e nem Lula fizeram -, a esquerda precisa urgentemente se refundar e este processo pode acontecer mesmo com nomes antigos da política ainda em atuação. E, para fazer isso, ela não pode ter medo de afirmar que seu projeto político é o desenvolvimentismo, não o neoliberalismo de Temer e do PSDB.

Por isso, seu melhor nome no momento é Lula. E Lula é apenas o trampolim para que este espectro político volte a provar que é possível pensar num Brasil menos desigual.

E mais moderno, portanto.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.