Coluna do Pedro Zambarda
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Lula e FHC são os maiores políticos brasileiros vivos hoje

É chover no molhado, mas a morte de dona Marisa Letícia, esposa de Lula, e de dona Ruth Cardoso, companheira de Fernando Henrique Cardoso, evidenciam que os dois maiores políticos dos pólos opostos concentram o poder no nosso país. A foto do líder petista abraçando o tucano após a notícia do falecimento de sua cônjuge mostra que um país fraturado pelas diferenças ideológicas tem solução, mas isso não passa por uma concordância única.

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A foto registrada por Ricardo Stuckert, o Stuckinha, teve um poder imediato nas redes sociais. Poucas horas depois de anunciar a morte cerebral de sua esposa, Lula recebeu uma visita do seu maior adversário político. Retribuindo o gesto nove anos depois da morte de sua esposa, Ruth Cardoso, Fernando Henrique veio prestar condolências ao falecimento de dona Marisa Letícia Lula da Silva. Os dois se entreolharam, conversaram entre si e se abraçaram. O encontro foi a portas fechadas, restrito a assessores no Hospital Sírio-Libanês, onde Marisa estava internada após sofrer um AVC.

No perfil oficial de Lula, a imagem foi curtida 113 mil vezes e teve 17 mil compartilhamentos. Na fanpage de FHC no Facebook, foram 9 mil likes e mil shares. No site Catraca Livre, foram mais de 220 mil joinhas (!) e 65 mil compartilhamentos (!). O meu perfil pessoal teve quase 300 curtidas e 70 compartilhadas, sendo que era um texto do BuzzFeed sobre o encontro dos dois.

O fato me fez relembrar leituras que fiz sobre as histórias de Lula e Fernando Henrique, uma vez que não tenho idade para tê-los acompanhado sempre - tenho 27 anos. 

Fernando Henrique Cardoso, o "Príncipe dos Sociólogos", é filho de militar, tornou-se professor da USP (onde ainda mantém um dos maiores salários da universidade, acima de R$ 20 mil como aposentado), exilou-se na ditadura militar e voltou ao Brasil para dar o seu apoio às Diretas Já. Fundou a dissidência "social-democrata" do PMDB, o PSDB, tornou-se ministro de Itamar Franco depois do desastre chamado Fernando Collor de Mello, deu uma rasteira em Tasso Jereissati (para revolta de Ciro Gomes) e se tornou presidente da República. Promoveu as privatizações, que foram alvo de investigações por corrupção, e tentou transformar José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves em seus discípulos políticos, sem sucesso. Tem 85 anos.

Luiz Inácio Lula da Silva não nasceu em São Paulo como o príncipe. Veio de Caétes, do Pernambuco. Filho de mãe analfabeta, tornou-se metalúrgico em São Bernardo do Campo (onde conheceu Marisa). Tornou-se sindicalista, fundou o PT em 1980 e fez parte da fundação da CUT. Foi preso. Não era socialista, como Fernando Henrique Cardoso, mas trabalhista como Leonel Brizola. Criou, sem ser socialista, o maior partido de esquerda da América Latina. Perdeu eleições de maneira seguida para a presidência, enfrentando oposição do Grupo Globo e todos as empresas de grande mídia. Venceu em 2003, adotando o discurso social-democrata que o PSDB abandonou nas privatizações. Transformou o Bolsa Escola e os programas sociais de Fernando Henrique no Bolsa Família, o maior programa de transferência de renda da história do Brasil. Tirou 36 milhões de pobres da situação de fome. Teve o seu partido envolvido no escândalo de caixa dois de campanha batizado pelo desafeto Roberto Jefferson de Mensalão. Depois teve sua sucessora, Dilma Rousseff, no centro do propinoduto da empresa de capital misto Petrobras, o Petrolão. Dilma sofreu um impeachment fraudulento que Lula e seu partido chamam de golpe parlamentar. Atualmente ele enfrenta processos criminais na Lava Jato, enquanto Fernando Henrique não é acusado no mesmo esquema. Tem 71 anos.

Lula e FHC são os maiores políticos brasileiros vivos hoje

FHC sempre foi admirado por jornalistas da Editora Abril, pela revista Veja e por seu fundador, Roberto Civita. Também tinha uma relação muito próxima com Roberto Marinho da Globo. Vaidoso, mantém uma coluna no jornal O Estado de S.Paulo e escrevia no El País. Sua maneira midiática de agir foi copiada extensivamente por José Serra.

Mino Carta "inventou" Lula na imprensa, com a capa "Lula e os trabalhadores do Brasil" em fevereiro de 1978 na revista ISTOÉ. O metalúrgico então foi pioneiro em incentivar a formação da mídia de esquerda do país, mas, conciliador como é, abasteceu com bilhões os cofres da Globo e da Abril, mesmo com ataques frontais de praticamente todos os grandes grupos. 

Antes de se tornarem pólos opostos no mundo partidário, ideológico e midiático, Lula e Fernando Henrique se ajudaram de maneira próxima. Em panfletagens no ABC, o sociólogo fez campanha ao lado do metalúrgico. Não existia só uma conciliação entre ambos, mas um companheirismo autêntico.

Lula e FHC são os maiores políticos brasileiros vivos hoje

Ambos influenciados pelo socialismo e pelo trabalhismo, doutrinas tradicionais de esquerda, eles se tornaram os únicos presidentes do período democrático a ganharem eleições e reeleições. Entre os dois, somente Lula teria índices recordes de aprovação, batendo 80%. Entretanto, somente Fernando Henrique seria aceito pela imprensa ligada ao poder empresarial, que se ergueu numa batalha contra o lulismo e suas origens populares. Lula e FHC, para o bem ou o mal, representam o que é a esquerda e a direita no Brasil hoje, embora um não seja tão esquerda assim e o outro não tenha surgido como um liberal, relembra o jornalista Pedro Doria num texto recente de Facebook.

Ao DCM, o também jornalista Luis Nassif diz algo precioso: Fernando Henrique é o que chamamos de "líder intelectual", enquanto a história de Lula, por mais que tentem manchar, é algo mais próximo do "estadista", com todos os desvios de caráter que cada um possa ter. FHC é acusado de ser um vendido ao pedir para "esquecer o que escrevi", referindo-se aos seus tempos de USP, e ter abraçado o neoliberalismo. Lula, por outro lado, é acusado de ser "quadrilheiro" e "líder do maior esquema de corrupção da história", mesmo que os únicos crimes possíveis com bilhões desviados sejam um triplex no Guarujá e um sítio em Atibaia.

Corruptos ou não, idôneos ou não, Lula hoje é dono da maior oratória de rua que você pode ver num protesto. Fernando Henrique é o poder escrito. 

Lula e FHC são os maiores políticos brasileiros vivos hoje

São os dois maiores políticos brasileiros vivos.

A queda de Eike Batista e o problema da mídia que adula empresários

Como o mito Eike Batista foi vendido? Como ele caiu para a Lava Jato? Eike é do PT? É cria de Lula e de Dilma? É amigo de Aécio Neves e Luciano Huck? Quem é o bilionário que faturou em cima de especulações e como ele caiu nas garras da Lava Jato?

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Se você não conhece as capas acima, eu explico. A primeira é da revista Veja de 2008, a segunda de 2012 e a última de semana passada, em 2017. Nelas, não há apenas a defesa do empresário Eike Batista, recentemente preso na Operação Lava Jato. Há a defesa de um outro Brasil, que não chegou a existir.

A queda de Eike Batista e o problema da mídia que adula empresários

Ex-marido de Luma de Oliveira nos anos 90, Eike surgiu do tráfico de diamantes de Serra Pelada, de uma faculdade na Alemanha que não terminou e da sua paixão pelas especulações na Bovespa e em bolsas de valores ao redor do mundo. Chegou a concentrar US$ 36 bilhões no auge do seu império das empresas X. Tornou-se, segundo a revista Forbes, o sétimo homem mais rico do mundo, com capacidade de se expandir e encarar Carlos Slim ou Bill Gates.

A queda de Eike Batista e o problema da mídia que adula empresários

Foi pego na Operação Lava Jato por sua ligações ao governo Sérgio Cabral, recentemente preso por esquemas nos governos Lula e Dilma. Isso levou muita gente do espectro da direita a relembrar da proximidade do ex-bilionário do PT, mas botar de lado sua intimidade com Aécio Neves, o PSDB e o longevo governo em Minas Gerais.

A queda de Eike Batista e o problema da mídia que adula empresários

Dentro da Editora Abril, Eike Batista era um assunto recorrente entre jornalistas. Ele surgiu no segundo governo Lula como uma esperança de impulsionar o setor empresarial brasileiro. Veja apressou-se em colocá-lo neste pedestal, assim como a Rede Globo e os grandes grupos da imprensa. Pouquíssimos fizeram a autocrítica sobre a OGX, LLX e empresas que prometiam ser a "Petrobras privada" na exploração das riquezas do pré-sal. Não deu outra: Quando os projetos não cumpriram os prazos, os US$ 36 bilhões derreteram e as ações das companhias de Eike chegaram a valer centavos.

Copiando o formato norte-americano de jornalismo de negócios, por muitas vezes sensacionalista e sem nenhuma crítica ao funcionamento real do livre-mercado, ou mesmo do modelo desenvolvimentista petista que fracassou, fabricamos um bilionário falso, baseado em especulações. Copiamos um executivo que quer ser mais Donald Trump e menos Bill Gates, criando negócios sem liquidez. Felizmente (ou não), o posto de Eike foi reposto pelo de Jorge Paulo Lemann, dono da 3G Capital que adquiriu a Heinz e tem participação no Burger King, com fortuna especulada em US$ 28 bilhões. Lemann investe em educação, um bem escasso no Brasil.

Nosso país, no entanto, perde tempo adulando executivos graças a sua mídia e não discute modelos de negócios reais ou empreendedorismo com riscos calculados. Os bilionários são corruptos não por culpa do PT ou do PSDB. São corruptos e corruptores porque aceitam o sistema de pagar propina em troca de favores. Criam efetivamente a corrupção sistêmica.

A queda de Eike Batista e o problema da mídia que adula empresários

Um filme sobre a Operação Lava Jato tinha financiamento do próprio Eike Batista, preso recentemente pela Lava Jato. 

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.