Coluna do Pedro Zambarda
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna do Pedro Zambarda
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna do Pedro Zambarda
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Mayara Vaz, vencedora do Slam Resistência 2016, fala de poesia, rap, rua e golpe

O que uma analista de sistemas viu numa reunião de batalhas de poesia de rua? E o que os versos urbanos dizem sobre o impeachment de Dilma Rousseff?

Mayara Vaz, vencedora do Slam Resistência 2016, fala de poesia, rap, rua e golpe
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Conheço Mayara Pivatto Vaz (26) há mais de 10 anos. Fizemos colegial juntos no Instituto Federal e ela seguiu numa carreira de Tecnologia da Informação. Analista no setor de telecomunicações, ela redescobriu a poesia que fazia mais nova ao participar do Slam Resistência, um dos maiores encontros brasileiros de duelos de versos declamados.

Participou de diferentes encontros de coletivos que envolvem MCs, rap, cultura negra, feminismo e, com o golpe de Dilma Rousseff, política.

Encontrei Mayara e jantamos num barzinho próximo da Praça Roosevelt. Ela tinha acabado de voltar do trabalho e conversamos sobre o tempo de amizade e o que a levou até uma escadaria para gritar poemas e ter aplausos de todo o tipo de gente na rua, do estudante pobre de escola pública ocupada até o mendigo catador de lata. A conversa rolou com ela e com outros poetas do centrão de São Paulo.

Trocamos ideias por três horas.

O que ela faz nos encontros na escadaria da praça é essencialmente falar os seus textos e receber uma nota dos presentes. Mayara Vaz foi uma das mulheres que recebeu melhor reconhecimento da cena. 

Mayara Vaz, vencedora do Slam Resistência 2016, fala de poesia, rap, rua e golpe

Você pode assisti-la falando as poesias Devaneios, Lucia Perez e Doze.

Falei com Mayara sobre sua trajetória no Slam, arte, estética, classe-média na cultura, golpe contra Dilma, política, Polícia Militar e como a poesia é uma forma de ocupar o espaço público.

Pedro Zambarda: Você foi campeã do Slam Resistência ano passado. Como você vê a poesia como linguagem urbana hoje? Como você entrou nessa?

Mayara Vaz: Em 2014, através de um primo de uma amiga minha, eu descobri uma das principais batalhas de MCs de São Paulo, a Sexta Free. É uma batalha de temas bem forte aqui em São Paulo. Por isso acabei conhecendo toda a cena independente.

No primeiro trimestre de 2015, comecei a fazer a produção executiva com o grupo Atentado Napalm. Fiquei quase um ano com eles "aprendendo o que aquilo significava". Sou analista de sistemas e foi uma loucura entrar cada vez mais neste universo. Acabei entrando no Slam da Guilhermina. Foi lá que eu conheci não a batalha dos MCs, mas sim a de poesia.

Fui ver como isso funcionava e fiquei maravilhada com o que vi. 

Funciona assim: Todo mundo pode se inscrever e entram entre 15 e 20 poetas. Manda um texto autoral de até três minutos, acompanhado de instrumento musical ou não. Pode cantar ou só usar a sua voz, sendo que não tem tema pré-definido, ou mesmo formato.

São selecionados cinco pessoas aleatórias na plateia para serem os jurados. Eles dão notas de 0 a 10 e quebradas, pra não dar empate. As cinco melhores médias vão pra segunda etapa, que passam mais três. Na terceira saí um campeão de cada coletivo, em cada mês.

Mayara Vaz, vencedora do Slam Resistência 2016, fala de poesia, rap, rua e golpe

PZ: E daí depois tem uma reunião entre todos os Slams?

MV: No final do ano há um Slam coletivo de onde sai um campeão anual. Até 2016, o poeta vencedor ia disputar o [Slam] Brasileiro. Só que a cena estourou no ano passado e tem muito coletivo. Tivemos problemas com quatro dias de competição e ainda ficou corrido.

O espaço do Itaú Cultural, na Paulista, ficou pequeno. A gente teve senha limitada para o público assistir. Agora vão ter competições regionais. Basicamente é isso.

É um ano todo de poesia para conseguir uma vaga na final.

PZ: Você foi lá e adorou os Slams. Mas você já escrevia poesia antes?

MV: Eu sempre escrevi, desde pequena. Escrevia e rabiscava quando tinha sete anos. Eu ganhei um concurso de poesia, mas era algo que se afastou muito de mim principalmente depois do colegial. 

PZ: Geralmente a gente se forma e essa veia artística vai se perdendo, não é?

MV: Exato. Eu fui trabalhar em TI e namorei por muito tempo. Me desconectei completamente daquela "Mayara função social". 

Teve toda essa situação e eu descobri as batalhas de rua e fiquei assistindo, como eu fazia no rap. Nunca tinha tentado nada, assistia e aplaudia se achava legal. Mas eu apoiava isso e via que levava uma mensagem para meios que normalmente não a recebe. 

Em outubro de 2015 eu vim pra Praça Roosevelt, aqui, e participei do Slam Resistência depois de um velório. Os organizadores já me conheciam, sabiam que eu escrevia algumas coisas e falaram: Ó, você vai participar. Não tinha nenhuma menina competindo e eles disseram que eu tinha que ir.

Fui lendo e cheguei em terceiro lugar naquela noite. 

E não voltei de novo, porque era uma pressão muito grande. Foi bem amedrontador.

Existem Slams que acontecem em teatros e praças. Aqui na Roosevelt pega muita gente que perambula pelo centro. Elas olham, param e ouvem. Foi assim o meu primeiro contato como competidora e, por influência do rap, no final daquele ano eu decidi ir mais vezes.

Tem uma pessoa que eu não posso deixar de citar que é o TVS BeatBox, que vai lançar EP e é conhecido do rap. Ele sempre leu o que eu escrevi e sempre me incentivou muito. Foi ele que me ajudou e um amigo chamado Helibrown, que tem uma música chamada "Acredite no Seu Corre".  Me guiei muito por isso.

PZ: E como foi 2016?

MV: Comecei o ano querendo ganhar um Slam. Um mensal. Em abril eu já ganhei o primeiro, o Slam do Grito que é um dos mais tradicionais na cena. Vai ter de novo neste ano. Queria ir em todos, mas tem alguns, desculpa ai ZL [zona leste], que eu não consigo chegar em dia de semana porque começa às 19hrs, 19h30.

Eu saio do Morumbi e é impossível de chegar na zona leste assim, infelizmente. Se eu puder, irei. 

Comecei a batalhar pra valer nesse período e tive um retorno muito gostoso dos poetas e das pessoas presentes. Foi assim que eu ganhei outro Slam do Grito em maio.

No finalzinho do ano passado eu consegui o penúltimo lugar no Slam da Guilhermina e a penúltima vaga do Slam Resistência. Os meninos do Resistência brincam que eu sou a "cria da casa". Me chamam de "Fofândala", porque eu sou "fofa" e "vândala".

Eles me adotaram e eu adotei eles. Este é um dos Slams mais difíceis de concorrer na cidade, porque sempre tem muita pressão e sempre está muito lotado. Tem mais público do que o Slam Brasileiro.

No final das contas eu consegui a vaga do Slam Brasileiro, na final do Resistência. Cheguei aqui com pessoas maravilhosas que poderiam ter sido as vitoriosas. 

Na verdade, eu empatei com a Mariana Felix na final. Como ela já tinha a vaga, eu levei automaticamente.

A noite acabou sendo minha.

Mayara Vaz, vencedora do Slam Resistência 2016, fala de poesia, rap, rua e golpe

PZ: A gente teve o impeachment da Dilma no ano passado. Como isso influenciou seu processo artístico e como você viu isso na rua? Como arte de rua pode educar?

MV: Na verdade, o que me fez me apaixonar pelo Slam não foi nem tanto as maravilhas das poesias, dos textos, mas ver o olhar do aluno de quebrada que foi ver o professor recitar. Também foi muito bom ver o tiozinho com a caçamba cheia de entulho para ouvir o que a gente fala.

Eu acho que não vi nenhuma cultura de rua levar ideias políticas de forma bem argumentadas para pessoas que sequer tem o conhecimento acadêmico prévio. Mesmo com esse vácuo, elas podem correlacionar os fatos que são expostos de maneira crua para entender do que estamos falando.

Tenho um texto que é baseado em [George] Orwell, o 1984, cheio de referências ao livro. Mas ele é todo montado de uma forma que quem não leu entende.

Acho que essa é a função do Slam. Ele vê, ao longo de um ano, um bairro inteiro mudar de pensamento. A gente vê até o dono do bar acompanhando a gente, concordando ou discordando.

São centros de discussão em que algumas pessoas se propõem a falar e outras a escutar.

Tanto é aberto que qualquer um que quiser batalhas com poesia pode participar. E há também os momentos de microfone aberto em que não existe batalha. Nesta hora é possível mandar crônicas, textos políticos, Nietzsche, o que você quiser.

A partir do impeachment da Dilma, um pouco antes, eu vi o que aconteceu. Apesar de carregar uma bandeira feminista, como a maioria das meninas da cena, eu falo mais de política. Acho muito importante alertar o máximo de pessoas que a gente puder neste momento, agora. 

Dá medo ver que muita gente não enxerga o que está acontecendo.

PZ: Medo de falar que o impeachment é golpe, né?

MV: Agora este medo tá diminuindo porque, bom, menos de 10% de aprovação do Temer, né? Mesmo assim, a questão toda da Dona Marisa [esposa do ex-presidente Lula] me preocupa. Mais do que dar raiva, é algo que entristece.

Vejo pessoas ficam felizes com morte e tragédia. O que ela fez pra merecer isso. Nada, né?

A maneira como os antipetistas criam mentiras, falando que a Marisa recebia dinheiro de cargo público. Cara, não. Vá ler um pouquinho.

Qualquer informação que você posta na internet vira verdade. Acho que pelo menos o Slam te obriga a trazer fatos. Não dá pra falar groselha. Acho que é a função da poesia marginal num geral. Os Slams trazem competições, mas temos saraus muito fortes e eventos como a batalha dos MCs no Red Bull Station [uma casa que fica perto do metrô Anhamgabaú]. 

Tem ainda gente do rap que não sabe o que é Slam e vice-versa. Quando você bota elas em contato, é: "Caralho, é isso!".

Elas se comunicam, chamam os DJs e todo mundo. As coisas começam a se movimentar assim, mas ainda tá restrito a isso. A gente leva as mensagens políticas assim.

Eu não tenho medo nenhum de falar que não sabemos que caminhos na política vamos percorrer. Porque não sabemos ao certo como vamos ir. Hoje mesmo eu falei com amigos que não imaginava que fosse viver a repressão. Quando lia isso nos livros, no colégio e durante o Ensino Fundamental, me soava como algo longínquo. Fui mimada.

Me fiz adolescente e adulta na Era Lula. Eu digo que fui mimada se a gente comparar com o que os nossos pais viveram. E, por isso, eu tô inconformada.

Pra muita gente tá tudo bem cortar direitos da Previdência e ninguém se mexe. Não é que eu faça mais do que os outros, mas eu pelo menos tento falar sobre isso. Tenho um texto que ainda nem lancei, mas eu digo: "Quero reiterar por que venho aqui na frente. Não é pelos likes e nem pelas palmas. Nunca sonhei com público, gente. Mas sempre sonhei com vozes que pudessem mudar algo".

É isso que eu sinto quando vejo tanta gente diferente tentando fazer algo como iguais. Isso confronta muito com a esquerda dividida e as teorias "separatistas internas" que a gente tem, né?

Chegam muito menos mensagens do Slam e da poesia do que da mídia, por exemplo.

PZ: E a mídia não fala do Slam, né?

MV: Fala muito pouco. Não vou falar que ninguém nunca fala porque é injusto. Lá no Guilhermina a gente deu entrevista para a revista Caros Amigos. Ano passado o site Ponte Jornalismo cobriu o final do Slam Resistência e eu dei uma breve entrevista por ser a campeã. 

Quando a Luz Ribeiro venceu o Brasileiro, sendo a primeira mulher, negra, lésbica e de periferia a conquistar isso, deu força pra todo mundo. O Slam cresceu muito na internet. E os vídeos bombam. 

Isso ficou impossível de ser camuflado, foi parar no programa da Fátima Bernardes na TV Globo.

Me preocupa o que as mídias querem mostrar e o quanto elas querem deturpar.

Eles podem banalizar um concurso de poesia porque, bom, é só um concurso de poesia. Entendeu?

Mayara Vaz, vencedora do Slam Resistência 2016, fala de poesia, rap, rua e golpe

PZ: Deixa eu te perguntar. Você sendo mulher, branca e hétero está num rolê que traz a galera negra, do rap, do LGBT forte e da periferia. Quanto das diferenças te impactaram?

MV: Este é um assunto delicado até entre quem está no Slam. Existem muitos movimentos eclodindo e existe a questão do protagonismo.

Só uma leve correção: Acho que tem poucas meninas da minha geração, exceto as coxas, que são heterossexuais. Podem ser que sejam quando se tornam adultas, mas na adolescência o barato foi louco.

PZ: Perdão, hétero não. Bissexual, certo?

MV: Sim. Existem muitas meninas que são e hoje estou vendo cada vez mais homens se assumirem. Foi só uma leve correção quando você falou de mim. Não me considero protagonista de nenhum destes movimentos que citei. 

Mesmo não sendo protagonista de tantas bandeiras e de minorias, isso me afeta como poetisa. Você percebe coisas nos textos de quem tem o protagonismo que dão vontade de gritar. Dá vontade de botar algo similar no seu texto e gritar junto.

É absurdo ver racismo. Eu já estive com amigos, com ficantes e com pessoas queridas que sofreram racismo escrachado porque estavam comigo. Porque eu sou branca e tenho essa cara de "classe média sofre", entendeu?

Eu quero falar tudo isso, mas eu tento refletir que o espaço de fala é destas pessoas que citei, não meu. Tô descobrindo como lutar junto e como apoiar, porque não sei exatamente o que devo fazer na convivência.

Tem muita coisa sobre apropriação que eu admito que desconhecia. Não sabia como diferenciar gênero e orientação sexual, cis e trans. As pessoas só diferenciam entre hétero e homossexual e não é bem assim.

Numa discussão onde eu vejo que só tem gente branca falando merda, eu vou lá e intervenho. Mas eu jamais vou falar assim com um negro.

A principal influência em contato com tanta gente diferente é mesmo me tornar alguém melhor. E tem que trazer novas pessoas.

Pegar aquela menina, aquela que eu sei que escreve, e que é nova e tem vergonha. É uma pretinha do Grajaú. Falar pra ela: "Mana, troca ideia com essas manas". Tem que apresentar ela pra uma Luz Ribeiro e pra uma Mariana Felix. São minas de protagonismo pesado contra o racismo.

Deixa elas se virarem. Isso é um trabalho: Comunicar pessoas que precisam se falar, expandindo. Mas não falar por elas, saca? 

É delicado porque sempre rola de um poeta branco citar Maringhella. Tem gente que acha que tudo bem e outros acham que é apropriação.

Mesmo com essas coisas, é bonito ver o que acontece aqui. Já dizia Felipe Marinho: "Vai ter funk sim. Se reclamar, vai ter ocupa baile funk". Ele tem 18 anos.

PZ: Como foi participar do Slam com as ocupações do secundaristas?

MV: O lance com eles não foi o mais forte, mas você deve lembrar da Florestan Fernandes [escola do MST]. A gente estava com uma participação no Slam do Guilhermina, eu e mais cinco poetas estávamos juntos. Era o Lobinho [Edilson], Felipe Marinho, Mariana Felix e Daniel GTR. Eu não conhecia a Florestan, mas íamos pra lá pra mostrar pra galera o que fazíamos.

É um centro de ensino enorme e com muita gente de outros países morando lá. Eles iam fazer uma confraternização e a gente ia mostrar o Slam. Acordei numa sexta-feira pronta pra viajar. Naquele mesmo dia, a polícia tinha invadido a Florestan Fernandes, com tiro.

PZ: Por acaso foi logo depois do impeachment, né?

MV: Pois é. A gente ficou numa tensão porque a Florestan não nos comunicava o que tinha acontecido. Não sabíamos se a gente ia ou não. A esposa do Emerson, um dos organizadores, estava grávida de nove meses e ela ia no rolê. Decidimos ir. Foi uma noite muito legal porque tinha gente da Somália, do Líbano, da Europa e de muitos locais do mundo. Todos eram ligados a movimentos de esquerda focados na questão de terra, incluindo militantes e agrônomos.

Todos estavam inconformados e realmente se questionando se o Brasil vive uma democracia. Chegamos recebendo várias mensagens, assustados e participamos muito com o pessoal. Tivemos atenção da galera e recebemos textos hiper-politizados. Foi uma troca com muita gente de esquerda que eu tive ali.

Quando você leva arte de resistência para pessoas que efetivamente fazem isso, a resposta é muito boa.

Vamos estar agora numa ocupação aqui na Praça Roosevelt, porque há boatos que a polícia pode nos tirar aqui agora com o Doria no poder.

PZ: É muito louco isso, né? Você viveu os principais eventos políticos do país pelo viés da arte...

MV: Isso me faz pensar cada vez mais que, se não for por educação e arte, não vai dar certo. Não defendo só a volta da esquerda ao poder necessariamente. Se você me perguntar qual é o caminho, eu te respondo: Depende. Há toda uma conjuntura de fatos conectados que não pode ser menosprezada.

E tá tudo falido, cara. Tudo. Tudo. Tudo. Tá tudo errado. A gente precisa estancar a sangria.

PZ: Estancar a sangria (risos)? Como o [Romero] Jucá falou no áudio?

MV: Na verdade a gente mesmo precisa estancar a sangria das instituições. Isso só se dá através de cultura e educação. E eu falo isso porque eu vejo isso acontecer na rua. Vi isso acontecer com uma criança ao longo de um ano. Dá pra ver a mudança.

Não tô falando que ela passa imediatamente a ver toda a injustiça social, mas ela pergunta um autor pra ler. Criança com Síndrome de Down quer sair de casa pra ir ver o Slam. Ela se identifica porque é arte.

É uma oportunidade para as pessoas deixarem de ter nojo da educação, porque hoje em dia adolescente não quer aprender. O sistema educacional quebra qualquer tesão em aprender. A gente tenta levar essas informações em outra linguagem.

A gente vê no olhar do trabalhador tremer quando falo que ele vai perder um direito. Ele não é um artista, mas ele me diz que se identifica quando fala do [Michel] Temer. Ele vê alguém falando por ele. E agradece.

Assistir os eventos políticos pelo viés da rua me faz ter esperança. Existe gente disposta a mudar alguma coisa. Estamos atingindo pessoas. E é por isso que estamos sofrendo agora na nossa plena liberdade de expressão.

PZ: Como assim?

MV: Temos impressões da mídia e do Estado em si. Ainda é sutil pro Slam, mas eu não consigo considerar grafite e picho como algo fora da arte marginal. Olha só o que tá acontecendo com o João Doria Jr. 

Acho que São Paulo vai ser o coração deste ódio. Não vai ter mais amor em SP.

Estamos com uma gestão Doria-Alckmin-Temer que nem posso falar muito. A prefeitura botou grades na Praça Roosevelt. Saiu uma portaria que eventos não autorizados, exceto blocos de Carnaval, não vão acontecer. A gente tem medo que o Slam Resistência, que vai ocorrer agora, seja impedido pelo atual governo. 

Vemos uma postura mais dura da polícia quando nossos horários na rua estouram. Tem coisas que a gente não pode provar, mas num evento cheio de criança e poesia é acompanhado por uma viatura da Rota, cujos policiais descem e ficam te vigiando, a gente pode questionar por que isso acontece. Por que eu estou sendo vigiado?

Que eu saiba, posso falar tudo o que falo na rua. Não é crime nenhum expôr opinião e a gente ainda vive num país que é uma democracia. Posso falar de instituições que não funcionam bem. Não falo que a culpa é de todo mundo, mas a instituição é falida, não é?

Posso reclamar do que quiser e não quero me sentir coagida a me calar.

A gente sente uma pressão assim desde quando ocorreu o golpe até hoje. Mudou o ar. Nas batalhas de MCs teve enquadro. Por quê? Porque sim. A nossa transição política foi assim, pra usar uma palavra bonita.

Mas é golpe, né?

PZ: Sim. Você sente que a sua arte marginal atinge mais pessoas do que um sarau de gente branca na Casa das Rosas? A rua repercute mais?

MV: Desde o colegial eu acompanhei pessoas que queriam trilhar o caminho da arte. Elas trilharam e foram pra academia. Foram fazer artes plásticas, cênicas, USP, UNESP, Unicamp... E eles têm retorno, formaram carreiras, mas eu vejo outras pessoas como a Mel Duarte e outras meninas que impactam mais.

Falo da Mel porque ela não batalha tanto, no entanto já representou o Slam lá fora. Ela é negra, da quebrada, e já me enfrentou no Brasileiro. A gente empatou no primeiro dia, acabei passando ela, mas acredito que a Mel atinge muitas pessoas. Mariana atinge muita gente. Tem um vídeo da Sabrina, aqui do Slam Resistência, que tem mais de dois milhões de visualizações na internet.

Não vejo meus amigos com artes acadêmicas atingindo isso. Não significa que eles não tenham público e provavelmente eles recebem por isso. No meu caso, não recebo pra participar do Slam. Às vezes tem um cachê ou outro, além do Guilhermina que tem prêmio de R$ 1 mil. Outros tem até publicação em livro. 

A gente não ganha dinheiro com isso e nem pensamos numa carreira com isso, diferente dos meus amigos na academia. A real é essa.

Acho que os vídeos fazem com que a gente tenha uma propagação absurda. Quando as coisas começaram, era gente se juntando na praça pra trocar poesia.

Tem gente que mete o pau na academia dentro do Slam e tem gente que protege. Eu sou um meio-termo. Acho que tem coisas boas e ruins do lado de quem faz uma arte mais formal, diferente da marginal.

PZ: E na rua você tem o resultado imediato, né?

MV: No momento que você termina de ler um texto, você sabe se tirou 10 ou não. Geralmente as notas refletem o barulho da plateia. Às vezes é um som que cresce aos poucos, mas tem uns que explodem na sua cara. 

Parece que você tomou um tapa na cara do grito que surge.

Quando as pessoas invadem, gritam e te abraçam, você sabe que elas gostaram. Gostaram não só porque é artístico. Mas sim porque elas sentiram as palavras, saca?

Tenho um texto pronto sobre Monet e Impressionismo, mas eu não vou falar isso na rua ainda. Apesar de ter vindo de Pirituba e da Brasilândia, infelizmente pouca gente entende de História da Arte na quebrada. Nenhuma dessas pessoas é burra, mas o Estado dificulta o acesso a cultura.

Chamamos no Slam este tipo de cultura de "elitista".

Há uma troca de identidades na poesia marginal.

Mayara Vaz, vencedora do Slam Resistência 2016, fala de poesia, rap, rua e golpe

PZ: Além do grito, você sente que o Slam retoma o espaço urbano? São Paulo está abandonada...

MV: Isso é a melhor parte. Convivo num ambiente diferente do Slam. Trabalho na Berrini, convivo com os "berriners" e as praças não tem o mesmo visual da quebrada. As ruas não tem a mesma iluminação e a limpeza não é a mesma. Há uns dois anos atrás, as pessoas frequentavam mais as praças porque elas são públicas e devem ser frequentadas. Isso não acontecia na perifa.

O Slam chegou e falou: "E ai? O espaço aqui é nosso! Todo dia do mês a gente vai fazer um remelexo aqui, falou?".

Por isso, aos poucos, estes meios voltam a ser meios de convivência. A tiazinha traz as crianças pra assistir. Não é só pela arte ou pelo protesto. Ou pela política.

A gente volta a ter áreas de convívio comunitário publicamente.

Por isso eu acho ridículo tirar as praças de nós. E a gente vai retomar. A praça é do cara "de direita", mas é nossa também. E esta noção precisa ser respeitada.

Nada existe sem diálogo dura por muito tempo.

Qual foi o legado de José Serra no governo Temer?

Grão-tucano, José Serra foi ministro das Relações Exteriores do governo Michel Temer depois do impeachment de Dilma Rousseff. O que de fato ele fez como chanceler? Qual é o saldo final? Há um legado político de Serra na pasta?

Qual foi o legado de José Serra no governo Temer?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Serra está com 74 anos, foi ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso, tentou duas vezes ser presidente contra Lula e Dilma (2002 e 2010) e saiu da pasta de Relações Exteriores do governo Michel Temer. Pediu demissão por problemas na coluna no dia 22 de fevereiro. 

À colunista Vera Magalhães, do Estadão, José Serra afirmou que o problema nas costas é "incapacitante" e que terá que fazer um tratamento de quatro meses. Sem provas, há quem diga que Serra já queria a demissão por não se sentir prestigiado. Outros avaliam que a queda de José Serra não é tão impactante quanto a de Geddel Vieira Lima, Marcelo Calero ou Romero Jucá. O tucano pode ajudar Temer a aprovar reformas no Senado, enquanto Geddel e Jucá caíram denunciados na Lava Jato - e Calero desembarcou dedurando o próprio presidente da República.

O intuito desta coluna, no entanto, não é especular as razões sobre a saída de Serra e sim tentar explicar o que ele fez, de fato, ao lado de Temer após o golpe.

Qual foi o legado de José Serra no governo Temer?

Foi contra a eleição da Venezuela para liderança do Mercosul. Serra foi declaradamente anti-Nicolás Maduro desde sua posse. Considera o governo local uma "ditadura bolivariana" e rompeu laços que foram constituídos com o país na gestão Hugo Chávez. Tentou também tirar influência de votos de Caracas dentro do Mercosul.

Maior proximidade com Maurício Macri, da Argentina. Numa manobra anti-Cristina Kirschner, apoiou o governo de austeridade que domina a economia argentina. De quebra, se aproximou com a administração Barack Obama. O problema? Quem ganhou foi Donald Trump e não Hillary Clinton, a sucessora de Obama.

Fechou embaixadas na África e no Caribe. A medida foi avaliada como positiva do ponto de vista da gestão financeira da pasta, mas foi mais um retrocesso do ponto de vista da expansão diplomática promovida nos anos do PT no poder.

Reuniu-se com Joe Biden, vice de Obama. Mas nada de Trump. Se Serra pretendia se aproximar dos Estados Unidos, fracassou. Celso Amorim e Lula foram mais bem-sucedidos com George W. Bush.

Fez homenagem aos mortos da tragédia do Chapecoense e muitos discursos públicos. Ao que tudo indica, José Serra não pretendia ser apenas um bom ministro. Gostaria de ser um candidato forte à presidência, de novo. Nos bastidores, comentava-se até que ele poderia abandonar o PSDB pelo PMDB se Temer o ajudasse.

O jornalista Luis Nassif e o site Portal Vermelho apontam que, de fato, Serra parecia ter problemas físicos para continuar no cargo. Professores da PUCSP consultados em reportagens, no entanto, apontam que o legado serrista na pasta, diferente dos genéricos na Saúde, foi tímido.

Eu diria que José Serra deixou um legado inexistente no governo Temer. 

Buscando fazer política. 

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.