Coluna do Pedro Zambarda
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ONG diz que 8 homens têm a riqueza dos mais pobres. Olhe a África para entender

Um estudo da Oxfam mostra que a desigualdade social entre "super-ricos" e pobres pode ser maior do que pensamos. Para além da pesquisa, Thomas Piketty é mais atual do que nunca. Um estudo mais antigo, também.

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São oito homens. Na sua maioria, são brancos e empresários ligados aos ramos de tecnologia, mercado financeiro, telecomunicações, internet e varejo. Eles são Bill Gates, da Microsoft; Amancio Ortega, da Inditex; Warren Buffett, maior acionista da Berkshire Hathaway; Carlos Slim, proprietário do Grupo Carso; Jeff Bezos, da Amazon; Mark Zuckerberg, do Facebook; Larry Ellison, da Oracle; e Michael Bloomberg, da agência de informação de economia e finanças Bloomberg. Eles foram alvo de uma pesquisa do Comitê de Oxford de Combate à Fome (Oxfam) na realização do Fórum Econômico Mundial de Davos neste começo de 2017.

O documento circulou no noticiário da imprensa mundial e trouxe o título "Uma economia para os 99%", continuando as críticas que ganharam força na crise norte-americana que persiste desde 2008. No comunicado oficial da diretora-executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima, ela afirmou que “quando uma em cada dez pessoas no mundo sobrevive com menos de US$ 2 por dia, a imensa riqueza que acumulam apenas alguns poucos é obscena”. Oito bilionários, portanto, ganham a mesma coisa do que 3,6 bilhões de pessoas em situação de absoluta miséria.

Há mais dados no relatório. Entre 1988 e 2011, a renda dos 10% mais pobres da população mundial aumentou em média US$ 3 por ano, enquanto a do 1% mais rico cresceu 182 vezes mais, a um ritmo de US$ 11800 mil/ano. Ao invés de se chocar com estes dados, ou taxá-los de "estudo comunista", vale conhecer o trabalho do professor francês Thomas Piketty, que alcançou status pop mundial com o livro "O Capital do Século XXI" a partir de 2013.

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Piketty analisou o gráfico de concentração de renda em 200 anos. Apesar de homenagear "O Capital" de Karl Marx, as semelhanças morrem no título. O livro na verdade estabelece patamares gráficos de risco social com o aumento progressivo da desigualdade social e econômica. Desde o período pós-Segunda Guerra Mundial, os riscos não estiveram tão grandes quanto neste período entre 2014 e 2017. As consequências das disparidades, segundo Thomas Piketty, é justamente a crise da União Europeia, a Primavera Árabe, as crises envolvendo Estados Unidos e Rússia, além dos conflitos que hoje existem no Brasil.

Entrevistei Piketty no final de 2014. Ele disse claramente que entendia quais eram os motivos para que eleitores pobres tenham votado em Dilma ou Lula e no PT: Redução da desigualdade social. E por que a Petrobras está em crise? Por que o impeachment de Dilma Rousseff ocorreu? Trata-se de uma mobilização da chamada plutocracia: Os super-ricos que têm influência política, entre os quais os oito da pesquisa da Oxfam.

O golpe contra Dilma se desenha neste ambiente de crise econômica e ampliação de desigualdades.

Thomas Piketty escreve também sobre as crises europeias e é insuspeito de ser um militante de esquerda. É tão crítico com a direita quanto é pela esquerda opressora de Nicolás Maduro ou Hugo Chávez. Os prejuízos aos trabalhadores comuns estão no centro de seu estudo.

O segundo levantamento que endossa os estudos da Oxfam sobre os super-ricos é da pesquisadora americana Nancy Hafkin, que foi mostrada no Brasil em 2014. O trabalho chama-se Women in Global Science & Technology (WISAT) e envolve as mulheres e as denúncias de violência em eleições de 2007 no Quênia, na África.

ONG diz que 8 homens têm a riqueza dos mais pobres. Olhe a África para entender

No levantamento da professora doutora, as regiões africanas com mais isolamento feminino levam a menos inclusão digital. Na mesma pesquisa, nos locais onde o machismo predomina a desigualdade social é maior, uma vez que o poder econômico das mulheres é muito reduzido.

A pesquisa de Nancy casa com um dado importante da Oxfam: Segundo o levantamento, as mulheres sofrem maiores níveis de discriminação no trabalho e assumem a maior parte das funções não remuneradas. No ritmo atual, a humanidade ainda levará 170 anos para se conseguir a igualdade salarial entre homens e mulheres com a situação social e econômica que se aprofunda diretamente na crise.

Portanto, antes de defender Bill Gates e acreditar que a desigualdade social o tornará menos rico, olhe para a África. Observe as mulheres.

A resposta está aí.

O que a mídia alternativa pode fazer pelo Brasil?

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Impeachment ou golpe? Bolivarianismo ou projeto de país? A notícia que está na mídia de massa está correta? Por que questionar?

A mídia alternativa brasileira que se propaga hoje é muito diferente dos anos 70 e 80, fruto de censores que invadiram as redações dos maiores jornais e revistas do país para impôr a ideologia e as pautas da ditadura militar. No entanto, há semelhanças. 

O Pasquim durou entre 1969 e 1991 publicando palavrões, deboche e entrevistas com tons sarcásticos, além de reunir os melhores nomes da imprensa daquele tempo, como Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Ruy Castro e muitos outros. 

Apesar de diferenças históricas, a mídia alternativa que temos em 2017 é similar em muitos aspectos.

Jornalista de destaque na TV Record, Paulo Henrique Amorim foi um dos pioneiros nesta mídia que contesta a "grande mídia". Criou o Conversa Afiada como um programa de economia que passou pela TV Cultura e hoje sustenta o site com textos críticos agudos contra o PSDB, a Globo, o Judiciário e banqueiros como Daniel Dantas.  Diz ele que a frase é do deputado petista Fernando Ferro, mas foi PHA que emplacou a expressão "Partido da Imprensa Golpista", o PIG.

No mesmo tom de crítica aguda e até deboche das figuras tucanas, os irmãos Kiko e Paulo Nogueira criaram o Diário do Centro do Mundo (DCM), local onde o autor deste texto também trabalha. Criado originalmente como um blog na revista Época, quando Paulo era correspondente em Londres, atualmente é um site de hardnews com seleções de notícias da imprensa, textos opinativos e furos de reportagem. Um destaque que pouco é dado é justamente para as campanhas bem-sucedidas de crowdfunding do DCM, que financiaram com até R$ 25 mil reportagens sobre a mansão atribuída à família Marinho da TV Globo, o helicóptero de cocaína do aliado de Aécio Neves (Zezé Perrella), a crise hídrica da Sabesp e muitas outras pautas que não são cobertas com tanto afinco pela imprensa das grandes famílias. Alguns destaques do Diário são textos de repórteres como Joaquim de Carvalho (ex-Veja e Jornal Nacional), que faz textos de fôlego, Mauro Donato, que cobre sobretudo as ruas, e Nathalí Macedo, que vai atrás de assuntos feministas.

A Revista Fórum, de Renato Rovai, traz importantes furos e comentários sobre o panorama nacional, com diferentes blogueiros. Os sites Tijolaço, Viomundo e Cafézinho normalmente se centram em análises, embora o segundo tenha sido o primeiro a ter acesso ao processo de sonegação fiscal envolvendo direitos da Copa de 2002 e a Rede Globo. Mais antigo do que todos estes sites, a revista Carta Capital de Mino Carta mantém-se como uma alternativa impressa e digital às concorrentes ISTOÉ, Época e Veja desde os anos 90. Mais novos de todos, a Mídia Ninja e os Jornalistas Livres, sendo o último chefiado por Laura Capriglione (ex-Folha e Veja), fazem a cobertura dos protestos de rua desde 2013 ao vivo e de pautas do cotidiano, incluindo abusos policiais, penitenciárias e tópicos correlatos. Opera Mundi é um site com viés esquerdista para assuntos internacionais.

O Brasil247 faz uma cozinha crítica sobre as principais notícias e colunas dos grupos Estado, Folha, Globo e outros, além de trazer textos opinativos de jornalistas consagrados, como Paulo Moreira Leite e Tereza Curvinel. Leio pouco, mas acompanho o Pragmatismo Político. No entanto, acho que ele copia demais informações de outros sites e não faz nenhum comentário, ponderação ou furo jornalístico do que ocorre no atual cenário brasileiro.

Por último, e não menos importante, o GGN de Luís Nassif (ex-conselho editorial da Folha) carrega tanta experiência quanto Paulo Henrique Amorim, mas um tom mais ameno e analítico do noticiário. Jornalista econômico por muitos anos e pioneiro na busca de dados desde seus tempos no Estadão, Nassif faz contrapontos sobretudo quanto à precisão dos grandes grupos de comunicação.

Estes sites e iniciativas são frequentemente chamados de "sites petistas" ou "blogs sujos", sendo a última expressão empregada por Mario Sabino, Diogo Mainardi e jornalistas alinhados com José Serra. Publicamente, eles se declaram favoráveis aos programas sociais do PT e alguns deles manifestam apoio claro ao ex-presidente Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff. No entanto, o principal motor destes novos grupos de mídia não é a propaganda política e sim a falta de diversidade de vozes no debate público.

Há ainda outras publicações alternativas mais equilibradas, como é o caso do Nexo Jornal e Agência Pública, além dos novos representantes brasileiros de grupos de mídia internacionais, como Intercept, El País, Deutsche Welle e BBC. No entanto, para além da polarização destrutiva, é fundamental que exista grupos de contrapontos no Brasil. 

De acordo com o site Volt Data Lab, mais de 500 profissionais perderam o emprego em 2016. Do montante, a maioria absoluta foi de grandes grupos de mídia. Num mercado de baixa competitividade entre empresas, onde o grupo Globo ainda recebe 60% do bolo publicitário sobretudo por ter a maior TV aberta, a briga política entre os meios se transforma também num embate pela pluralidade que resultará em mais vozes públicas e publicáveis.

Internacionalmente, é tradição existir mídias polarizadas e debates editoriais. Nos Estados Unidos, o Huffington Post é declaradamente democrata, pró-LGBT e crítico às guerras do Afeganistão e do Iraque, enquanto o Washington Post e o Wall Street Journal se alinham aos setores mais conservadores e ao Partido Republicano. O New York Times também dá apoio aberto ao Partido Democrata.

Na França, o Libération é abertamente de esquerda, o Le Monde é centrista e o Le Figaro é conservador. O polêmico Charlie Hebdo, embora seja muito crítico com islâmicos e árabes, também é esquerdista. Já no Reino Unido, há uma variedade de publicações de direita, como a Economist, Financial Times e outras, embora o Guardian seja abertamente progressista.

Ao invés de taxar este site como "petista" e outro como "tucano", vamos celebrar a beleza da mídia alternativa e da mainstream: A diversidade. É isso que a mídia alternativa de fato pode fazer pelo Brasil polarizado de hoje.

Sou um leitor de imprensa onívoro, embora tenha convicções políticas de centro-esquerda.

Seja onívoro. Consuma mídia alternativa além dos grandes grupos.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.