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Por que a prisão de Joesley Batista não deveria comprometer sua delação premiada

O presidente da J&F e gestor da JBS trouxe provas robustas de crimes cometidos pelo presidente da República, Michel Temer. Por que a delação premiada agora está em xeque?

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(Fotos: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas)

Em maio de 2017, após o furo do jornal O Globo, feito pelo repórter Lauro Jardim, Joesley Batista se tornou um pivô de um escândalo político que puxou o presidente Temer para um furacão que parecia afetar apenas petistas na Operação Lava Jato.

Por que a prisão de Joesley Batista não deveria comprometer sua delação premiada

O empresário de 44 anos foi preso neste domingo (10) ao se entregar para a Polícia Federal. O pedido de prisão preventiva de Joesley Batista por cinco dias foi expedido pelo ministro Luiz Edson Fachin do STF após solicitação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Joesley tornou-se foco após fechar uma delação premiada com Janot e a PF em maio de 2017 acusando o presidente da República, Michel Temer, de comprar o silêncio de Lúcio Funaro e Eduardo Cunha, homens do PMDB que poderiam delatar ele na Lava Jato.

O acordo impunha multa de R$ 250 à JBS, gerida por Joesley Batista através da holding J&F, e nenhum pedido de prisão. Delatou o próprio Joesley, seu irmão Wesley e diretores da companhia, considerada a maior de proteína animal do mundo, como Ricardo Saud. A delação também apontou pagamento de R$ 2 milhões para dívidas de campanha do senador Aécio Neves e a compra de mais de 1800 políticos.

O problema é que surgiu uma pressão popular e midiática para que os órgãos judiciários não cumprissem sua parte do acordo. Criminoso confesso, Joesley ficou exposto a estes assédios. E, neste momento, surgiram novos grampos.

Adultério e proximidade perigosa com o braço direito de Janot

Por que a prisão de Joesley Batista não deveria comprometer sua delação premiada

Com o axé de Ivete Sangalo de fundo, novos áudios de Joesley Batista foram revelados em 5 de setembro. Claramente alcoolizados, Joesley conversa com Saud sobre a Operação Carne Fraca e fala em se aproximar de Janot para obter benefícios da Justiça contando o que sabem.

Falam em conversas vagas também em transar com duas "idosas" de 50 anos e de fornecerem um dos funcionários em troca de favores sexuais. “A realidade é: Nós não ‘vai’ ser preso. Vamos fazer tudo, mas nós não vai ser preso”, diz o empresário.

E ele fala de uma aproximação perigosa com Marcelo Miller, procurador que atuou junto com Rodrigo Janot nas investigações da Lava Jato. Ele foi um dos responsáveis por colher depoimentos de delação premiada considerados chave na investigação conduzida pela Procuradoria-Geral da República, como os acordos do senador cassado Delcídio Amaral e do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. 

Os dois também falam de uma "suruba" entre Dilma Rousseff, Carmen Lúcia e o ex-ministro José Eduardo Cardozo. Insinuaram que o jurista Cardozo poderia comprar apoio do Supremo Tribunal Federal. Carmén Lúcia, a presidente do STF, repudiou as declarações.

Os novos áudios colocaram a credibilidade de Joesley em xeque. Até o último momento ele achou que não teria sua prisão provisória decretada e chorou quando se entregou à PF, de acordo com a repórter Renata Agostini no Estadão.

Janot desmoralizado

Rodrigo Janot e o advogado Pierpaolo Bottini, que defende Joesley Batista, se encontraram num boteco de Brasília no sábado, 9 de setembro. Uma testemunha diz que ambos conversaram por mais de 20 minutos. Para não chamar atenção, escolheram uma mesa de canto, ao lado de uma pilha de caixas de cerveja das marcas Brahma e Heineken. 

O procurador-geral Janot não tirou os óculos escuros.

Naquele mesmo dia, Fachin pediu a prisão de Joesley Batista. Rodrigo Janot não comentou o encontro, mas o advogado alegou que foi uma conversa "casual".

Fachin então pediu a prisão de Joesley e Saud, mas não determinou a prisão de Marcelo Miller, poupando a PGR.

Mesmo assim, o procurador saiu manchado na história.

Que fim terá a delação?

A esta altura do campeonato, ninguém mais lembra o que Joesley disse sobre Temer. Sites de extrema-direita como o Antagonista desmoralizam Janot e chamam o dono da J&F/JBS de açougueiro.

A coluna reproduz a conversa entre o empresário e o presidente fora da agenda, numa madrugada, dentro do Palácio do Jaburu:

"Joesley Batista: Isso, isso. O negócio dos vazamentos, o telefone lá do [...] com o Geddel, volta e meia citava alguma coisa meio tangenciando a nós, eu tô lá me defendendo.

O que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora?

Tô de bem com o Eduardo.

Michel Temer: Tem que manter isso, viu.

Joesley Batista: Todo mês também. Eu tô segurando as pontas, tô indo. [...]. Eu tô meio enrolado aqui no processo assim".

Pode-se criticar a qualidade do áudio, ou mesmo detalhes do que é dito ali. Mas ele é um indício importante para iniciar uma investigação profunda sobre o presidente da República. Não pode ser descartado.

No entanto, Temer aproveitará o que puder da desmoralização de Janot, Joesley e das autoridades jurídicas. Ao chegar na presidência a partir de uma articulação nos bastidores, Michel Temer não abandonará o cargo com tanta facilidade.

Por isso a autenticidade da delação de Joesley precisa ser defendida. Mesmo com sua prisão.

Como Antonio Palocci, homem forte de Lula, traiu seu mentor

Independente do que você pense a respeito de Palocci ou de Lula, uma grave traição está em curso. O motivo é realmente a corrupção do PT ou será um desejo de se livrar da cadeia imposta pelas penas de Sérgio Moro?

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(Foto: Marcello Casal Júnior/Agência Brasil)

A economia foi um grande trunfo dos anos de Lula no poder. Agora, com a Lava Jato avançando sobre seus homens fortes, um esquema de propinas pode colocar o legado do crescimento em seus anos a perder. O que Palocci poderá falar? E o que ele deixará de falar?

Como Antonio Palocci, homem forte de Lula, traiu seu mentor

(Foto: Agência Brasil/EBC)

No livro "Sobre formigas e cigarras", publicado em 2007, Antonio Palocci diz o seguinte sobre a sua indicação ao Ministério da Fazenda, o pico da sua carreira política: "o presidente eleito definiu os primeiros nomes para o ministério - o da Fazenda abriu fila. No início do encontro, Aloizio Mercadante fez uma longa exposição para explicar  por que não poderia trocar o Legislativo pelo Executivo. Ele sentia que precisava cumprir pelo menos um período do mandato recém-conquistado para, só então, se sentir condições de aceitar um eventual convite para ir para o governo. Se dependesse só dele, escolheria permanecer no Senado. Deixou claro, no entanto, que não se furtaria a atender uma convocação do presidente da República. Lula concordou com os argumentos de Mercadante e, na mesma hora, fez sua escolha: - Palocci: é você! - ele anunciou, olhando-me nos olhos. Já não cabiam mais firulas".

Passados quase 15 anos daquela escolha, será que Palocci se arrepende de ter dito "ok, senhor presidente, conte comigo"?

No dia 6 de setembro de 2017, num depoimento diante do juiz Sérgio Moro, parece que Antonio Palocci dá sinais de arrependimento. O fato é que sua aliança com Lula terminou quando seu pescoço ficou exposto.

Trotskista na juventude e fenômeno político

Antonio Palocci Filho tem 56 anos e é médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Militou na Libelu, Liberdade e Luta, corrente trotskista com quadros que se filiaram ao PT. Dizem que os esquerdistas desta vertente divergem do autoritarismo dos stalinistas e muitos dos colunistas de extrema-direita da imprensa, como Reinaldo Azevedo, foram militantes trotskistas na juventude.

Tornou-se vereador em 1988 em Ribeirão e venceu as eleições pra prefeitura da cidade em 92. Ganhou os prêmios "Criança e Paz", da Unicef e do Fundo das Nações Unidas, por defender seus direitos como gestor público em 1995. Também foi vencedor do prêmio Juscelino Kubitschek por trabalhos com pequenas e médias empresas em 96.

Não tinha experiência nenhuma com economia e relutou para aceitar o convite de Lula no governo. Ao ingressar, foi o arquiteto, ao lado de Henrique Meirelles, da "Carta ao Povo Brasileiro", que reafirmou os compromissos liberais do PT no governo federal e acalmou os mercados. Seu governo foi elogiado pela direita política e ele deixou a situação fiscal equilibrada para o sucessor no ministério da Fazenda, Guido Mantega, saindo ileso inclusive do escândalo do Mensalão.

No dia 25 de fevereiro de 2008, a Procuradoria-Geral da República denunciou Palocci ao Supremo Tribunal Federal por quebra de sigilo bancário no episódio envolvendo o caseiro Francenildo Costa. Também foram denunciados o ex-presidente da Caixa, Jorge Mattoso, o ex-assessor de imprensa de Palocci e o jornalista da revista Época, Marcelo Netto. Com essa denúncia, o deputado Palocci passou a réu na acusação de ter ordenado a quebra de sigilo bancário do caseiro ao Mattoso.

Ele foi julgado pelo STF e correu o risco de perder seus direitos políticos e a possibilidade de candidatura a mandatos futuros. O julgamento ocorreu em agosto de 2009 e Palocci foi inocentado.

Foi cogitado para ser candidato no lugar de Dilma Rousseff, em 2010, mas preferiu agir nos bastidores, tornando-se o ministro-chefe da Casa Civil de seu governo. Acusado de enriquecimento ilícito, no dia 7 de junho de 2011 Palocci pediu demissão do cargo que ocupava no governo. Renunciou também ao cargo de conselheiro da Petrobras.

Uma reportagem de Thiago Bronzatto publicada na revista EXAME deu a entender que Palocci realmente enriqueceu atuando na iniciativa privada. Ele teria atuado como consultor do falecido empresário Edson de Godoy Bueno, da Amil, e teria faturado R$ 20,5 milhões só em 2010. 

O ex-ministro forte dos governos do PT também firmava contratos de longo prazo ganhando entre R$ 300  mil a R$ 400 mil por ano com sua empresa Projeto, com sede que fica perto da avenida Paulista em São Paulo.

Prisão e condenação na Lava Jato

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(Foto: Reprodução/YouTube)

No ano de 2015, a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar Antônio Palocci pelo recebimento de R$ 2 milhões para campanha de Dilma Rousseff do ano de 2010. A medida foi tomada por ordem do juiz federal Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato em Curitiba. Em 26 de setembro de 2016, ele foi preso pela PF na 35ª fase da Lava Jato, batizada de "Omertà". Também foram presos seus ex-assessores Juscelino Dourado e Branislav Kontic, que atuavam como operadores e laranjas.

A mesma operação a Justiça Federal decretou o bloqueio de R$ 128 milhões em contas bancárias do ex-ministro, mas foram localizados aproximadamente R$ 61,7 milhões, sendo R$ 30 milhões da empresa Projeto Consultoria Empresarial Financeira, que pertence ao ex-ministro, e os outros 31 milhões em contas de investimento.

Em 5 de outubro de 2016, o ministro Félix Fischer do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou liberdade ao ex-ministro Antonio Palocci, mantendo a decisão do juiz Sérgio Moro, de prisão preventiva. No dia 26 de junho de 2017, foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a 12 anos de prisão.

Pacto de sangue e traição de Lula

Se a condenação for mantida ou aumentar em instâncias superiores, Antonio Palocci provavelmente terá que cumprir entre dois a três anos em regime fechado. Pensando nisso, e visando reduzir sua pena, ele trocou o time de advogados e resolveu fazer uma delação premiada.

Inicialmente falou sobre o sistema bancário em depoimento a Moro e fontes vazaram que ele poderia falar da sonegação fiscal do grupo Globo. Mas, aparentemente, isso não foi suficiente para o juiz de Curitiba. Então ele resolveu entregar o "chefe".

Interrogado por Moro, o ex-ministro confessou delitos e revelou a existência de um "pacto de sangue" entre Lula e o empresário Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, que previa repasse de R$ 300 milhões da empreiteira para o PT.

Palocci disse não estar presente nas reuniões, mas afirma que ouviu isso da boca do presidente nas datas posteriores aos encontros. Ele também denunciou que Lula recebeu, pessoalmente, R$ 4 milhões em espécie. As informações foram dadas por seus advogados e os procuradores do Ministério Público informaram ao advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins, que estão estudando um acordo de delação premiada com o ex-ministro.

Antonio Palocci terá que provar as informações que concedeu às autoridades, mas elas imediatamente mancham a reputação de Lula, que acabou de retornar de uma caravana de 25 dias no nordeste. E figuras-chave do PT receberam muito mal as novas informações do ex-companheiro.

De "cachorro" a traidor declarado

O jornalista Breno Altman, próximo de José Dirceu, afirmou em texto que Palocci se comportou como os "cachorros" da ditadura militar, que denunciavam seus companheiros de esquerda quando torturados. Em conversas nos bastidores, o PT já defende um plano B para 2018, lançando o governador da Bahia, Jacques Wagner, ou o ex-prefeito Fernando Haddad para a disputa eleitoral. A segunda opção é cogitada também como vice da candidatura de Ciro Gomes.

Dirceu disse à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que prefere "morrer a perder a dignidade como Palocci". “Só luta por uma causa quem tem valor. Os que brigam por interesse têm preço. Não que não me custe dor, sofrimento, medo e às vezes pânico. Mas prefiro morrer que rastejar e perder a dignidade”, disse.

No governo Lula, havia três homens poderosos na sustentação política e econômica da iniciativa de centro-esquerda: José Dirceu, Antonio Palocci e Guido Mantega. Dirceu foi preso no Mensalão e no Petrolão e não delatou. Palocci foi acusado no Mensalão, mas só foi preso no Petrolão e promete delatar. Mantega chegou a ter o pedido de prisão decretado, mas foi posto em liberdade por estar com sua esposa doente. A delação de Guido Mantega pode não afetar tanto Lula, mas pode exibir as entranhas da compra fraudulenta de Pasadena, que teve participação de Dilma Rousseff no board da Petrobras.

Independente de simpatizar ou não com Palocci, sua trajetória política fica em xeque e sua traição é visível.

Lula diz que está "decepcionado" com o velho amigo que indicou ao ministério da Fazenda. Mas o ex-presidente mantém sua agenda de militância política, de olho para 2018.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.