Coluna do Pedro Zambarda
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Por que criticar o protecionismo de Donald Trump não me torna neoliberal?

Muro na fronteira do México. Novos impostos. Fim de acordos transnacionais. Para onde Donald Trump vai nos levar? E por que parte da esquerda ainda o acha melhor do que Obama?

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Eu sei. Não precisa repetir para mim. 

Barack Obama bombardeou a Síria e a ameaçou o Irã. Obama fez também um primeiro mandato ruim, não conseguindo controlar os efeitos da maior crise econômica do século 21 até o momento, iniciada em 2008 dentro do mercado financeiro e da especulação em torno dos imóveis. Obama também não criou políticas consistentes para negros e pobres. Foi medíocre em muitos aspectos, além de ter deixado surgir o Estado Islâmico e não ter retirado as tropas do Oriente Médio, uma promessa de campanha traída. Hillary Clinton, sua sucessora pelo Partido Democrata, continuaria estas políticas mortíferas e abriria espaço para outras, considerando sua proximidade com Israel.

Não ganhou ela, e sim Donald Trump. E a alternativa pelo Estado do Bem-Estar Social ou "socialismo", Bernie Sanders, foi descartada.

Com Trump, eu previ o desastre. O sociólogo esloveno Slavoj Žižek soltou que Trump poderia ser "uma piora antes de uma melhora" nas eleições. Balela.

Donald Trump está empenhado em acabar com acordos internacionais do governo Obama em torno de uma promessa de trazer novos empregos aos norte-americanos. Fez campanha para agradar o redneck (caipira) dos Estados Unidos, sendo que muitos deles apenas olham o seu país e não o restante do mundo. É possível prever Trump seguir um caminho similar ao de George W. Bush, ignorando posições da ONU. Por que não provocar outra guerra, além do Afeganistão e do Iraque, se isso trouxer mais emprego e dinheiro?

Os democratas não se comportam diferente de republicanos no que se refere a conflitos armados, mas é importante lembrar que Bush provocou as maiores guerras no Oriente Médio desde o fim da Guerra Fria, com endividamento bilionário e expansão de tropas mercenárias. Tudo isso está documentado no livro Blackwater, do jornalista Jeremy Scahill - que fundou o Intercept com Glenn Greenwald.

Mas o foco do texto não é este e sim a nova política de impostos de Donald Trump. Postei no dia 25 de janeiro uma tradução do site americano Polygon na minha página Drops de Jogos. Na nota, afirmava que uma fonte anônima disse ao Polygon que Trump poderia elevar o preço dos jogos de videogame com uma tarifa entre 5% e 10%. No DJ, especulei que a medida do novo governo poderia causar um retrocesso na indústria, aumentando os custos de importação nos EUA e o preço final, tanto em solo americano quanto brasileiro.

E boom.

O post gerou cerca de 150 comentários, entre grupos de Facebook e reações diretas à postagem. A direita fiel à Trump repetiu que eu era tão "fake news" quanto a emissora CNN que Trump repudia. Alguns da esquerda afirmaram que soei "neoliberal" por defender impostos baixos.

Explico aqui porque não sou neoliberal no caso dos games e de economias globalizadas.

O mercado americano de games gera emprego no mundo todo. Na China e no Brasil, inclusive. Mercados integrados desta forma, o que ultrapassa as barreiras territoriais, não devem ser taxados ou devem ter taxas que rendam contrapartidas à população mais pobre. Trump promete que entregará empregos ao americano menos favorecido. Mas quem garante isso?

E por que colocar impostos nos games? Não há outros mercados que podem ser taxados? E Wall Street? Pode ser taxada?

Não se trata aqui de ser "neoliberal" ou pró "Estado forte". Mas o populismo de direita de Trump pode levar o mundo aos piores retrocessos por um protecionismo burro e uma taxação que obviamente só o beneficiará.

E eu não entrei nem no assunto do muro e do populismo em si.

Isso fica pra próxima coluna.

Qual é o legado difuso de Roberto Civita, o "dono da banca"?

O que a história de um dos maiores "barões do papel" do Brasil deixa para futuras gerações? E o que ela explica sobre a Editora Abril hoje?

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Comprei o livro no mês de lançamento. Foram 534 páginas lidas rapidamente. Barão de mídia? Golpista? Quem foi Roberto Civita? E no que se transformou a Editora Abril?

O livro de Carlos Maranhão é bom e presta um serviço importante: Sai da biografia chapa branca de Roberto para falar de Victor Civita e da cultura empresarial da Abril. A editora não surgiu em 1950, mas sim em 1947 através das mãos de César Civita, o irmão de Victor. A primeira publicação não foi o Tio Patinhas, mas um gibi argentino que vendeu pouco chamado Raio Vermelho. A razão por trás disso é que César saiu do Brasil para criar a Abril na Argentina, que se tornaria Editora Primavera. As curiosidades apuradas resultam num trabalho que agrada tanto quem ainda está na empresa quanto os críticos. Paulo Moreira Leite, que já foi o número dois da revista Veja e hoje é um dos diretores do Brasil247, resenhou a biografia apontando para as relações óbvias e agora documentadas entre Roberto Civita e Fernando Henrique Cardoso. Não é à toa, portanto, que a Veja se tornou o veículo de comunicação a se dedicar na crítica contumaz e aos ataques a Lula. Havia uma relação próxima entre o dono da Abril e o grão-tucano do PSDB.

Entre os críticos, no entanto, é igualmente bom o texto de Mino Carta publicado em janeiro deste ano na revista Carta Capital. Embora chame Maranhão de "bajulador" do chefe, ele revela como tinha uma relação próxima com Dorrit Harazim e Elio Gaspari. Mino defende a tese de que se demitiu da Abril para que a editora conseguisse um empréstimo milionário da Caixa Econômica Federal. Era ditadura militar e a revista Veja sofria censura intensa porque nasceu com vocação de ser antigovernista.

Roberto, nos depoimentos de Carlos Maranhão, diz que demitiu Mino Carta. Diz que a fama dele era de "Napoleão Bonaparte", pelo pulso firme que exercia na redação. O fato é que, acreditando em uma versão ou outra, Maranhão diz que Roberto Civita passou a exercer força pessoal nos rumos da Veja fora das mãos de Mino. Eu trabalhei na Editora Abril por mais de dois anos. Roberto só ia nas reuniões de pauta das revistas Veja e EXAME. Eram as publicações mais próximas do "poder": A política e a economia.

Mas a narrativa da biografia não toma partido somente de Roberto e deixa claro que, em diferentes momentos, ele admirava Mino Carta e não respondia aos seus ataques devido a este respeito. Para muitos que não sabem, os Civita e os Mesquitas eram rivais nos anos 60. Giannino Carta, o pai de Mino, modernizou o Estado de S.Paulo. Roberto achava que Mino faria isso na Veja e de fato reconheceu que seu trabalho na criação na primeira semanal de informação foi crucial. Mino Carta então deixou de trabalhar para "barões da imprensa", criando com Domingo Alzugaray a ISTOÉ. Por novos desentendimentos, saiu e fundou a sua própria Carta.

Antes disso, tinha criado o caderno de esportes do Estadão e a revista Quatro Rodas. Tornou-se esquerdista convicto com o assassinato de Vladimir Herzog na ditadura. E todas as histórias de Mino Carta encaixam perfeitamente no enredo de Roberto e da Abril.

Roberto Civita, embora fosse liberal nos moldes norte-americanos - o que o fez cultivar um sotaque gringo bizarro até o fim da vida -, criou uma redação com esquerdistas como foi o caso da revista Realidade. Abandonou o projeto porque a Veja tinha pretensões de bater a revista TIME. Chegou perto. Teve uma empresa com 10 mil funcionários e mais de 50 revistas. Foi tanto publicitário quanto publisher, uma expressão americana para editor. Falava em separação entre "Igreja" (jornalismo) e "Estado" (publicidade). Tinha, na verdade, um bom olhar para os dois, herdado pelo pai.

Mas o maior acerto da biografia de Carlos Maranhão foi elencar os fracassos de Roberto. Numa tentativa de competir com o império da TV Globo e da família Marinho, próximos dos generais da ditadura e dos governos democráticos, fez a TVA e a Direct TV. Apostou pesado na televisão por assinatura, acreditou que funcionava como as assinaturas da Veja e perdeu feio.

A Abril também tinha 50% do que hoje é o Portal UOL, da Folha de S.Paulo. Não investiu o suficiente e perdeu o bonde da internet.

Próximo da morte, Roberto Civita tentou lançar todas as suas revistas digitalmente e nos tablets, apostando forte numa plataforma chamada iba. Não deu muito certo. E a sua revista Veja, cada vez mais, adotou um tom extremo contra o PT e contra as esquerdas. Cativa leitores de uma faixa etária mais velha. Afasta muitos que são novos.

Editora Abril já foi sinônimo de frescor e juventude. Victor Civita, o pai, criou os fascículos e conquistou as bancas. Roberto criou títulos com solidez. A Abril tinha a MTV. Tinha a revista Playboy. Foi perdendo seus galhos. Ainda não desapareceu, mas é uma empresa que precisa se reinventar e ainda insiste em fórmulas comprovadamente antigas.

Legado difuso é uma expressão que pode significar legado confuso. Mas também trata-se de legado espalhado, disseminado. 

É este o legado disseminado por Civita e pela Abril.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.