Coluna do Pedro Zambarda
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Por que ser de esquerda em 2017?

Experimente pesquisar "esquerda" no Google. O que a internet explica sobre a ideologia é distorcido e raso. Por isso, mais do que entender diferenças, é necessário saber exatamente o que se acredita, por que acreditar e por que não acreditar.

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Dei um Google antes de começar a bater este texto. Nas primeiras respostas da busca na internet estão três sites que considero de qualidade duvidosa, o Esquerda.net, o Esquerda Online e o Esquerda Diário, que chupinham artigos de outros lugares. Em seguida, um link para um dicionário online com o significado enciclopédico da palavra. Depois, um teste de vestibular do Portal UOL, um texto ideológico de direita do blogueiro Felipe Moura Brasil, da revista Veja, outro teste da revista Época e um artigo do Spotniks discutindo cinco ideias da esquerda que não fazem sentido na cabeça deles.

Esquerda não é isso. Sequer é necessariamente revolucionária. Vamos a ela.

Antes que alguém venha aqui falar sobre União Soviética, Cuba, China ou Coreia do Norte, esqueçam estes países. Antes que venham falar do velho economista e filósofo Karl Marx, deixemos ele um pouco de lado. A esquerda surge muito antes disso.

Assim como a Revolução Francesa, a esquerda política surge nos movimentos populares franceses de 1789 para contagiar o mundo todo. São os sans-culottes (sem calças, os pobres) e os jacobinos que se sentam no lado esquerdo da Assembléia depois da queda do regime totalitário de Luis XVI. À direita, ficavam os girondinos, burgueses e pequenos burgueses que também colaboraram para a queda da monarquia. Quando a revolução se radicaliza, os jacobinos ascendem ao poder, guilhotinam opositores e instauram o período conhecido como Terror. Ele seria derrotado pelos girondinos e por um general de fora da França: Napoleão Bonaparte.

Embora nem toda a esquerda seja revolucionária, seu início foi numa revolução. O segundo movimento que irá desenvolver o esquerdismo será o trabalhismo inglês, que embasou o Capital de Karl Marx em uma das críticas mais agudas ao capitalismo, gerando depois o livro Manifesto do Partido Comunista. E a ideologia se firma em diferentes segmentos, enquanto Paris vive movimentos temporários como as comunas.

A União Soviética, China, Cuba e Coreia do Norte vão surgir de movimentos inspirados nestas primeiras mobilizações. No primeiro caso, serão os trabalhadores do campo e as classes excluídas do czarismo russo que vão derrubar a monarquia e as igrejas, enquanto os chineses em sua revolução cultural darão poder ao Partido Comunista. Cuba sofreu uma revolução estudantil liderada pelo ex-direitista católico Fidel Castro que ganhou as páginas do New York Times ao sobreviver na selva com sua guerrilha. Tornou-se comunista sob influência de Che Guevara e após o embargo dos Estados Unidos, conseguindo apoio da União Soviética. Vietnã e Coreia do Norte teriam movimentos que dividiriam suas áreas, criando zonas fechadas ao capitalismo.

As revoluções do século 20 deram poderes aos pobres e aos burgueses que estavam fora da realeza, mas criaram castas burocratas que desenvolveram regimes autoritários. No começo do século 21, a Venezuela de Hugo Chávez desenvolveu autonomia em seu regime, mas está se tornando uma ditadura repressiva sob o sucessor Nicolás Maduro. A esquerda, tanto quanto a direita no imperialismo e nas colonizações das Américas e da África, criou assassinatos sistemáticos de opositores para se firmar como regime, com todas as ressalvas que possam ser feitas.

O muro de Berlim caiu no final dos anos 80, assim como o regime soviético. A sensação, nos anos 90, é que a direita havia vencido a discussão e o neoliberalismo viria se firmar como ideologia única valorizando apenas os interesses dos capitalistas. Os anos 2000, as guerras no Iraque e no Afeganistão, além da crise econômica inesgotável de 2008, mostram que as práticas do "Estado mínimo" se esgotaram.

A esquerda em 2017, portanto, tem uma oportunidade única de seguir como uma diretriz interessante a todos no novo revés. Mas não as esquerdas soviéticas, cubanas ou autoritárias de qualquer forma. A esquerda deve se firmar, sobretudo, no debate democrático e livre de ideias. E, não presa somente nas ideologias socialistas ou comunistas (já explicadas rapidamente neste texto), o esquerdismo hoje se filia fortemente ao Estado de bem-estar social que começou a se erguer na Europa com a União Europeia.

Os protestos do 99% contra os 1% em Wall Street nos Estados Unidos, as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil que foram sequestradas pela direita para o golpe contra Dilma, além de segmentos da Primavera Árabe e de outros protestos são a esquerda de fato hoje, junto com grupos anarquistas, descentralizados e digitais.

Por que ser de esquerda em 2017?

Mais do que anticapitalista, a esquerda atualmente é debatedora de ideias e questionadora de dogmas que se provam cada vez mais errôneos, como a concentração de renda. Longe de entender o Estado como usurpador, a esquerda enxerga o governo como instrumento de distribuição de renda, junto com outras camadas da sociedade, via impostos ou ferramentas de democratização de acesso.

Ao contrário do que direitistas extremos dizem, a esquerda em 2017 é o que há de mais moderno na crítica político-econômica. 

E pensá-la hoje é vital.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

Nesta sexta-feira (20), o magnata Donald Trump assume como 45º presidente dos Estados Unidos. Para além do triunfo do Partido Republicano e discursos sobre a tal "pós-verdade", o duelo de verdade se dará na mídia, que definirá o futuro do maior império dos séculos 20 e 21 até o momento.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump
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O dicionário Oxford definiu o termo "pós-verdade" como palavra do ano de 2016 em novembro do ano passado. A expressão está diretamente relacionada com a vitória de Donald Trump em cima de Hillary Clinton na corrida pela presidência na Casa Branca. E a vitória do candidato republicano rejeitado pelo partido aconteceu quando todas as pesquisas de intenção de voto apontavam vitória com folga da herdeira política do ex-presidente Bill Clinton.

A eleição de Trump foi a eleição do Facebook, das redes sociais e dos memes. O BuzzFeed News analisou 40 notícias sobre as eleições norte-americanas em três meses e constatou que as falsas tem mais alcance do que análises verdadeiras de veículos reconhecidos, como o New York Times. No Brasil, uma estatística similar pode ser vista nas eleições de Dilma versus Aécio, além da crise política que desembocou no impeachment da presidente.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

As mentiras favoreceram Donald Trump diretamente. Obama "foi o pior presidente da história". Obama "tem ligação com grupos islâmicos". E muitas outras. No entanto, no mar de falsidades e factoides fabricados pela Fox News, emissora abertamente de extrema-direita e favorável a Trump, uma informação real pegou: Os emails que mostravam que a candidata Hillary Clinton teria manipulado dados sigilosos enquanto era Secretária de Estado. Foi objeto de denúncias do WikiLeaks, site de Julian Assange, de uma investigação do FBI e do noticiário do próprio New York Times.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

Suspeita-se que Assange teria vazado as informações a pedido de Vladimir Putin, chefe de Estado russo suspeito de ter interferido nos resultados eleitorais. Agora, com Trump prestes a assumir como presidente na Casa Branca, o BuzzFeed, favorável a Hillary nas eleições, vazou um documento sem crédito que acusa o republicano de ter feito "golden shower" (feito xixi) num hotel em que Obama se hospedou. A gravação da baixaria feita com garotas de programa na cama em que o ex-presidente e a primeira dama dormiram estaria em mãos de Putin.

Com tantas conspirações e ataques por diferentes lados, Donald Trump não respondeu perguntas da rede de TV CNN, uma das que propagou a história do BuzzFeed. Alegou que a rede era de "notícias mentirosas" e que era "terrível".

Trump está certo em criticar uma imprensa que se posiciona politicamente como oposição a ele, especialmente quando ela não tem como provar as acusações que faz.

No outro sentido, a mídia norte-americana mainstream, favorável a Barack Obama, também está no direito dela em 'atacar' Donald Trump.

Quem ataca indiscriminadamente Barack Obama ou Hillary Clinton esquece com uma frequência preocupante que as guerras do Afeganistão e do Iraque aconteceram graças a dois mandatos do republicano George W. Bush. Na época, a mídia em peso deu prestígio ao presidente para cometer os piores atentados aos direitos humanos no Oriente Médio em troca de uma suposta perseguição a Osama Bin Laden. O resultado das políticas da era Bush, que não afrouxaram o quanto deveriam com Obama, foi justamente a criação do Estado Islâmico (ISIS), a disseminação de tropas mercenárias na região (Blackwater), a destruição de civis no Afeganistão e no Iraque, além da crise síria e turca que não termina graças ao embate com os interesses petrolíferos e políticos da Rússia na região. A mídia mainstream americana, embora seja tradicionalmente governista, mudou de posicionamento ao entender, pelo menos em parte, que aquelas guerras não deveriam ter ocorrido naquela região e daquela forma. E o terrorismo islâmico tornou-se justificativa para episódios de terrorismo provocados pelos próprios norte-americanos.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

O surgimento do Huffington Post em 2005, que depois daria origem ao BuzzFeed, foi uma reação da oposição democrata ao stablishment que permaneceu republicano na gestão Obama.

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

E neste contexto, surge Donald Trump como um aventureiro viável eleitoralmente. Depois de perder disputas com moderados como John McCain e Mitt Romney, o Great Old Party (GOP, ou Partido Republicano) se ergueu com um empresário bilionário que se sustenta em discursos xenofóbicos e reacionários. É praticamente todo um retrocesso de um debate que estava sendo vencido contra a herança Bush.

É como se, ao invés de dar ouvidos à Al Jazeera que foi um dos veículos a fazer a melhor cobertura dos casos do Oriente Médio, os Estados Unidos dessem a voz da razão novamente à Fox News.

Por este motivo, o campo de batalha das narrativas e da política em si será travado no "Quarto Poder" americano: A mídia. 

Donald Trump está certo em criticar a mídia. Mídia está certa em 'atacar' Trump

Trump está certo em cobrar a imprensa para que falem a verdade, não importa quem seja o assunto em voga. E a imprensa tem seus motivos políticos para confrontar um novo presidente que foi eleito a partir de mentiras que existem desde 2001, quando as Torres Gêmeas foram derrubadas em Nova York.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.