Coluna do Pedro Zambarda
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Por que votarei em Lula e não sou "malufista de esquerda"

Considerações sobre 2018.

Por que votarei em Lula e não sou "malufista de esquerda"
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O jornalista Márcio Juliboni começou seu espaço "Brasil: manual de instruções" com o texto "Preparem-se para os malufistas de esquerda". Leiam. É um bom texto. 

Márcio será um forte contraponto a esta coluna de centro-esquerda no Storia.

O argumento central do jornalista é que, depois de abandonar a bandeira da ética com escândalos do Mensalão e do Petrolão, o PT irá para as eleições presidenciais de 2018 com o ex-presidente Lula como candidato e há o risco dele ser preso antes de oficializar sua corrida ao Planalto. A lógica de Márcio Juliboni, relembrando as eleições para prefeitura e governo de São Paulo, é que esquerdistas vão se utilizar da mesma retórica que elegeu Paulo Maluf, notório político corrupto.

Márcio, no entanto, faz algumas considerações que valem nota para o meu próprio texto. Uma delas é esta aqui:  "sem o discurso da ética, entraremos numa eleição de 'políticas de resultados'. Quem inseriu mais gente no mercado de trabalho? Quem aumentou mais a renda e diminuiu a desigualdade? Quem promoveu mais políticas de inclusão? Quem se preocupou mais com as questões de gênero? Nesses quesitos, os números pendem a favor do PT. Não adiantará dizer que a prosperidade econômica de seus governos foi sustentada artificialmente pela expansão do preço das commodities agrícolas e minerais, graças ao acelerado crescimento da China nos anos 2000. Também não significará nada alertar que a crise fiscal que vivemos atualmente é cria da gastança desenfreada de quem governava como se não houvesse amanhã".

O autor aponta o que a lógica das pesquisas Datafolha já exibem: as políticas do Bolsa Família, do Mais Médicos e de programas sociais educacionais tendem a jogar Luiz Inácio Lula da Silva na frente das pesquisas. O que ele acrescenta é que, do ponto de vista da política fiscal e da macroeconomia, o governo do ex-presidente e de Dilma Rousseff foram responsáveis pela gastança pública desenfreada que gerou uma inflação explosiva e as políticas recessivas do ex-vice Michel Temer.

O raciocínio tem sua dose de razão, mas desconsidera o próprio papel do PMDB como mentor da crise e como o PT, de maneiras escassas é verdade, retardou a quebra econômica que poderia ter começado entre 2012 e 2013 para explodir de verdade somente em 2015.

O "malufismo de esquerda" seria, portanto, a reconstrução do "rouba, mas faz". No entanto, não há ainda uma condenação em primeira instância envolvendo o ex-presidente Lula. Não há condenações específicas para Dilma Rousseff. Há políticos do PT presos e outros que estão sendo soltos, mas, na esfera criminal, o partido com figuras mais afetadas ainda é o PP, enquanto o PMDB é o novo holofote da Lava Jato.

É verdade que o PT enxerga a Lava Jato como "inimiga". Mas é um reducionismo conceitual pensar que a esquerda tolera crimes. A questão dela, ao optar por apoiar uma candidatura Lula, tem muito mais a ver com mudar o direcionamento econômico para que, nos cortes, não se prejudiquem programas sociais.

Eu pessoalmente não condeno quem votou em Aécio Neves em 2014. Havia, na campanha, motivos claros para muitos eleitores enxergarem nele uma mudança da diretriz econômica com Dilma. No entanto, assim como ocorreu com ela, a impressão que se tem é que Temer nos jogou num abismo tanto econômico quanto social. E se precisar de Lula para reajustar o direcionamento, acredito que muitos votos irão para ele.

Até 2018, o discurso moralista contra Lula baterá forte. Se ele for condenado, não poderá concorrer e ponto final. Nos círculos petistas, só se discutem alternativas se ele de fato for descartado. Caso tudo permaneça como está, ele é poderoso na concorrência, assim como Jair Bolsonaro cresce com seu extremismo na direita.

Entre Lula e Bolsonaro, minha escolha é óbvia.

A questão é que Lula me parece mais preparado do que Marina Silva, que só aparece em período eleitoral, e me parece uma opção muito melhor do que João Doria Jr., que está fazendo uma má-gestão assombrosa da cidade de São Paulo, e do que Geraldo Alckmin, governador com traços autoritários.

José Serra eu nem considero sério na disputa. Sérgio Moro e Joaquim Barbosa candidatos seriam uma aventura insana no atual cenário brasileiro. Enquanto isso, Ciro Gomes me parece pequeno e muito inclinado a polêmicas fáceis.

Com o esvaziamento político vigente hoje, Lula ainda me parece a melhor alternativa. 

Muitos jornalistas preferem não declarar voto. Eu declaro e aqui estão as minhas razões para tal.

Paulo Nogueira, DCM e sua herança de mídia democrática no Brasil

Breves considerações sobre o criador do Diário do Centro do Mundo, que trabalhou na Folha de S.Paulo e Veja, editou Veja São Paulo, dirigiu EXAME e criou as revistas VIP, Época São Paulo e Época Negócios.

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Os detratores de Paulo Nogueira o chamaram de "petista" até sua morte na noite do dia 29 de junho de 2017, aos 61 anos. Duro nos posicionamentos editoriais e políticos, é dele a criação do Diário do Centro do Mundo (DCM) em 2009 - primeiro como uma coluna de correspondente em Londres na revista Época (dai vem o nome "centro do mundo") e depois como um site hardnews de posicionamento claro de esquerda. Não o perdoaram. Por analogias críticas mordazes, Paulo foi acusado de ser o "Reinaldo Azevedo esquerdista", de fazer "jornalismo marrom" e de ter um "blog sujo".

O fato é que o DCM defendeu claramente os governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff por programas sociais como Bolsa Família, ProUni e outros, que tiraram mais de 30 milhões de pessoas da linha da miséria no Brasil. Nas eleições de 2014, o DCM apoiou e elegeu Luciana Genro, do PSOL, personalidade do ano do site. Hoje a página critica ela. O posicionamento do Diário foi contra os grandes grupos de comunicação brasileiros, notadamente Abril, Globo, Folha e Estado, que ganharam vigorosos financiamentos na era Fernando Henrique Cardoso. O DCM também fez eco com a mídia próxima das esquerdas no geral, incluindo Carta Capital, Caros Amigos, Conversa Afiada, Brasil 247, Portal Vermelho, Revista Fórum, GGN (Luis Nassif), Opera Mundi, Outras Palavras, Ponte Jornalismo, Jornalistas Livres e Mídia Ninja.

O posicionamento de Paulo Nogueira contrastou porque ele trabalhou por 10 anos na revista Veja, a maior publicação liberal e de direita no Brasil. Não bastasse isso, dirigiu EXAME nos anos 90, elevando o padrão da revista que passou a apoiar abertamente políticas neoliberais, e, como diretor superintendente, reformulou as revistas Superinteressante, Placar, Quatro Rodas e Playboy. VIP foi sua criação nesta época. Entre 1997 e 1998, Paulo defendeu a candidatura de FHC à reeleição. Hoje o seu DCM faz reportagens apurando a corrupção de Fernando Henrique naquele tempo.

Depois, sem chegar à direção da revista Veja ou até posições superiores dentro da Editora Abril, Paulo foi até a Editora Globo e se tornou seu diretor. Reformulou a revista Época e lançou mais duas: Época São Paulo (hoje fechada) e Época Negócios (concorrente da EXAME).

Não há contradições na mudança ideológica de Paulo Nogueira. Há uma visão de mundo específica e um instinto para captar necessidades de mercado.

Paulo tornou-se correspondente em Londres na mais severa crise econômica global, a de 2008, que afetou os Estados Unidos e a Europa. A crise permanece e quebrou a hegemonia do pensamento neoliberal de Estado mínimo. O FMI hoje em dia já cogita ajuda estatal para salvar nações falidas graças a uma epidemia causada pela quebra do mercado imobiliário norte-americano e a quebra do banco Lehmann Brothers, hoje resgatado após a presidência Barack Obama. Paulo Nogueira estava atento a estes movimentos, cobriu os protestos de rua e trouxe sua experiência ao Brasil.

Ele detectou que faltava um veículo de esquerda 100% digital e dedicado a grandes reportagens. O DCM nasceu desta ideia, guiado por princípios ideológicos de países como Finlândia, Suécia, Noruega e outras nações escandinavas que vivem uma mistura de capitalismo e poder público/estatal fortalecido. Algo que foi tentado, parcialmente, por governos petistas no Brasil.

O DCM é um produto coerente em sua proposta e, de acordo com o irmão Kiko Nogueira, o novo diretor do site, foi o período que Paulo mais gostou de trabalhar. 

Livre das grandes empresas, criticou patrões e métodos arcaicos de jornalismo, sobretudo da televisão aberta sob a Globo e da mídia de papel.

Em diferentes textos e entrevistas, Paulo Nogueira se dizia admirador de Arianna Huffingon, a criadora do Huffington Post (hoje HuffPost). De origem grega, ela foi conservadora nos anos 90 e casada com o político republicano Michael Huffington. Hoje, Arianna se converteu aos ideais das lutas de minorias LGBT nos Estados Unidos, a uma nova esquerda ativista e aos ideais do Partido Democrata, que são os mais progressistas dentro do grande jogo político norte-americano.

Paulo seguiu o mesmo caminho. Não teve medo de mudar de ideia e consolidar a real mídia democrática, de oposição ao discurso mainstream. E fez isso com as ferramentas que aprendeu na grande mídia.

Fará falta. Já faz, mas vive nos inúmeros jornalistas que formou.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.