Coluna do Pedro Zambarda
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Qual é o legado difuso de Roberto Civita, o "dono da banca"?

O que a história de um dos maiores "barões do papel" do Brasil deixa para futuras gerações? E o que ela explica sobre a Editora Abril hoje?

Qual é o legado difuso de Roberto Civita, o "dono da banca"?
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Comprei o livro no mês de lançamento. Foram 534 páginas lidas rapidamente. Barão de mídia? Golpista? Quem foi Roberto Civita? E no que se transformou a Editora Abril?

O livro de Carlos Maranhão é bom e presta um serviço importante: Sai da biografia chapa branca de Roberto para falar de Victor Civita e da cultura empresarial da Abril. A editora não surgiu em 1950, mas sim em 1947 através das mãos de César Civita, o irmão de Victor. A primeira publicação não foi o Tio Patinhas, mas um gibi argentino que vendeu pouco chamado Raio Vermelho. A razão por trás disso é que César saiu do Brasil para criar a Abril na Argentina, que se tornaria Editora Primavera. As curiosidades apuradas resultam num trabalho que agrada tanto quem ainda está na empresa quanto os críticos. Paulo Moreira Leite, que já foi o número dois da revista Veja e hoje é um dos diretores do Brasil247, resenhou a biografia apontando para as relações óbvias e agora documentadas entre Roberto Civita e Fernando Henrique Cardoso. Não é à toa, portanto, que a Veja se tornou o veículo de comunicação a se dedicar na crítica contumaz e aos ataques a Lula. Havia uma relação próxima entre o dono da Abril e o grão-tucano do PSDB.

Entre os críticos, no entanto, é igualmente bom o texto de Mino Carta publicado em janeiro deste ano na revista Carta Capital. Embora chame Maranhão de "bajulador" do chefe, ele revela como tinha uma relação próxima com Dorrit Harazim e Elio Gaspari. Mino defende a tese de que se demitiu da Abril para que a editora conseguisse um empréstimo milionário da Caixa Econômica Federal. Era ditadura militar e a revista Veja sofria censura intensa porque nasceu com vocação de ser antigovernista.

Roberto, nos depoimentos de Carlos Maranhão, diz que demitiu Mino Carta. Diz que a fama dele era de "Napoleão Bonaparte", pelo pulso firme que exercia na redação. O fato é que, acreditando em uma versão ou outra, Maranhão diz que Roberto Civita passou a exercer força pessoal nos rumos da Veja fora das mãos de Mino. Eu trabalhei na Editora Abril por mais de dois anos. Roberto só ia nas reuniões de pauta das revistas Veja e EXAME. Eram as publicações mais próximas do "poder": A política e a economia.

Mas a narrativa da biografia não toma partido somente de Roberto e deixa claro que, em diferentes momentos, ele admirava Mino Carta e não respondia aos seus ataques devido a este respeito. Para muitos que não sabem, os Civita e os Mesquitas eram rivais nos anos 60. Giannino Carta, o pai de Mino, modernizou o Estado de S.Paulo. Roberto achava que Mino faria isso na Veja e de fato reconheceu que seu trabalho na criação na primeira semanal de informação foi crucial. Mino Carta então deixou de trabalhar para "barões da imprensa", criando com Domingo Alzugaray a ISTOÉ. Por novos desentendimentos, saiu e fundou a sua própria Carta.

Antes disso, tinha criado o caderno de esportes do Estadão e a revista Quatro Rodas. Tornou-se esquerdista convicto com o assassinato de Vladimir Herzog na ditadura. E todas as histórias de Mino Carta encaixam perfeitamente no enredo de Roberto e da Abril.

Roberto Civita, embora fosse liberal nos moldes norte-americanos - o que o fez cultivar um sotaque gringo bizarro até o fim da vida -, criou uma redação com esquerdistas como foi o caso da revista Realidade. Abandonou o projeto porque a Veja tinha pretensões de bater a revista TIME. Chegou perto. Teve uma empresa com 10 mil funcionários e mais de 50 revistas. Foi tanto publicitário quanto publisher, uma expressão americana para editor. Falava em separação entre "Igreja" (jornalismo) e "Estado" (publicidade). Tinha, na verdade, um bom olhar para os dois, herdado pelo pai.

Mas o maior acerto da biografia de Carlos Maranhão foi elencar os fracassos de Roberto. Numa tentativa de competir com o império da TV Globo e da família Marinho, próximos dos generais da ditadura e dos governos democráticos, fez a TVA e a Direct TV. Apostou pesado na televisão por assinatura, acreditou que funcionava como as assinaturas da Veja e perdeu feio.

A Abril também tinha 50% do que hoje é o Portal UOL, da Folha de S.Paulo. Não investiu o suficiente e perdeu o bonde da internet.

Próximo da morte, Roberto Civita tentou lançar todas as suas revistas digitalmente e nos tablets, apostando forte numa plataforma chamada iba. Não deu muito certo. E a sua revista Veja, cada vez mais, adotou um tom extremo contra o PT e contra as esquerdas. Cativa leitores de uma faixa etária mais velha. Afasta muitos que são novos.

Editora Abril já foi sinônimo de frescor e juventude. Victor Civita, o pai, criou os fascículos e conquistou as bancas. Roberto criou títulos com solidez. A Abril tinha a MTV. Tinha a revista Playboy. Foi perdendo seus galhos. Ainda não desapareceu, mas é uma empresa que precisa se reinventar e ainda insiste em fórmulas comprovadamente antigas.

Legado difuso é uma expressão que pode significar legado confuso. Mas também trata-se de legado espalhado, disseminado. 

É este o legado disseminado por Civita e pela Abril.

Mendigo Gerson: Como Doria usa pobres para fazer marketing?

Um post com milhares de compartilhamentos. Uma campanha chamada "Cidade Linda". Como o populismo de direita do novo prefeito João Doria Jr. usa os pobres? Tudo acontece a poucos da Prefeitura de São Paulo

Mendigo Gerson: Como Doria usa pobres para fazer marketing?
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Gerson Araújo da Silva tem 41 anos, é mendigo e mora na Rua Libero Badaró, ao lado da Prefeitura de São Paulo. Ele ficou famoso no dia 13 de janeiro de 2017. Tirou uma foto apertando a mão de João Doria Jr. Os opositores de esquerda chamaram ele de "mendigo fake". Foram mais de 180 mil curtidas e 40 mil compartilhamentos.

Basearam-se em preconceitos para dizer que ele era um mendigo pobre "fabricado por Doria".

Gerson é real. Saiu de casa aos 8 anos porque seu pai batia muito na minha mãe. Morou num convento de freiras e está na rua desde os 12 anos. Faz tratamento psiquiátrico, toma medicamentos e diz que hoje se sente bem. Deu entrevista pra Globo, pro SBT, pro Pânico e pra revista Veja. "Mas só você foi repórter de verdade e veio me ouvir por mais tempo", disse. Acreditei. Estava numa pauta pelo DCM, que saiu um dia antes da Veja São Paulo. 

A novidade que apurei, e está documentada nas minhas gravações, é que Doria tinha prometido um almoço para Gerson. "O prefeito nunca cumpriu essa promessa". Na semana que fiz a entrevista, era verão e chovia forte em São Paulo. Poucos dias depois, saiu uma decisão da Prefeitura que a GCM poderia retirar as cobertas dos mendigos e dos sem-teto.

Perguntei a Gerson se ele tinha vontade de processar João Doria Jr. por ter tirado uma foto sem sua autorização para divulgar a Prefeitura, além de não pagar o almoço. Ele disse que sim, mas preferia não fazer isso porque envolve muito dinheiro. E ele está certo.

Antes de Gerson, Doria se vestiu de gari e de pedreiro. Depois de Gerson, Doria se vestiu de cadeirante. Ele mora nos Jardins, tem uma mansão em Campos do Jordão e não poupa no marketing que simula a campanha eleitoral.

O novo prefeito de São Paulo brinca de ser pobre. E usa os pobres. 

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.