Coluna do Pedro Zambarda
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Qual foi o legado de José Serra no governo Temer?

Grão-tucano, José Serra foi ministro das Relações Exteriores do governo Michel Temer depois do impeachment de Dilma Rousseff. O que de fato ele fez como chanceler? Qual é o saldo final? Há um legado político de Serra na pasta?

Qual foi o legado de José Serra no governo Temer?
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Serra está com 74 anos, foi ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso, tentou duas vezes ser presidente contra Lula e Dilma (2002 e 2010) e saiu da pasta de Relações Exteriores do governo Michel Temer. Pediu demissão por problemas na coluna no dia 22 de fevereiro. 

À colunista Vera Magalhães, do Estadão, José Serra afirmou que o problema nas costas é "incapacitante" e que terá que fazer um tratamento de quatro meses. Sem provas, há quem diga que Serra já queria a demissão por não se sentir prestigiado. Outros avaliam que a queda de José Serra não é tão impactante quanto a de Geddel Vieira Lima, Marcelo Calero ou Romero Jucá. O tucano pode ajudar Temer a aprovar reformas no Senado, enquanto Geddel e Jucá caíram denunciados na Lava Jato - e Calero desembarcou dedurando o próprio presidente da República.

O intuito desta coluna, no entanto, não é especular as razões sobre a saída de Serra e sim tentar explicar o que ele fez, de fato, ao lado de Temer após o golpe.

Qual foi o legado de José Serra no governo Temer?

Foi contra a eleição da Venezuela para liderança do Mercosul. Serra foi declaradamente anti-Nicolás Maduro desde sua posse. Considera o governo local uma "ditadura bolivariana" e rompeu laços que foram constituídos com o país na gestão Hugo Chávez. Tentou também tirar influência de votos de Caracas dentro do Mercosul.

Maior proximidade com Maurício Macri, da Argentina. Numa manobra anti-Cristina Kirschner, apoiou o governo de austeridade que domina a economia argentina. De quebra, se aproximou com a administração Barack Obama. O problema? Quem ganhou foi Donald Trump e não Hillary Clinton, a sucessora de Obama.

Fechou embaixadas na África e no Caribe. A medida foi avaliada como positiva do ponto de vista da gestão financeira da pasta, mas foi mais um retrocesso do ponto de vista da expansão diplomática promovida nos anos do PT no poder.

Reuniu-se com Joe Biden, vice de Obama. Mas nada de Trump. Se Serra pretendia se aproximar dos Estados Unidos, fracassou. Celso Amorim e Lula foram mais bem-sucedidos com George W. Bush.

Fez homenagem aos mortos da tragédia do Chapecoense e muitos discursos públicos. Ao que tudo indica, José Serra não pretendia ser apenas um bom ministro. Gostaria de ser um candidato forte à presidência, de novo. Nos bastidores, comentava-se até que ele poderia abandonar o PSDB pelo PMDB se Temer o ajudasse.

O jornalista Luis Nassif e o site Portal Vermelho apontam que, de fato, Serra parecia ter problemas físicos para continuar no cargo. Professores da PUCSP consultados em reportagens, no entanto, apontam que o legado serrista na pasta, diferente dos genéricos na Saúde, foi tímido.

Eu diria que José Serra deixou um legado inexistente no governo Temer. 

Buscando fazer política. 

“A manipulação nem sempre vem de cima”: diz Felipe Pena, do jornal Extra

Existe manipulação dentro da grande mídia? Conversei com um jornalista com experiência dentro de um dos maiores grupos de comunicação no Brasil.

“A manipulação nem sempre vem de cima”: diz Felipe Pena, do jornal Extra
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Ex-editor de análise de conteúdo na Rede Globo, o carioca Felipe Pena decidiu agir desde a queda do governo Dilma Rousseff. Nas redes sociais, ele toca um projeto chamado “Diário do Golpe” na coluna Contra A Corrente do jornal Extra (também da Globo), narrando todas as manobras e denúncias da presidência de Michel Temer.

Jornalista e psicólogo de formação, Felipe está na televisão desde 1995, quando entrou na hoje extinta TV Manchete. Passou depois por RedeTV, UTV, TV Comunitária, TVE Brasil e GloboNews. Atualmente é visiting scholar da NYU, autor de 15 livros, doutor em literatura pela PUC e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ele publicou um texto chamado abordando o novo “macarthismo brasileiro” e como a grande imprensa joga com o silêncio para impedir narrativas alternativas.

Felipe me contou como é ser um esquerdista dentro do maior grupo de comunicação no país, que manipulou o noticiário para fazer oposição a Dilma

E como pretende transformar seu “Diário do Golpe” em um livro.

Pedro Zambarda: Como você teve a ideia do Diário do Golpe?

Felipe Pena: Tive no dia 13 de maio, quando o golpe se concretizou. Achei que deveria deixar registrado o cotidiano do governo ilegítimo, elencando algumas atitudes que evidenciassem o retrocesso social e político que sofremos. A ideia é que o registro sirva para orientar pesquisas sobre o tema.

Pretendo escrever um livro sobre o assunto, tomando por base os conceitos difundidos pela Nova História, conforme as sistematizações de autores como Le Goff, Lacouture e Braudel.

Nessa teoria, o elemento mais proveitoso para a atividade jornalística é a implementação de uma nova atitude em relação ao evento, que obrigue a ler a partir de seus pressupostos de formação. Isto quer dizer definir métodos, reavaliar fontes, escolher unidades de observação, estabelecer relações entre os elementos e chegar a modelos de estudo sem deixar de considerar as múltiplas variáveis. Quem sabe o diário sirva para essa longa duração e possa ser bem utilizado no futuro. No presente sua função é uma só: A denúncia.

PZ: Você tem uma visão de esquerda e progressista. Como é tocar um blog como o Contra a Corrente no jornal Extra ou atuar na GloboNews?

FP: Na GloboNews eu nunca fui censurado e sempre tive liberdade para fazer minhas pautas. Mas não sou chamado para fazer comentários há oito meses, desde dezembro de 2015. Não sei se há interesse no que eu tenho para dizer.

Porque, se me convidarem, meus comentários irão na contramão do senso comum e na contramão do pensamento da maioria dos outros comentaristas, mas não todos. Talvez seja desconfortável para emissora, né?

Por outro lado, a divergência poderia poderia produzir um bom debate, então é lamentável que o espaço não seja aproveitado para isso. Já no Extra, que é um jornal mais popular, tenho liberdade total.

PZ: No jornal, você fala do "macarthismo brasileiro" e o silêncio que produziu. O Extra é da Globo. A empresa não foi responsável por isso?

FP: Creio que todos seus leitores e os do DCM concordam com isso, inclusive eu. Mas gostaria de propor uma reflexão mais profunda. Para isso, tomo por base a teoria organizacional, de Warren Breed.

Acho que o termo "manipulação" é simplista. Ele obviamente existe, mas, muitas vezes, a ordem para manipular a notícia não vem de cima. Há uma introjeção da cultura do veículo por parte dos profissionais. E alguns querem ser mais realistas que o rei. E tem muito puxa-saco no mundo.

Para Warren Breed, o contexto profissional-organizativo-burocrático exerce uma influência decisiva nas escolhas do jornalista. Sua principal fonte de expectativas, orientações e valores profissionais não é o público, mas o grupo de referências constituído pelos colegas e pelos superiores na redação. O jornalista, então, acaba socializado na política editorial da organização através de uma lógica de recompensas e punições. Em outras palavras, ele se conforma com as normas editoriais, que passam a ser mais importantes do que as crenças individuais.

PZ: Sendo doutor em literatura pela PUC e autor de 14 livros, como você enxerga o projeto de "Escola Sem Partido"?

FP: Esse projeto é uma consequência nefasta do domínio que a direita tem no Congresso, organizada em torno da bancada BBB - do boi, da bala e da bíblia. Essa proposta não é nova, porque o movimento foi criado em 2004, e só agora reúne condições políticas para seguir em frente. Corremos o enorme risco que corremos de retroagir aos tempos da República Velha.

"Escola Sem Partido" é um projeto covarde porque carrega uma estratégia de dominação totalitária, de manipulação do medo preconceituoso da classe média, de imposição de uma visão de mundo, sem crítica e sem direito à diversidade. Querem impedir que se discuta questões de gênero, de classe e de etnia. Isso não é escola, é fábrica de robôs. A educação só existe na crítica.

Além do projeto tramitando em âmbito nacional, nove outros em diferentes estados e no distrito federal, além de inúmeros municípios. O projeto já foi aprovado no estado de Alagoas, embora o governador tenha vetado e esteja em discussão na Assembleia Legislativa. Foi aceito também nos municípios de Picuí (Paraíba), Santa Cruz do Monte Castelo (Santa Catarina) e Campo Grande (Mato Grosso do Sul).

PZ: A falta de ideologia na educação e na comunicação cria monstros?

FP: Há um item no projeto "Escola Sem Partido" que se chama "flagrando o doutrinador". Ele é, claramente, um criador de monstros, por dois motivos principais: Primeiro porque trata o professor como um criminoso que corrompe jovens inocentes; segundo porque incentiva esses mesmos jovens a denunciar seus docentes. Essa prática só existe em ditaduras. Ou seja, querem criar verdadeiros inquisidores medievais.

A consequência imediata da aprovação do PL 867/2015 será a legalização das fogueiras para punir os professores. Seremos todos considerados bruxos, hereges e infiéis. A Idade das Trevas está voltando com força.

PZ: Tem algo que você gostaria de comentar a mais?

FP: Queria falar sobre a importância da imprensa alternativa. Não há mais lugar para narrativas que privilegiam grupos e dão poder a corporações. O público começa a perceber a manipulação e a cultura corporativista. Seja no campo estético, seja no político, as vozes marginalizadas se levantam. Os discursos já não são autônomos e a ação comunicativa já não se faz por transferência, e sim por ressonância. 

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.