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Sobre os ataques da revista Veja à família de Lula

Breves considerações sobre a capa da semanal dedicada ao depoimento de Lula diante de Moro, mencionando a ex-primeira-dama Marisa Letícia.

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Na biografia de Roberto Civita, "O dono da banca", o jornalista Carlos Maranhão descreve uma conversa tensa entre o patrão e o diretor da revista Veja, Eurípedes Alcântara, na época a repeito da capa sobre Lulinha. Para Roberto, bater no filho de Lula poderia ser demais por afetar, justamente, dona Marisa Letícia, a mãe, e a família. 

O diálogo está entre as páginas 413 e 414 do livro. Reproduzo.

"Roberto, desde o início, foi contrário à publicação. 'Qual a lógica de arrumarmos um inimigo eterno?', indagou para Eurípedes ao ser informado da pauta. 'Não só o Lula, mas a mulher e a família. Qualquer mãe se transforma em uma leoa na hora de defender o filho. Dona Marisa vai nos odiar para sempre'. Chegou a lembrar de uma reportagem que a revista dera anos antes sobre a casa que o filho de Fernando Henrique Cardoso havia comprado no literal da Bahia. 'Dona Ruth nos ligou enfurecida, parecia uma onça protegendo a cria', disse. Foi então ao ponto: 'O que acontece se não demos?'. Eurípedes lhe respondeu: 'Se não dermos, vamos varrer a sujeira para baixo do tapete. Lula afirma que o filho é um gênio nos negócios, e sabemos que não é. Não se pode deixar o presidente da República mentir com uma declaração como essa'. Roberto não se convenceu. Da mesma forma como não descia à redação para ver antecipadamente a capa, ele poucas vezes lia um texto antes da publicação. Naquela quinta, pediu que a matéria lhe fosse entregue tão logo estivesse pronta".

A tensão não ficou apenas na discussão sobre a capa. Estendeu-se às responsabilidades do dono da Editora Abril e do diretor da Veja.

"Voltou com a cópia dentro de uma pasta de papéis que costumava carregar embaixo do braço. Eurípedes estava reunido com os editores executivos quando ele entrou na sua sala. Todos saíram. 'A matéria tem pouca coisa nova', disse Roberto. 'Tem mesmo, mas precisamos dar', afirmou Eurípedes. 'Eu preciso entender. Como publisher, preciso entender qual é a lógica de fazermos isso', insistiu. 'Primeiro, porque é tudo verdade', argumentou Eurípedes. 'Depois, porque ele nos levantou a bola ao comparar o filho com o Ronaldinho. A responsabilidade é minha, inclusive do ponto de vista jurídico'. Roberto balançou a cabeça: 'Acho um erro, mas, se você entende que a matéria é adequada, eu respeito'. Ao encerrar a conversa, fez uma observação que Eurípedes não interpretou como uma ameaça e sim como a forma de o chefe se expressar em uma situação tensa como aquela. 'Não vou tirar a capa', disse. 'Eu não mudo capa. Eu mudo diretor'".

Na mesma biografia, Roberto trata Eurípedes Alcântara praticamente como um "filho", diferente do tratamento mais distante diante da dupla José Roberto Guzzo e Elio Gaspari, ou dos atritos com Mino Carta, ou mesmo da mágoa que nutriu de Mario Sergio Conti pelo livro "Notícias do Planalto". De todos os diretores de redação da Veja, considerou Eurípedes seu favorito até o fim da vida - talvez por alinhamento ideológico, porque os Civitas nunca gostaram de Lula e menos ainda de um quadro político importante do PT, José Dirceu.

Mas Roberto não queria criticar Lula por sua família e sim pela pessoa dele.

O tempo passou, Roberto Civita morreu, Marisa Letícia morreu e Eurípedes já não é mais diretor de redação. No entanto, se foi o novo diretor André Petry (visto como mais moderado) ou os filhos de Roberto - Giancarlo e Victor Civita Neto -, a capa da Veja que usa a morte de Marisa contra Lula rompe qualquer barreira ética.

O depoimento do ex-presidente diante do juiz Sérgio Moro tem duração de mais de 4h30. O trecho que a ex-primeira-dama é mencionada não dura sequer 10 minutos. Sim, Lula fala que Marisa queria comprar o triplex, mas diz no começo do depoimento que gostaria que o nome dela fosse retirado do processo e que está sensível a respeito de assuntos que a envolvem. Ele não culpa ela e insiste que não e dono do imóvel porque não há assinatura dele ou da ex-esposa.

Tem dúvidas sobre isso? Se você acha que Lula utilizou a própria ex-esposa para se defender das perguntas do juiz Moro, sugiro a leitura do meu texto factual sobre a audiência.

A capa da Veja que fala da "morte dupla de Marisa Letícia" não é jornalística. 

É só repugnante.

E justo na semana do Dia das Mães.

O depoimento de Lula ao juiz Moro em 10 pontos

O dia de 10 de maio de 2017 foi histórico pelo primeiro encontro, frente a frente, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o juiz de primeira instância Sérgio Moro em Curitiba. O depoimento foi de mais de quatro horas, quase cinco. É necessário resumir seus principais pontos.

O depoimento de Lula ao juiz Moro em 10 pontos
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Diferente de outros textos desta coluna, este texto não será opinativo, mas sim um resumo em 10 pontos do depoimento de Lula diante do juiz Sérgio Moro. É um texto factual.

O autor ouviu as quase cinco horas de gravação disponibilizadas pela Justiça para fazer o resumo a seguir.

1 - O processo abordado no depoimento de 10 de maio é referente a três operações envolvendo a construtora OAS, a Petrobras e o triplex no condomínio Solaris no Guarujá, em São Paulo. O enfoque de Moro foi questionado em inúmeros momentos pelos advogados Cristiano Zanin Martins e José Roberto Batochio quando ele fez perguntas englobando o sítio de Atibaia atribuído ao ex-presidente. Isso foi fonte de atritos e discussões durante todo o depoimento.

2 - De acordo com o delator Léo Pinheiro, da OAS, as contas utilizadas para propina eram chamadas de "Zeca Pagodinho". Lula deu risada do questionamento sobre o uso do suposto dinheiro, que diz que soube pela imprensa.

3 - O tom do depoimento, apesar dos atritos sobretudo envolvendo advogados de Lula, da Petrobras e representantes do Ministério Público, foi pacífico entre o ex-presidente e o juiz. Embora Luiz Inácio Lula da Silva tenha questionado abertamente a suposta parcialidade de Sérgio Moro, o respeito entre as partes, objetivamente falando, foi mantido.

4 - Lula assumiu uma postura que pode ser considerada ousada e moralmente controversa a respeito das visitas ao triplex, ocorridas em agosto de 2014. Ele recontou a história da cota que dona Marisa Letícia recebeu da Bancoop em 2005, comprovou que ela solicitou o apartamento, questionou o tamanho dele para a família e reafirmou que não assinou documentos de posse. De fato, nem Moro ou o Ministério Público possuem documentos que comprovam que ele é o dono. E Lula colocou a operação nas mãos da ex-esposa falecida: "Ela desistiu da compra porque não gostava da praia". A imprensa deu como destaque no dia seguinte que ele jogou a culpa na defunta. Mesmo considerando a frase solta, ao analisar o depoimento com contexto ele se parece mais uma narração do que de fato foi feito. Ele defendeu-se colocando que não visitou o imóvel além do que foi registrado uma única vez, independente do julgamento moral do caso. Lula também declarou, em outra ocasião, que se sente afetado nas partes do processo que dizem respeito à falecida Marisa Letícia.

5 - A defesa de Lula frisou a relação entre a delação premiada do doleiro Alberto Youssef e os procedimentos do juiz Sérgio Moro no atual processo, além do vazamento considerado ilegal de conversas pessoais de sua esposa quando o ex-presidente quase se tornou ministro de Dilma. O ex-presidente fez uma ponte dos atuais procedimentos da Operação Lava Jato e a investigação do Banestado, escândalo público que sofreu pressões do governo Fernando Henrique Cardoso envolvendo o próprio Moro - fatos que foram admitidos por procuradores como o próprio Carlos Lima, hoje na Lava Jato.

6 - Numa parte muito questionada pela defesa, Moro reproduziu perguntas formuladas por ele e pela Força-Tarefa da Lava Jato para saber a opinião de Lula sobre o processo do Mensalão. O debate acabou em bate-boca.

7 - Lula explicou o processo de nomeações dentro da Petrobras, incluindo Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró e Renato de Souza Duque. Falou que as bancadas dos partidos indicam nomes que são direcionados ao ministro da Casa Civil (José Dirceu, na época). Disse que não tem controle pleno do processo, mas que os partidos fazem uma varredura para saber antecedentes dos executivos. Comentou sobre a indicação do PP de Roberto Costa e disse que a corrupção da Petrobras só se tornou pública de um grampo dele com o doleiro Youssef. Disse que não conhece Cerveró. Sobre a indicação de Renato Duque, feita pelo PT, afirmou que o questionou sobre corrupção - e que ele negou acusações.

8 - Lula questionou o fato de Moro se inspirar na Operação Mãos Limpas, que resultou na eleição de Berlusconi na Itália apesar da caça aos corruptos, e se declarou vítima do julgamento que é feito dentro da imprensa. Sérgio Moro relembrou que é "atacado" por blogs de esquerda.

9 - Lula questionou o fato de Léo Pinheiro falar que ele destruiu as provas de corrupção levando em conta a redução de penas significativa de delatores. Em diferentes momentos, o ex-presidente citou o fato do doleiro Alberto Youssef ter sido beneficiado do procedimento. O contraventor permaneceu preso em torno de um ano na Lava Jato e agora foi posto em liberdade condicional com tornozeleira.

10 - Os vazamentos seletivos para veículos como Antagonista e a própria Globo foram assunto entre a acusação e a defesa. Na ocasião do depoimento, Moro proibiu a entrada de celulares. O Antagonista continuou dando informações e detalhes antes das 19hrs, momento do fim da gravação. Os veículos que seguiram a divulgação oficial, como o jornal O Estado de S.Paulo, publicaram textos e vídeos a partir de 19h30.

Assista todos os vídeos e tire suas conclusões.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.