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Vladimir Safatle e o "combate sem trégua" ao fascismo BR

Um dos colunistas da esquerda mais eloquentes e sensatos da imprensa brasileira, com proximidade óbvia com o PSOL, Safatle atacou o candidato Jair Bolsonaro. Mas há uma lógica coerente em sua coluna afiada na Folha de S.Paulo.

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Tive aulas por três semestres com o professor de filosofia Vladimir Safatle na USP. Estudei música, filosofia contemporânea francesa (Deluze) e Theodor Adorno. Posso dizer que suas aulas foram fundamentais na minha formação, considerando a originalidade do pensamento e a ideia de se estudar o todo e não apenas o fragmento do conhecimento.

Safatle sempre foi um crítico contumaz da política "conciliatória" do PT: Um misto de roubalheira do PMDB e acordos com a elite brasileira que permitiram quase quatro mandatos seguidos no governo federal. Adepto de uma esquerda globalista e sintonizada com os protestos contra Wall Street desde 2008 nos Estados Unidos, o professor sempre alertou para os perigos da radicalização da direita no Brasil.

Na sua coluna da Folha de S.Paulo publicada no dia 3 de março, Vladimir Safatle faz um ataque direto a Jair Bolsonaro, o principal beneficiado da pesquisa de intenção de voto para 2018 da CNT/MDA junto com Lula.

O filósofo diz:

"Uma leitura mais detalhada da pesquisa revela fatos ainda mais surpreendentes. Bolsonaro é o candidato mais votado dentre aqueles que possuem ensino superior (20,7%) e aparece empatado com Lula na escolha dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5%)".

O argumento contradiz a espinha dorsal de colunistas como Reinaldo Azevedo e da chamada "direita liberal", mais de centro. Jair Bolsonaro não parece ser um fenômeno de direita populista, ligada aos mais pobres e menos escolarizados. Pelo contrário, o candidato parece próximo de estudantes, jovens adultos e cidadãos brasileiros escolarizados.

Safatle então relembra o significado clássico do fascismo, que veio do nacionalismo italiano se baseando na xenofobia exagerada e no belicismo. Bolsonaro é um dos poucos deputados na ativa que defende a ditadura militar, saudou um torturador no impeachment de Dilma Rousseff. Ele seria, portanto, um representante desta linha de pensamento totalitária de direita e, portanto, defensora dos valores do capitalismo convencional.

"Já há algum tempo, o termo fascista é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político. No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais", completa.

Vladimir Safatle ainda arremata concluindo que Bolsonaro é um exemplar do "culto à violência sistemática do Estado" e o conecta diretamente aos manifestantes verdes-amarelos que tiram selfies com a PM. "De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua".

O filósofo pede que a gente pegue em armas para combater este tipo de pensamento?

Como todo o bom pensador, a ideia não é meramente recorrer à ação direta. Mas sim dar a designação correta aos movimentos políticos em ascensão e alertar para os perigos reais deste pensamento.

A ditadura militar matou, no papel, 357 pessoas. O jornal Folha de S.Paulo, onde Safatle publica suas colunas, aumenta o número para 600. Há relatos de que, somente num hospício em Minas Gerais, 60 mil pessoas morreram.

Chile matou 40 mil pessoas. Argentina, 30 mil. Em plena Guerra Fria, naquela mentira do "capitalismo contra o comunismo".

Safatle não fala em pegar em armas. Mas parece que o fascismo de direita está de volta.

Reinaldo Azevedo está certo quando associa Jair Bolsonaro com a "direita xucra"

Depois de ataques machistas à Joice Hasselmann e de incluir até o cineasta José Padilha na lista da "direita xucra", "Tio Rei" deu uma dentro nesta semana ao falar de Jair Bolsonaro, novo ícone direitista.

Reinaldo Azevedo está certo quando associa Jair Bolsonaro com a "direita xucra"
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Reinaldo Azevedo não está acostumado a debates que saiam muito do discurso que faça referência a ele mesmo ou às opiniões pessoais de adversários políticos. No entanto, no post em seu blog na Veja publicado no dia 2 de março, ele fugiu um pouco da regra.

Diz o Reinaldão:

"Oponho-me, sim, à chamada lei que 'criminaliza' a homofobia ou a que pune o chamado 'feminicídio' por uma questão de lógica elementar, de filosofia do direito. Aceito debater o aumento da pena para homicídio, mas repudio esse direito pautado por ideologia de gênero, classe ou ofício. Sou um liberal, não um comunista. Sou um liberal, não um fascista".

O colunista da Veja e da Folha está elencando no texto os princípios do liberalismo clássico, a saber, Adam Smith e a "Riqueza das Nações" do século 18. Reinaldo faz uma discussão conceitual. O liberalismo, uma doutrina capitalista típica da direita, não deveria se alinhar com o fascismo e com governos totalitários. Na época de Smith, a burguesia se opunha ao Antigo Regime (feudalismo) e, portanto, era uma opositora do Estado autoritário de seu tempo.

E ele arremata, antes mesmo de analisar, logo no começo do texto:

"Quando olho a qualidade daqueles que se alinham contra mim nas redes sociais, tendo Olavo de Carvalho como o candidato a Virgílio do inferno, eu me dou conta dos meus múltiplos acertos. Não fossem os meus amigos quem são, não fossem tão queridos, eu teria hoje em dia mais razão para me orgulhar dos que têm a pretensão de ser meus inimigos.

Constato o que querem e pensam. Observo a sutileza e a precisão dos argumentos. Deparo-me com a estupidez em estado bruto, com o raciocínio mais alvar, com a simplificação grosseira. Tudo isso, como se sabe, é marca do fascismo de direita. E o de esquerda? Não é mais inteligente. Apenas substitui a distopia despótica dos seus colegas do outro lado pela utopia despótica.

Tudo lixo.

Olavo, o 'mago' (se não me engano, está tentando ganhar uns trocos dando aula de ocultismo ou algo assim: ele é bom em ocultar coisa), tem como como arma Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e seus fanáticos".

Reinaldo Azevedo está certo quando se opõe a Jair Bolsonaro. Diz ele que defende o direito de Bolsonaro de "dizer suas tolices", como um verdadeiro liberal faria. Um direitista de centro, que frequentemente concorda com a centro-esquerda.

O problema é que, conceitualmente e pragmaticamente, eu não consigo concordar que o nosso "Tio Rei" não tenha fãs seguidores de Jair Bolsonaro. Tem aos montes.

Este é o atual mercado dele e da revista Veja nos dias atuais.

Eles podem tentar se livrar deste tipo de leitor. Mas é um processo longo e muito difícil de acontecer.

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pedrozambarda
Escreve desde os 8 anos. É editor do Geração Gamer e Drops de Jogos, além de ser repórter do Diário do Centro do Mundo.