POLÍTICA

Como atos pró-ditadura brasileiros se parecem com neonazismo em Charlottesville

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Breves considerações sobre os grupos de extrema-direita preconceituosos e pró-ditadura que ocuparam a Avenida Paulista ao lado de quem era antipetista e favorável ao combate da corrupção.

Como atos pró-ditadura brasileiros se parecem com neonazismo em Charlottesville

(Fotos: Pedro Zambarda de Araújo)

O brasileiro tem um péssimo costume de achar que o gringo vive num mundo muito melhor do que o dele ou muito pior. Não há meio termo e, como um país que passou pelo subdesenvolvimento, muitos de seus cidadãos ainda não tiveram a oportunidade de pegar um avião e ver o que acontece lá fora. Se ele viajasse até os Estados Unidos, por exemplo, poderia verificar que muito do ódio político polarizado que existe no Brasil é cópia deles. Cópia do embate entre Partido Democrata e Republicano reproduzido no UFC que se tornou o PT contra o PSDB, enredados pelo esquema de corrupção que sempre existiu com o PMDB e partidos que atuam nos bastidores.

O Brasil viveu uma ditadura civil-militar entre 1º de abril de 1964 e 15 de março de 1985. O II Exército deu um golpe em 64 com tanques de guerra na rua para depôr o presidente João Goulart, acusado de ser "comunista" por se aproximar da China e de líderes de esquerda em plena Guerra Fria. Os militares foram ajudados por fragatas americanas que iriam bombardear o território brasileiro caso a operação não se concretizasse. A repressão política brasileira fez parte da Operação Condor norte-americana.

Como atos pró-ditadura brasileiros se parecem com neonazismo em Charlottesville

O Brasil viveu as Jornadas de Junho de 2013 com manifestações da esquerda contra o preço das passagens e a repressão da Polícia Militar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Juntou-se com a multidão de rua uma massa de cidadãos apolíticos e alimentados pela grande mídia corporativa brasileira. Em pouco tempo, milhões de pessoas ocupando o espaço público por pautas sociais seriam sequestradas por grupos de direita alinhados ao discurso antipetista e contra os governos Lula e Dilma Rousseff.

Foram estes os protestos que dominaram entre 2015 e 2016, até que o impeachment de Dilma se concretizasse. Muitos dos grupos envolvidos eram neoliberais, pró-capitalismo e contra o inchaço estatal brasileiro, que é uma realidade. Mas muitas destas pessoas de classe média e alta não se solidarizaram com o fim dos programas sociais para pobres na maior recessão econômica pós-ditadura militar.

E há, entre todos os grupos da direita política, aqueles que são pró-golpe militar. Em 2017.

Como atos pró-ditadura brasileiros se parecem com neonazismo em Charlottesville

Perdi a conta de quantos protestos fui, como jornalista, ouvindo o carro de som dos militaristas pedindo por um golpe "constitucional" do Exército Brasileiro contra o governo federal. Segundo estes manifestantes de extrema-direita, autoritários e pouco propensos ao diálogo, há um dispositivo constitucional que validaria a queda do governo pelo poderio militar. Felizmente, lideranças como a do general Villas Boas, ativo no Twitter, já deixaram claro em mais de uma oportunidade que os milicos não tem o menor interesse de assumir o poder de novo.

Como atos pró-ditadura brasileiros se parecem com neonazismo em Charlottesville

Havia manifestantes SOS FFAA (sigla para "Socorro, Forças Armadas") pedindo abertamente na Avenida Paulista que degolassem e matassem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nem nas aglomerações mais socialistas e comunistas brasileiras eu ouvi algo semelhante envolvendo o presidente Temer. O que guia estes grupos é o ódio.

Charlottesville

Um protesto no dia 11 de agosto parece ter inflamado o debate político nos Estados Unidos governado por Donald Trump, um político de direita e crítico dos meios de comunicação oficiais. Ocorrido na cidade universitária de Charlottesville, no estado americano de Virgínia, a manifestação de cerca de mil pessoas foi caracterizada como uma mobilização para "unir a direita".

Munidos de tochas, o grupo ia contra políticas inclusivas de negros, pedindo a morte de militantes antifascistas e saudando uma estátua do general confederado Robert E. Lee pró-escravidão, que seria retirada da cidade.

No grito de guerra e na briga com grupos contrários, eles próprios se referiam a si mesmos como "nazistas". Um dos supremacistas brancos pegou um carro e atropelou uma das antifascistas que morreu no protesto.

Donald Trump primeiro chamou os neonazistas de Charlottesville de "extremistas" assim como os antifascistas. Depois, pressionado internacionalmente, o presidente americano condenou os grupos pró-brancos. Mas boa parte dos neonazistas se identifica como "alt-right", a extrema-direita que garantiu muitos votos a Trump nas eleições contra a democrata Hillary Clinton.

O que isso tem a ver com nossos pró-ditadura?

Embora a ditadura militar brasileira não tenha institucionalmente sido racista, o regime conduzido pelos generais Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo reconhecidamente matou mais de 400 pessoas identificadas como "comunistas". A matança pode ser descrita como sistemática e decorrente diretamente do poder do Estado.

O Brasil não tem um candidato declaradamente neonazista para 2018, mas o deputado Jair Bolsonaro já aparece com 15% das intenções de voto segundo os institutos Datafolha, DataPoder360 e outros.

Por este motivo, os atos pró-ditadura que já aconteceram e que ainda podem acontecer precisam ser vistos com lupa. 

O extremismo que tememos nos EUA com chancela do presidente Trump pode estar bem presente no Brasil de 2017, com chancela de um futuro candidato.